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Currículo enquanto prática cultural

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Tenho de reconhecer que tinha um outro tema e um outro texto preparado para o dia de hoje; contudo e por que nem sempre consigo acompanhar de formas mais pertinente e em tempo os temas da atualidade, agora que o posso fazer aproveito. Aproveito as notícias de primeira página do Expresso do passado sábado que davam conta das intenções do atual governo libertar 25% do currículo para construção local, para uso e usufruto das ditas autonomias locais.

Por ventura será ainda cedo, mas não extemporâneo, equacionar as diferentes dimensões deste desafio. E ele pode ser enorme e, pessoalmente, considero-o uma forte oportunidade de afirmar a escola e o papel dos professores. Mas antes de abordar algumas das dimensões que se pressupõem, uma referência. Entendo currículo, na esteira de J. Pacheco (2011. Currículo: entre teoria e métodos. Cadernos de Pesquisa, 39 (137), pp. 383-400), enquanto “prática cultural”. Isto é, decorrente das diversidades existentes no meio e assumindo as opções de selecionar e diferenciar conteúdos, estratégias de ensino e metodologias de avaliação.

De acordo com esta perspetiva, a proposta encerra em si mesma um enorme desafio, ou vários. Um primeiro desafio, o da descentralização. Num país habituado (e arreigado) ao centralismo, acostumado (e tanto jeito dá a tantos) a ouvir o que fazer e como fazer, a construção local de boa parte do currículo é uma oportunidade de descentralização. Este o primeiro grande desafio, o de passar das retóricas às práticas e aceitar o que está ao alcance de escolas, professores e parceiros. Sabendo de limites e condicionalismos, mas aproveitando as nesgas de oportunidade concedidas. O ótimo é inimigo do possível, e a construção do currículo é isso mesmo, saber escolher.

Enquanto segundo desafio, a construção local. As escolas e os professores, na sua generalidade não estão habituados a esta construção, arreigados que estamos a quintas e quintinhas, àquilo que outros definiram como balcanização, segmentação, compartimentação disciplinar, escolar, profissional. Criar e implementar dimensões locais do currículo significa saber integrar, agregar, juntar saberes, práticas, experiências, vontades e diferenciar – muito principalmente, soluções (ou propostas de solução).

Esta uma outra das dimensões de desafio, as soluções. As escolas e os professores (como a generalidade) estão habituados a moer problemas e, sempre que se perspetivam propostas de solução, a desvalorizar essa oportunidade. Esta opção de política encerra em si inúmeras leituras e alternativas, mas equacionar soluções locais para problemas locais é uma oportunidade de as escolas (os professores, os espaços de debate e decisão) equacionarem prioridades, diferenciarem problemas de soluções, equacionarem meios e recursos para definir propostas integradas de abordagem e sucesso.

Um outro desafio, senão mesmo o maior desafio, o de articular um contexto com as suas circunstâncias. Isto é, as soluções terão de passar por uma gestão e articulação delicada (com assumidos contornos de política pedagógica por parte dos diretores e dos professores) entre aquele que é o seu contexto (que eu entendo na triangulação de espaço, tempo e saberes) que são sempre irrepetíveis e contingentes com aquelas que são as suas circunstâncias (aqui entendidas enquanto objetivos, interesses e estratégias dos atores). O contexto é história, é cultura, é tradição. As circunstâncias são formas de mobilizar e orientar para o que queremos (ou que uns querem), para o futuro e para as soluções. E não será coisa fácil na plena consideração dos muitos interesses e objetivos que compõem hoje a escola. Este é o maior dos desafios.

Manuel Dinis P. Cabeça

02 de maio, 2016

imagem retirada daqui – e vale a pena ler.

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