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mundo mãosAtravessou a rua e parou no passeio da avenida larga, inundada de sol radioso e castigador. Ao contrário da maioria, não se importava de não estar de férias nesta altura do ano. Lisboa em Agosto transformava-se de cores e ritmos, tornava-se mais fluída, mais livre e mais enigmática, mesmo (e sobretudo) para quem a conhecia de olhos fechados. O calor intenso esmorecia o frescor da camisa branca acabada de vestir. Alisou com as mãos transpiradas a saia azul e recuou alguns passos, até sentir a sombra generosa do jacarandá. Ao longe avistou o autocarro da empresa e, contrariada, voltou a aproximar-se da berma.

«Bom dia, menina», cumprimentou o motorista com um sorriso tranquilo. »Bom dia, Sr. Zé», respondeu com genuíno agrado. Gostava de trabalhar com o Sr. Zé, alentejano de mãos ossudas e marcadas, testemunhas de anos de lavra e plantio, algures numa encarnação anterior à fuga para a cidade grande.

«Então, menina, o que temos hoje?» cantarolou no maravilhoso sotaque da sua terra. «Não sei, Sr. Zé. Sabe como é o Verão, não sabe? Nunca sabemos o que nos espera. Hoje está tanto calor… Gostava que me calhasse um grupinho pacato e simpático. Isso é que era.» O Sr. Zé acenou em concordância e conduziu mansamente na direcção do rio.

Assim que o autocarro se imobilizou junto ao cais, viu várias mulheres de blusa branca e saia azul idênticas às suas, rodeadas de pequenos grupos de pessoas que as escutavam e seguiam como pintainhos curiosos. Reconheceu a voz da supervisora que disparava enérgicos ‘Bons Dias’ em todas as direcções. «Olá, olá», dirigiu-se-lhe com despacho, «aquele é o seu grupo, vêm do cruzeiro dos Estados Unidos, portanto, o seu tour hoje é em Inglês.»

Olhou na direcção indicada pela sua chefe e respirou fundo. À sombra exígua de um toldo, cerca de vinte turistas ruidosos e alegres conversavam animadamente. Os mais velhos, manifestamente incomodados com o calor desmoderado, refrescavam-se com os folhetos turísticos e mapas da cidade, que agitavam na frente dos rostos transpirados. Algumas crianças davam corridinhas nervosas e falavam alto, reclamando a atenção incondicional dos adultos. Todos acolheram com agrado o convite para entrar no autocarro e dar início à visita guiada.

A manhã foi escorrendo como de costume. A voz suave e colocada ia soltando as habituais referências históricas, informações e curiosidades acerca dos locais e monumentos de Lisboa, tornando-se cada vez mais automática e monocórdica, à medida que o descaso da plateia se ia tornando mais evidente. Atrás dela, os turistas cavaqueavam em voz alta, cruzando conversas de um banco para o outro, de trás para a frente, de um lado para o outro, as crianças a fazer valer os seus queixumes à força de gritos.

O seu olhar cruzou com o semblante embaraçado do Sr. Zé. Respondeu com um sorriso agradecido à careta simpática de solidariedade que ele lhe enviou e encolheu os ombros. Atrás de si, uma voz interrompeu-a. Uma das senhoras inquiria acerca da existência de shopping areas em Lisboa e logo aventou a possibilidade de visitar um mall antes de regressar ao navio, no que foi fervorosamente apoiada pelas restantes. Os senhores, demasiado exauridos para verbalizar opinião, soltavam pequenos balidos encalorados e olhavam cobiçosos na direcção das esplanadas do Campo das Cebolas.

Subitamente, desponta o alvoroço. As crianças soltam gritinhos pasmados, dedinhos em riste, frontes coladas ao vidro, as senhoras cochicham perplexas. Uma delas, mais afoita, questiona: ”ó menina, não foram vocês portugueses que descobriram o Brasil?».  A menina trocou uma olhadela aturdida com o Sr. Zé e acenou afirmativamente. A senhora, cada vez mais aguerrida, continuava: «ó menina, não são vocês portugueses que se fartam de se vangloriar de serem grandes marinheiros e terem descoberto o Brasil?», insistia na sua característica pronúncia nasalada. Cada vez mais intrigada, a menina murmurou um cauteloso e arrastado sim.  «Aha! Grande coisa!» declarou com exaltação, «grande, GRANDE coisa, a sério». E levantou-se, triunfante, apontando lá para fora: «olha a grande dificuldade! É mesmo já ali! Até se vê daqui o Cristo Rei! A sério, a sério, que descoberta tão difícil», escarneceu, coradinha de satisfação.

A menina emudeceu, o raciocínio encalhado. Não sabe precisar quanto tempo passou neste marasmo lerdo e só se lembra de ter despertado da dormência e dar por si a limpar afanosamente o pára-brisas do autocarro, para onde voaram todas as gotas de água que o Sr. Zé cuspiu a alta velocidade, quando inusitadamente se engasgou.

MC

Imagem retirada de: http://pt.up-wallpaper.com/mundo-as-palmas-das-maos-pintado-mapa/

Estendal

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