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Da utilidade dos muros ou a urgência de ensinar a igualdade…

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«Sempre que tiveres dúvidas, ou quando o teu eu te pesar em excesso, experimenta o seguinte recurso: lembra-te do rosto do homem mais pobre e mais desamparado que alguma vez tenhas visto e pergunta-te se o passo que pretendes dar lhe vai ser de alguma utilidade. Poderá ganhar alguma coisa com isso? Fará com que recupere o controlo da sua vida e do seu destino?»

Gandhi

Há um tempo troquei umas linhas de pensamento sobre a questão da privacidade e identidade quando se registam fotografias no contexto de uma actividade na escola. Relato um acontecimento que me fez ver para além do meu eu. O meu filho frequenta a piscina e utiliza o  transporte disponibilizado entre a escola e o complexo onde aprende a nadar. Um dia fui espreitar a aula e no final disse para o condutor do transporte que levaria o meu filho no meu carro uma vez que estava ali. Foi-me negado. Não o podia levar, disse-me. Pedi a razão, algo incomodado por ser meu filho e porque me parecia natural. Porque precisa de uma autorização da escola para o fazer. Mas era o meu filho, pensei. Devia ter o direito de o levar. Mas não. Não tive e não o trouxe no carro como esperava. A explicação é simples e foi-me dada logo ali. Três razões claras e óbvias que nunca pensei: uma – não me podia pedir identificação e como tal não sabia o meu grau efectivo de parentesco; dois – a responsabilidade era dele, transportador, a quem foi confiada a tarefa de levar e trazer de um ponto ao outro em segurança; três – não havia meio de ele saber ali se eu tinha legalmente direito de levar o miúdo pois podia haver algo em contrário por alguma autoridade superior à dele. Depois de digerir esta informação fiquei profundamente descansado. Por um lado pela segurança, por outro porque o princípio de igualdade era ali claro e preciso. Que a regulação para o bem comum supera a lógica dos interesses individuais ou instantâneos. É por isso que, num tempo em que emergem cada vez mais ideais nacionalistas, de intolerância ou discriminação a escola tem que ser este pilar do que nos resta de uma original ideia de igualdade. Se associarmos a questão (recente legal e historicamente) da privacidade e a questão da identidade percebemos que a escola e a entidade que a tutela tem o dever único de proteger a imagem, nome e demais direitos que todos temos. Ceder neste aspecto é sempre fazer prevalecer o bem individual sobre o direito de todos. Esta é uma discussão quase inútil no tempo que corre em que tudo é imagem, incoerência e demonstração. Mas cabe a quem ensina nas escolas perceber que a democracia é construída com base em princípios gerais e do bem comum por muito que isso custe. Publicar nas redes sociais ou na rede global os nomes, imagens e outros elementos de alunos, professores, funcionários ou afins porque nos parece bom promover uma determinada informação ou actividade pode ir para além dos direitos de todos. Mesmo que, para cada momento, venha um papelinho cheio de justificações para autorizar isto e aquilo que passa a servir para tudo. Neste tempo, em que a europa e o mundo estão a mudar num sentido de reverter as conquistas humanas dos últimos cem anos, urge pensar nesse bem geral e ensinar que a privacidade, a intimidade, a identidade, a imagem e outras coisas corelacionadas são, na verdade, parte de nós e que ensinar tudo isso começa pelo exemplo e pelo respeito com que as instituições tratam quem é acolhido por elas. É simples. É um principio de direito, mesmo que, abandalhado…

João Lima, Pai.

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