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Competências do Séc XXI

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educa.futuroO papel do professor tem sido ajudar os alunos a desenvolver os conhecimentos e competências que os ajude a pertencer e participar na sociedade. O problema que se coloca atualmente é o rumo da nossa sociedade, as mudanças dos nossos tempos – particularmente com a influência das tecnologias – e o quanto têm desafiado a função do professor e provocado a reflexão acerca do tipo de competências que os alunos precisam de adquirir.

Ninguém sabe como será o futuro. Ninguém consegue prever o tipo de competências que serão exigidas a estes jovens quando entrarem no mercado de trabalho. O que sabemos é que a maior parte das profissões da próxima década ainda nem sequer existem. Sabemos que algumas competências, como a memorização, serão cada vez menos importantes devido ao suporte da tecnologia.

Várias organizações internacionais já estão a fazer um trabalho muito meritório neste campo. Estão a juntar especialistas de diversas áreas para que se pense no ensino que é urgente praticar hoje e que tenha validade num futuro próximo, mesmo que mude muito do que entendemos como estável e previsível. Na minha opinião, a resposta está no desenvolvimento das competências.

Por competências, entendo a junção entre conhecimento, aptidão e valores aplicados de uma determinada forma a um determinado domínio. As competências necessárias para suceder no séc XXI são diferentes das que eram no Séc XX, ou pelo menos, estão organizadas de forma diferente. Há diversos quadros de referência internacionais para estas competências do Séc XXI, dos quais destaco o quadro europeu – ver European Schoolnet.

Destas competências, o domínio da língua inglesa é inquestionável. É a língua internacional comum. Tal como é inquestionável a necessidade de integrar as disciplinas, agora divididas por uma questão de inconveniência surgindo áreas disciplinares onde os alunos estudam conteúdos reais. Por exemplo, num trabalho conjunto dos professores de matemática, história e geografia, e é pedido aos alunos que façam um projeto onde terão de integrar a história cultural do Egito, as influências que a cultura teve na demografia do País, e as características das pirâmides da Necrópole de Gizé. É mais complexo, dá mais trabalho, mas faz mais sentido do que pedir (em matemática) para calcular a área de uma pirâmide abstrata, ou pedir dados que podem ser compilados de qualquer wikipédia e “despejados” num teste. Pede-se a integração dos conhecimentos. Exige-se uma reflexão crítica.

Naturalmente, há domínios subjacentes a estas competências que estão a desenvolver também. Falo de criatividade, capacidade de comunicação, colaboração, competências digitais, pensamento crítico e responsabilidade pessoal e social.

A criatividade é aqui entendida como a capacidade de expressar algo novo e com valor para o próprio ou para a colaboração com os outros. Envolve iniciativa, empreendedorismo, assumir riscos e aprender com os erros e avaliação destas criações para as melhorar. A comunicação, referindo-se à capacidade de falar e escrever, na própria língua e em língua estrangeira. Inclui a literacia “tradicional” e a digital. Falamos de leitura e escrita, falar e ouvir, considerar os diferentes perspetivas, a capacidade de influência ou saber fazer uso de recursos tecnológicos.

A colaboração refere-se à capacidade de trabalhar junto com alguém para resolver um problema ou atingir um objetivo. Implica contribuir com ideias e conteúdos, sentir-se confiante na interação com o outro, respeitar a opinião do outro e ser flexível nos papeis que representa no grupo – às vezes é-se o líder, outras a pessoa que suporta o líder, outras é o aluno que questiona ou desafia o líder. As ferramentas digitais podem apoiar a colaboração, dentro e fora da sala de aula, como no caso de terem de contactar um perito através do skipe.

A competência digital suporta todas as outras.

Exige-se que a compreensão dos conteúdos implique selecionar, aceder e gerir os recursos digitais para comunicar colaborar, aprender, resolver problemas. Outra componente importante tem a ver com a informação presente na net. Os alunos têm de saber avaliar a informação, proteger a sua privacidade, proteger os outros, manter-se seguro e ser responsáveis.

O pensamento crítico, capacidade essencial num mundo cada vez mais complexo, com a informação na ponta dos dedos, ajudará os alunos a saber gerir as opções que têm, tomar decisões, fazer julgamentos com base em quantidades de informações incomensuráveis. Precisam de saber construir argumentos, raciocínios e análises, fazer julgamentos e tirar conclusões com base em sistemas cada vez mais complexos.

A responsabilidade pessoal é outras das característica essenciais para os tempos que vivemos. Nós não conseguimos ensinar tudo o que há para saber até que saiam da escola nem que tentássemos. É essencial que aprendam a aprender, assumindo a responsabilidade de se tornarem aprendizes para o resto da vida. Para tal, têm de saber fazer uma gestão eficaz da aprendizagem, gostarem de aprender, serem responsáveis pela sua própria aprendizagem. Os alunos precisam de conhecer bem as suas forças e as suas fraquezas, fazendo uso da meta-cognição – reflexão sobre o conhecimento. Terá de saber, como nunca, o quão importante é manter-se atualizado, atingir os objetivos pessoais, adaptar-se à mudança. Aqui é importante que saiba gerir as frustrações dos insucessos, assim como festejar os sucessos.  Dentro desta categoria, encontramos a necessidade para a consciência social, ser um cidadão do mundo. Esta qualidade implica que se envolvam ativamente numa sociedade em constante mudança sociais e políticas.

Estas características devem estar presentes nos alunos, mas também nos professores. Têm de saber ser os modelos das aprendizagens que pretendem passar. É possível dar aulas que não desenvolvem estas competências mas atingem outros objetivos académicos? Claro que sim. Mas também é possível atingir os objetivos académicos, metas curriculares, conteúdos programáticos desenvolvendo estas competências ao mesmo tempo.

No final, mas não menos importante, encontramos a avaliação. Para aferir como está a correr o processo, temos de ir avaliando. É um grande desafio avaliar estas competências, é verdade. Será mais fácil avaliar se memorizou datas e locais. Mas, tal como é um desafio saber o quanto um aluno contribuiu num trabalho de grupo e nem por isso se deixa de fazer, também não podemos desistir de formar os nossos alunos em competências que lhes serão válidas para o resto da vida pela dificuldade que encontramos na avaliação. A tecnologia recursos válidos que permitem novas formas de avaliação formativa e sumativa.

Não digo que seja fácil nem rápido. Digo que é um caminho que tem de começar a ser feito. Esta evolução já está em marcha. Quanto mais tarde apanhar este comboio, mais difícil vai ser.

Sofia Homem Cristo

Diretora do Colégio da Beloura

colégio da beloura

1 COMMENT

  1. A memória será inútil, porque haverá máquinas… Já agora o conhecimento também já é inútil está compilado, pelo menos, desde os tempos da ” História Natural” do Plínio. Quanto ao conhecimento crítico… implica conhecimento dos clássicos e da História Política, das grandes correntes de pensamento… Sem isso não passam de palavras ao vento! Modernidade será sempre conhecimento e sempre memorização! Já agora… ninguém aprende sem mestre!

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