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Criança sofre ou docente sofre?

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É um facto comprovado que a violência gera violência (seja ela física ou verbal) e para além disso quem faz uso dela perde toda a razão, em contexto escolar e fora dele.

Na educação deveria reinar e prevalecer sempre o respeito mútuo, a calma, a entreajuda, empatia e o civismo entre os vários intervenientes. A escola deve transmitir o exemplo de boas práticas educativas/letivas mas para que tal aconteça os profissionais da educação devem ser valorizados, tratados dignamente e com respeito quer por alunos quer por encarregados de educação e se assim não for, torna-se impossível um ensino de qualidade e sucesso. Devem ser todos aliados: professores, pais e alunos, num trabalho conjunto, em prol de um bem maior, “o futuro e a educação das nossas crianças”.

No entanto é complexo gerir muitas situações que vão ocorrendo em contexto escolar, por vezes já não há mais reservas ou réstia de força que permitam gerir os imensos problemas de uma turma ou de várias turmas, sob a alçada de um mesmo professor…

Como docente, lecionei numa escola, no âmbito das AEC (atividades de enriquecimento curricular), em sete turmas, no 1º ciclo de escolaridade – 3º e 4º anos e gostaria de deixar aqui o meu testemunho, descrevendo algumas das situações adversas que tive que enfrentar nesta minha prática letiva.

Cada vez que entrava na sala de aula havia um barulho ensurdecedor e insuportável no seu interior, (uma vez que a professora anterior acabara de sair e havia troca de docente). Era habitual encontrar os alunos já envolvidos em lutas e agressões dentro da sala de aula, às quais prontamente pretendia pôr termo mas depois, passado alguns meses, constatei que seria impossível apesar de todos os meus esforços…

Conversas amenizadoras diárias, contos delicados e bondosos, filmes didácticos, jogos de vocabulário, atividades lúdicas, conversas com a professora titular, reuniões com os pais…  todas as estratégias foram esgotadas mas nada se conseguia fazer para travar a enorme falta de regras dos discentes, que não reconheciam no professor qualquer autoridade, muitas vezes apoiados pelos pais.

Acabei eu mesma por ser agredida duas vezes, na tentativa de os separar nas suas “guerras” intermináveis e sem motivos lógicos conhecidos.

Ao longo do ano, assisti a episódios como estes: óculos partidos entre alunos; caixa de eletricidade da sala de aula rebentada; a sanita do quarto de banho completamente cheia de papel higiénico até à tampa e a transbordar de água para o chão; bolas de papel empapadas em água e coladas ao teto; torneira aberta no máximo e água a correr durante todo o intervalo; terra e literalmente formigueiros no chão da sala de aula, com formigas a correr por todo lado (que recolhiam do recreio e levavam para o interior da sala durante o intervalo), entre muitos outros episódios.

Um dia bloquearam também a entrada de acesso à sala às professoras das AECs, estavam todos em grupo à frente da porta dizendo que estavam em greve e se recusavam a ter aulas, tendo que ser chamada a direção da escola. Também não existiam cartazes ou desenhos dos alunos afixados nas paredes; todos eles eram de imediato arrancados e rasgados; a sala tinha um aspeto desolador e imundo. Os cartazes ou trabalhos que ainda resistiam estavam afixados mesmo junto ao teto, à altura a que não lhe podiam ter acesso. 

Cheguei ao final do ano com a sensação de que todos os meus esforços constantes foram quase infrutíferos, aquelas crianças não respeitavam a minha boa vontade, nem o meu profissionalismo, nem os meus bons conselhos, nem a minha prática letiva, recorrendo a inúmeras atividades de incentivo, nada… absolutamente nada os mudava. Terminei o ano com um esgotamento e depressão severos que minaram a minha saúde até hoje, algo que nada me surpreendeu.

Houve uma outra professora que, trabalhando no mesmo contexto, e perante tal stresse e desgaste psicológico, acabou por desmaiar em plena sala de aula, tendo sido socorrida pelo INEM e levada ao hospital.

Infelizmente esta não é uma situação isolada de rebeldia e indisciplina, lecionei em muitas escolas pelo país, de norte a sul e certas situações de pura indisciplina repetem-se reiteradamente, havendo muitos docentes notoriamente extenuados e doentes.

Os alunos não se podem julgar sempre impunes e intocáveis, tal como se consideram atualmente, e não têm sempre a razão pelo simples facto de serem menores, como tal vistos sempre como inocentes, pois nem sempre o são. Assim como os professores não devem ser sempre apontados e condenados em praça pública só porque são adultos, pessoas idóneas e como tal obrigados a gerir o desrespeito constante, e ao mesmo tempo, forçados a serem excelentes profissionais sem quaisquer tipos de condições.

 A base de tudo é o respeito mútuo, a compreensão, o cumprimento de regras e o civismo por parte de todos os intervenientes no sistema educativo.

Mónica Guimarães

1 COMMENT

  1. Sofrem ambos, minha querida colega.
    Sofremos todos se não houver respeito pela autoridade do Professor, se este for visto como alguém estranho e “inimigo” para as crianças. Dou-lhe total razão:
    – Todos têm que cumprir a sua parte, agir pensando no aluno. E pensar no aluno, não é dar-lhe razão quando ele não a tem; não é escolher na turma o aluno cujos pais “não incomodam” e despejar sobre ele toda a vontade de “ralhar”, dizer-lhe aquilo que não se diz aos outros, embora fossem eles a merecer ouvi-lo…
    O rigor, o tratamento justo e proporcional a todos os alunos é essencial.
    Falo contra colegas? Sou má colega? Só me vê assim quem não cumpre, quem por exemplo, sai ao toque da campainha e não entrega os alunos aos professores das AEC, dificultando a tarefa daqueles, que pode ser tão útil e complementar à do titular de turma.
    Mas quem faz o contrário, como eu sempre fiz, acaba doente, esgotada, em casa… Portanto, não digo mal de colegas. Compreendo que se protegem e à sua própria saúde.
    As moedas têm duas faces- sofrem os alunos e os docentes. Tem que existir alguém que ajude e oriente, que castigue se for o caso.

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