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Conversa da treta e reuniões da treta

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Das coisas que mais me cansa na escola são as reuniões… reuniões que não servem para nada, reuniões em que um simples email tinha o mesmo efeito, reuniões que uma qualquer plataforma podia substituir, reuniões onde se descarregam as frustrações da profissão, reuniões onde pouco ou nada se constrói, reuniões que pouco ou nada mudam a aula do dia seguinte, do período seguinte…

O desabafo que se segue é apenas mais um, mais um que está carregadinho de razão, mais um que continua atual apesar de já terem passado 6 anos. É triste constatar que os anos passam e a escola continua a cometer os mesmos erros. Continua amarrada à desconfiança, continua a registar tudo, continua a gastar toneladas de papel que só servem para encher um arquivo que como o próprio nome indica está morto… É uma escola gasta, cansada, onde os professores sonham em ser apenas professores.

Talvez um dia…

Perder a Alma

acabo de chegar a casa. estou exausta, enervada. passei 10 horas na escola, dei 2 aulas. o mais foram tarefas de treta, tempo de espera para a reunião das 18.20. na próxima 6ª feira tenho duas, no fim do meu dia de trabalho. não haverá tempo de espera. ao todo, terei estado 12 horas na escola. são tempos de cad e de gpi e do blogue da escola (que faço em casa), mais reuniões semanais ordinárias, mais reuniões extraordinárias quando calha e não refiles, reuniões basicamente para nada, em que já não aturamos sequer a presença, a voz do outro, reuniões que terminam de noite e em que se preenchem papéis e papéis e papéis com coisas que de qualquer forma faríamos -sem as registar e com muito mais disponibilidade. chego a casa e não consigo fazer nada do que supostamente deveria: preparar aulas, ver os mails dos meus alunos, orientar-lhes o trabalho no início do ano. não tenho energia nem para comer. apetece-me desabafar, ainda que saiba que não adianta, que poucos lerão e ainda menos vão entender, nada vai mudar, jamais. o ministro gaba-se dos seus (des)feitos e eu continuo com o mesmo horário sobrecarregadíssimo, tarefas sem sentido, burocracias que me devoram a alma e me aceleram as pulsações. podia agora tomar antidepressivos, ansiolíticos, dormir, esquecer a inutilidade disto tudo, a perversidade de um sistema vampiresco que me suga e suga e suga. nem dormir posso, para já, acordaria cedo demais e depois não conseguia dar as aulas, amanhã. não vejo televisão, ainda que, agora, só me apeteça estupidificar, deixar-me hipnotizar. deprime-me a mediocridade, as notícias dão-me náuseas, não aturo as mentiras dos políticos. também não oiço música, nada. quero um silêncio absoluto, telefones desligados, janelas fechadas. tenho 56 anos de idade, 33 e tal de serviço. sou hoje uma professora derrotada, desfeita. pudesse eu pedir isenção do serviço não-lectivo, reuniões, reuniões, reuniões e as pessoas que se levam tão a sério. reuniões para nada, fora do meu horário de trabalho, reuniões que não contam como horas extraordinárias como se não tivessem existido nunca, espremidas dão zero, dão sangue. a cada uma que aturo contrafeita penso que vou ter um ataque cardíaco, um avc. vou pedir a reforma antecipada. sei que depois de 33 anos e tal a descontar para a segurança social trarei para casa uma miséria, nem sei se chega a mil euros. estudei 18 anos para ser professora (4+7+5+2). Estava no último escalão da carreira, o ecd de maria de lurdes rodrigues recambiou-me para o nono, o sócrates pseudo-tudo reduziu os dois mil euros mensais que recebia para cerca de 1800, passos coelho das falsas promessas retirou-me os subsídios, de natal, de férias. estudei 18 anos, empenhei-me, aperfeiçoei-me, dediquei muitos anos à escola, tantas vezes com prejuízo da minha família, o tempo, a paciência que dedicava aos alunos e faltava depois ao meu filho. tantas vezes. a sinistra  matou-me, matou-nos, os efeitos sentem-se numa continuidade de ondas. isabel alçada e nuno crato não fizeram NADA para me devolver à vida. a escola-instituição, é, desde há 6 anos, um pesadelo. dias há em que chego e não consigo entrar. fico cá fora à chuva ao vento à canícula, fumo cigarros atrás de cigarros até chegar a hora de dar a aula propriamente dita. apetece-me fugir, hibernar, às vezes morrer. hoje, de volta a casa, uma condução que poderia ter-me custado a vida, a falta de reflexos pelo cansaço extremo, e a ânsia, a urgência de me afastar dali o mais rápido possível. o stress, a revolta pelas condições de trabalho que me impõem e que não vão mudar nunca. horas e horas na escola, tarefas sem sentido, 30 e tal graus dentro de uma sala ouvindo que a turma, que foi minha no ano passado, tem 16 rapazes e 14 raparigas que os alunos preferem sair com os amigos a ler livros que que que que.. kafka na sua expressão absoluta. estou cansada, não quero repetir isto amanhã, e depois, nas duas semanas em que duram as reuniões extra-horário, extra tudo. ouvi, e não quis acreditar: “um aluno que seja mandado para a sala de estudo sem tarefa regressa à sala de aula – de que foi expulso por mau comportamento”. pensei numa loucura colectiva e irreversível que nos atinge, que fazemos todos parte de um maquiavélico plano de extermínio. chega. eu era uma professora entusiasmada. gostava de procurar e preparar materiais para os meus alunos, de aprender pesquisando, experimentando. e lia, lia muito, fiz para eles blogues e moodle e páginas web com escritores, música, história, cultura – em inglês francês espanhol alemão português. meti-me no projecto e-twinning e e-learning e fui auto-didacta e trabalhei milhares e milhares de horas aos fins-de-semana, em férias. tudo fiz por gosto, num tempo em que alegadamente os professores “não eram avaliados”. agora só quero não pensar, se possível fugir fugir fugir. falta-me o tempo e o ar, não posso senão ir-me embora.

In OVENTOQUEPASSA, 20 de setembro de 2011

5 COMMENTS

  1. Ena… Encontrei a minha sósia ?
    A grande diferença é que, tendo começado a trabalhar ainda enquanto estudava, tenho quase esse tempo de serviço mas sou bastante mais nova (e o vencimento bem mais curto). No entanto, a sensação de tristeza profunda é exactamente essa.

  2. Mesmo com novas plataformas, que supostamente ajudariam à burocracia e simplificariam tudo, o que acontece é que se lança tudo nas ditas plataformas digitais e depois……imprime-se tudo. Porque sim.

    Deve ser da transição do séc XX para o XXI. E o trabalho duplica-se…..

  3. Como entendo a frustração. É uma boa “revisão da literatura” com a qual me identifico. Infelizmente os quadros intermédios e os de topo da gestão continuam ” doentes” e dão imensos sinais de que não sabem nada. Será amnésia qualificada??

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