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Contratos de Associação

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Primeira declaração de interesses: sou diretora de duas escolas privadas e nunca recebi um cêntimo de apoio do Estado.

Segunda declaração de interesses: Sendo colégios de jardim de infância e 1º ciclo, nem que quisesse poderia estar ao abrigo desses apoios, aplicáveis apenas aos 2º, 3º ciclos e ensino secundário.

Fotolia_88515208_SPosto isto, cumpre-me dizer que, por princípio, concordo que o Estado social se defina pelo apoio dos mais necessitados. As necessidades de uns são as obrigações de outros. Assim entendo uma sociedade civilizada na qual me orgulho de viver e para a qual contribuo – muito! – todos os meses, sem apelo nem agravo, considerando justo ou injusto, muitas vezes atrasando as retribuições que me são justas para cumprir com as minhas obrigações. Faço parte dos patrões que não têm offshores, que não roubam, que se sacrificam. O simplismo com que se rotula os patrões como se fossem todos bandidos por decreto é aterrador e tão demonstrativo de ignorância como dizer que todos os trabalhadores são honestos.

Orgulho-me de ter mantida a minha equipa unida mesmo nos momentos de crise. Sei do valor de cada homem e mulher que que me acompanha todos os dias e que muito contribui para o crescimento dos meus Colégios. Sei que posso contar com cada um como eles sabem que podem contar comigo. Nos momentos de maior crise por que todos os Colégios privados passaram, soubemos manter-nos juntos, criando uma força que nos permitiu nunca despedir ninguém e apoiar muitas famílias que foram afetadas pelo infortúnio do despedimento e da imigração. Muitas vezes as mensalidades não podiam ser pagas, mas nunca fechámos a porta a ninguém nem negámos vagas aos mais necessitados. No pico da crise, soubemos manter os valores sociais acima dos valores financeiros. Fizemos o impossível. Agora que fizemos o impossível, somos mais fortes, estamos mais unidos, somos melhores.

Enquanto isso, vi – vimos – casos de escolas com contratos de associação que passaram incólumes pela crise pois o financiamento deles estava garantido. O meu trabalho tinha de pagar as minhas contas, apoiar a escola pública – que defendo de forma inquestionável – e as contas dos que nasceram por uma razão – deficit de oferta na escola pública – mas mantiveram-se por outra. Algo vai muito mal quando escolas públicas estão meio cheias e ao lado funciona uma escola privada subsidiada pelo Estado. Algo está terrivelmente mal quando escola privadas têm de despedir os seus funcionários porque a dois passos têm uma escola com contrato de associação, com equipamentos fabulosos, instalações imaculadas, cujos pais pagam pouco mais do que zero. É um máquina que alimenta muita gente sem vergonha. Vi pessoas com ordenados muito acima da média nacional a forjar a morada para fazer parte da “área de residência”. Ouvi conversas de mães a anunciarem com orgulho as negociatas que fizeram com habitantes da área de residência da escola, pagando umas mensalidades da televisão por cabo de alguém para que o contrato ficasse em seu nome no momento da inscrição. Um mercado negro da educação.

Por princípio, condeno um sistema que premeia a mão estendida e despreza o mérito. Admiro a coragem de quem quer separar o trigo do joio. Há escolas que se justifica manterem um apoio do Estado para garantir o direito gratuito à educação aos jovens que não dispõem de oferta pública? Mantenha-se. Há escolas que estão a sugar os recursos preciosos e escassos que poderiam a ser utilizados com quem realmente precisa? Acabe-se com isso. Faça-se uma averiguação séria, a bem da decência. Mas espere-se que estas medidas não deixem zangados só os diretores escolares. Há muitos pais que também não vão gostar de perder privilégios que não merecem e para os quais não pagam.

Sofia Homem Cristo

Diretora do Colégio da Beloura

colégio da beloura

5 COMMENTS

  1. Foi com bastante agrado que li este artigo da Sofia Homem Cristo, apesar de ser diretora de duas escolas privadas, é capaz de manter uma imparcialidade e honestidade sobre o que está realmente em causa.
    Era bom que os visados também tivessem a mesma capacidade. E se acham que vão ter de despedir professores, se calhar deviam contactar um diretor de uma escola pública para saber como se consegue educar praticamente sem dinheiro…

    • Eu lamento que se entenda o direito à escolha na educação só para quem tem dinheiro. É disto que se fala quando (supostamente) comemoramos a liberdade.
      “(…)se calhar deviam contactar um diretor de uma escola pública para saber como se consegue educar praticamente sem dinheiro” Se calhar, digo eu, devia era conhecer melhor a realidade destas escolas, antes de confiar em tudo que lê. Garanto-lhe que seria surpreendido com a realidade. É só uma ideia.

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