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Currículo e comportamentos

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Se, na semana passada, perspectivei relações entre a gestão flexível do currículo e os comportamentos escolares, por via de dinâmicas e da gestão de interesses, hoje retomo o tema, ainda que com alguma alterações.

Sendo este blogue, no seu espírito inicial, um blogue em torno dos comportamentos e da indisciplina, será normal que possamos perspetivar as diferentes dimensões, fatores e circunstâncias que interferem, condicionam ou relacionam um e outro. Considero como um desses elementos o currículo escolar. Considero que este interfere e condiciona o conjunto de comportamentos escolares, fruto do seu equilíbrio (entre áreas e saberes) como da sua organização e estrutura (disciplinas alvo de avaliação externa e preponderâncias de sucesso). É com base no currículo, no conjunto de saberes e das formas como eles são veiculados, que decorrem relações de maior ou menor tensão, de maior ou menor despique (e, simultaneamente, se perspetivam dimensões tecnocráticas ou humanistas – brinquem, brinquem).

Assumo, como ponto de partida, que os comportamentos escolares se têm alterado. Mais desordeiros, mais instáveis, mais truculentos, mais desafiantes do ponto de vista da relação de sala de aula. Oscilam entre uma aparente conformidade, marcada muito pela indiferença e pelo alheamento ao que se passa em contexto de sala de aula e uma permanente disputa, senão quase que um confronto entre partes que, sendo assumidamente diferentes em si, se confrontam num cara a cara, no frente a frente.

Por outro lado, considero privilegiadamente as situações de disciplina em detrimento da indisciplina em si mesma. Isto é, o trabalho na escola e em sala de aula remete para situações desequilibradas porque hierárquicas e funcionais. Quando em confronto (muitas vezes por questões de recusa dessa hierarquia ou dessa funcionalidade) espoleta-se uma situação que muitos designam como indisciplina, por que assente na recusa de um modelo, no confronto e contestação de uma ordem.

É possível, quanto desejável, criar a relação entre currículo e comportamentos escolares, considerando que a sua relação se posiciona no patamar de fomentar ou dissuadir factores de tensão. Nomeadamente quando o currículo se apresenta, como tem sido o caso nos últimos anos, desde, pelo menos, o decreto lei 139/2012, manifestamente desequilibrado, no meu entendimento (⅓ é para português e matemática e o restante para as demais o que faz com que na área social – história e geografia – cada disciplina não tenha mais de 7% dos tempos letivos e as ciência naturais se fiquem pelos quase 10%.)

Se considerarmos o 3º ciclo do ensino básico, onde as situações de indisciplina são mais frequentes, de acordo com estudos deste mesmo blogue, poder-se-á aceitar que para isso muito contribuirá o desinteresse, a indiferença, o alheamento dado por um conjunto de disciplinas que saturam, destacam dificuldades pessoais e se assumem como elementos de insucesso (consequentemente de desinteresse, indiferença, alheamento).

A proposta que se apresenta, sem ser o ai jesus de coisa nenhuma, nem o comprimido milagroso que muitos ambicionam, poderá criar equilíbrios onde antes não existiam e, desse modo, garantir uma outra (con)vivência em contexto escolar. Assim o espero.

Manuel Dinis P. Cabeça

Coisas das aulas, 20 de fevereiro, 2017;

Imagem daqui.

2 COMMENTS

  1. Vamos, então , ser optimistas.

    Numa aula do 7º ano, perante o reparo de uma das 2 professoras presentes na aula a um aluno que continuamente desestabilizava a dita (aula), o aluno respondeu:

    _ ¨”Não me chateie. Vá para casa dormir ou f**der”.

    Espera-se que , futuramente, a resposta deste aluno se fique por um ” A professora não quer ir para casa dormir? Temo que não esteja com boa saúde”….ou qualquer coisa fofa do género.

  2. Oi:
    Uma das dimensões do perfil do aluno, agora proposto é “Aprender a relacionar-se, a interagir e a trabalhar em equipa”. Esta dimensão pretende trabalhar explicitamente as competências de estabelecer e manter relacionamentos adequados, quer a nível pessoal, quer a nível profissional. Assim, considero que esta dimensão implica a existência de abordagens didáticas que fomentem nos alunos comportamentos adequados em diferentes circunstâncias, incluindo a sala de aula. Assim, este perfil considera o comportamento como uma competência a ser trabalhada durante a formação dos alunos!

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