Início Editorial ComRegras no Educare.pt | Disciplina: que caminho, que futuro?

ComRegras no Educare.pt | Disciplina: que caminho, que futuro?

183
1

Texto escrito para o site Educare.pt

Disciplina: que caminho, que futuro?

novos-caminhos

Após a publicação dos mais recentes dados sobre a indisciplina e a criminalidade escolar – Blogue ComRegras, Programa Escola Segura, Conselho Nacional de Educação, entre outros – estamos perante uma certeza: a indisciplina em Portugal não é apenas uma perceção, é real, é elevada e existem números que a comprovam.

Mais do que procurarmos culpados, ou ignorar a realidade, importa criar um plano a curto/médio prazo que, dia após dia, mês após mês, ano após ano, combata este flagelo.

Quatro áreas que considero essenciais:

Ministério de Educação/órgão de Gestão
A última década inverteu a pirâmide educacional, os professores deixaram de ser figuras do saber e tornaram-se bodes expiatórios para tudo o que de errado se passava na escola. Além de criar condições, a tutela precisa de, pelo menos, não atacar os seus profissionais. É um princípio básico para quem quer ter funcionários motivados e respeitados, interna e externamente.

Urge profissionalizar a abordagem às questões disciplinares, através da criação de um observatório que analise, acompanhe e oriente o trabalho que é realizado pelas escolas, permitindo, simultaneamente, uma elevada autonomia para que ao nível micro se apliquem estratégias preventivas: gestão curricular; gestão da carga letiva; dimensão das turmas; implementação de modelos pedagógicos ajustados às características dos alunos e uma forte simplificação legislativa, nomeadamente através de um estatuto do aluno que salve a escola de um autêntico tribunal dos pequeninos.

Encarregados de educação

É o maior desafio que temos pela frente e de difícil resolução. Os encarregados de educação que precisam de mais apoio e orientação são aqueles que normalmente nunca comparecem e que mais desligados estão do seu papel educativo. O que fazer então? Criar novas raízes, apostando nos mais novos, para que a árvore educativa cresça de forma salutar, introduzindo uma política de proximidade, fortalecendo o papel das associações de pais, associando apoios sociais a desempenho parental. Não concebo que encarregados de educação que não cumpram com as suas obrigações parentais usufruam das nossas obrigações contributivas. Afinal, somos ou não somos uma sociedade?

Professores
Comecemos pela base. Os professores são vítimas de uma formação que passou ao lado das questões disciplinares e foram literalmente despejados para uma realidade que muitos não antecipavam. Muito fazem eles e a escola pública só não implodiu graças à sua resiliência e elevado sentido de responsabilidade. Mas também estes têm de se ajustar a uma juventude que respira tecnologia e que não aceita um papel submisso em sala de aula. Aulas teóricas, meramente expositivas e com uma linguagem muito técnica, não cativam e potenciam condutas mais adequadas a um café do que a uma sala de aula.

Alunos

Por fim os alunos. Também eles têm de desempenhar o seu papel e cumprir com as suas obrigações. Se queremos formar adultos responsáveis e autónomos também temos de lhes fazer sentir que as suas escolhas têm consequências, boas ou más, e, independentemente do seu estatuto social, educação parental e influências sociais, também eles têm de fazer uma escolha, serem os donos do seu futuro e não meras vítimas, vivendo na sombra de uma cultura de desculpabilização.

Os caminhos da disciplina são conhecidos, quer as suas proveniências quer os seus destinos, falta o mais difícil: escolher um rumo, assumi-lo e dar-lhe tempo, pois a viagem será longa e com muitos obstáculos pelo caminho…

Nota: na sequência deste texto, recomendo a leitura do artigo de José Morgado – Da Indisciplina Escolar – do blogue Atenta Inquietude

COMPARTILHE

1 COMENTÁRIO

  1. Perguntam como envolver os pais?

    Conheço alguns casos fantásticos de professores da escola pública que conseguem ter a maioria dos pais a participar de forma muito ativa e positiva na escola. Como fazem?

    Dos casos que tenho visto (e isto é mesmo só uma observação pessoal e só com professores do primeiro ciclo) existe um esforço grande para comunicar diretamente com os pais, explicar os objetivos, criar projetos conjuntos, onde todas as experiências são valorizadas e integradas na escola. Se um pai sabe costurar, então tentam envolvê-lo nas festas da escola fazendo roupas para os meninos. Se uma mãe sabe fazer bolos, então pede-se que faça uma aula de culinária ou participe numa venda de bolos para angariação de fundos. Se um pai é biólogo, pede-se-lhe que organize e lidere uma saída de campo. Se uma mãe é médica, é a pessoa ideal para falar de saúde aos alunos. Se um pai gosta de futebol, então é a pessoa ideal para organizar um torneio na escola. E no final agradece-se a todos, valorizando fortemente a sua participação. Chama-se a isto envolver a comunidade no plano educativo. E os pais são a primeira frente desta comunidade educativa, e se calhar os mais interessados.

    Mas será isso que se faz na maioria das escolas? Para que é que se chamam os pais à escola? Para lhes comunicar as decisões do corpo docente e direção da escola, as regras e os calendários (de forma críptica para muitos e/ou dando informação que podia ser dada num qualquer e-mail). Para lhes entregar as notas e falar (muitas vezes mal) dos filhos. No máximo para celebrarem o dia do pai e da mãe.

    Assim, porque se sentirão os pais com vontade de participar? Participar em quê? Ajudando os meninos a fazerem os TPCs com os quais se calhar não concordam, não percebem e não vêem como úteis? Dando sermão aos meninos quando se portam mal? Para que queremos os pais afinal?

    Tal como acontece com os alunos e com os professores, para envolver os pais na escola é preciso motivá-los e mostrar-lhes como são bons e como podem ser ainda melhores, como o que fazem tem valor, não só para o seu filho mas para toda a turma. A motivação é sempre o fator principal!

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here