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Congelados, desmotivados, envelhecidos, prostrados e competentes… mas até quando?

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Se me perguntassem sinónimos para a profissão docente estes seriam os primeiros a vir-me à cabeça. Hoje o DN faz capa com um aviso que os funcionários públicos não vão ter aumentos em 2017, mais do que ter aumentos eu quero é sair do congelador. No site do SPN consta o calendário da congelação docente e que publico em baixo.

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Como podem ver, no dia 31 de dezembro vamos perfazer 3045 dias congelados o equivalente a 8.3 anos. Ou seja, estamos a falar em 2 escalões que já foram ao ar. A título pessoal estaria a 60 dias de subir para o 4º escalão, em vez disso estou a 60 dias de subir ao 2º escalão. E num ato de puro masoquismo, se quiserem ver quanto deveriam estar a ganhar carreguem aqui.

Já nem falo nos cortes salariais, já nem falo no agravamento brutal do irs, da segurança social e da ADSE. Estamos a falar de uma geração que está a pagar todos os excessos e má gestão cometida no passado, uma geração que nem sabe se vai ter reforma. Uma geração que se sente defraudada, desiludida e enganada.

Não vou ser hipócrita e dizer que só trabalho pelos meus alunos, que eles me realizam e que o mundo é cor de rosa e eu saltito nas nuvens do altruísmo… Ser professor é lidar com barulho, com palavrões, com agressões, com dificuldades de aprendizagem, com pais que exigem mais dos professores do que dos alunos, com “tricas” entre professores, com direções que por vezes se esquecem que também são professores, com burocracia e legislação que sai a um ritmo mais rápido que o pão de uma padaria. Se somarmos a isto a questão financeira, a desmotivação é muito elevada, certamente acima dos 95% (perceção minha).

desmotivadoE para agravar a situação temos um corpo docente cada vez mais envelhecido, cansado e como se compreende com uma postura cada vez mais frequente de apenas picar o ponto e fazer aquilo que é obrigado. A escola não pode funcionar assim, é preciso uma dedicação e um espírito de compromisso que vai muito além das questões financeiras. Para a pedagogia não existe relógio, mas curiosamente é aos minutos que nos continuam a catalogar…

Por fim a prostração. Os professores estão com a espinha dorsal partida, isto pode melindrar algumas opiniões, mas é o que sinto. Existem focos de resistência aqui e ali, mas a descrença é tão grande que gerou indiferença. Não se acredita em governos, não se acredita em ministros e não se acredita em sindicatos. Estamos sempre desconfiados que existem segundas e terceiras intenções, e o problema é que a realidade mostra que existem…

Tendo como base o que escrevi, os professores são competentes? São, mas questiono-me até quando? Sinto a escola no limite e anda muita gente a brincar com o futuro do país. Os alunos são menores, é verdade, não têm culpa e os professores na sua globalidade percebem que não é justo puni-los pelas injustiças que lhes são cometidas. Mas é cada vez mais comum ver professores a fazer menos, a não querer abdicar do seu tempo para a causa escolar. A escola vive muito da personalidade dos seus docentes e já agora não docentes. Aqueles que gostam de trabalhar em prol dos outros fazem muito do trabalho gregário, mas são muitos os que até ganham o dobro e fazem o mínimo possível. Não é justo!

Estas disparidades causam mal estar interno e não fácil gerir estas clivagens que ocorrem nos bastidores. Para terminar vou transcrever o que disse um diretor, num estudo que irei apresentar em setembro (A palavra aos Diretores e Presidentes dos Conselhos Gerais) e que subscrevo na integra.

Mais do que contratarmos em total autonomia é importante que as escolas possam ter mecanismos que permitam que os docentes que apenas fazem por deixar passar os dias deixem de fazer parte dos seus quadros. O mérito dos docentes dedicados à escola não é minimamente reconhecido pela tutela. O congelamento das carreiras contribui para o acentuar da desmotivação dos docentes.

Funcionários públicos não vão ter aumentos em 2017

(Luís Ribeiro)

2 COMMENTS

  1. Continuamos a ser roubados….onde estão os gritos dos sindicatos ( eu também lá estive) onde se dizia (para o Passos Coelho) “Governo Ladroeiro dá para cá o nosso dinheiro” agora como apoiam a geringonça estão Caladinhos…

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