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Como “Casar” A Avaliação Com A Flexibilização?

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Critérios, grelhas, percentagens, parâmetros, tudo isto consta de uma tradicional grelha de avaliação. Como uma colega há dias me disse, ” a minha maior dificuldade não é flexibilizar na aula, é flexibilizar no papel”.

Verdade, as grelhas de avaliação são documentos normalmente balizados, com critérios bem definidos e que agora estão a ser transformados em critérios que incluem os diferentes “mandamentos” do Perfil do Aluno. Não é impossível, mas as grelhas de avaliação têm de permitir uma série de instrumentos de avaliação e quiçá, flexibilizar percentagens entre domínios, valorizando sempre o saber (está a negrito e tudo), mas permitindo uma avaliação transversal e não restrita a tradicionais testes de avaliação.

Porquê? Perguntam vocês.

Porque o aluno pode saber e mostrar esse saber sem ser apenas numa folha A4.

Porquê? Perguntam novamente vocês.

Mas por que não…???

Na minha opinião, o maior desafio de realizar um ensino tão diferenciado e tão flexível, é a sensação de falta de equidade. Um fantasma que assombra todo e qualquer professor, pois todo e qualquer professor compara alunos e tenta ao máximo ser justo com todos eles. Uma tarefa extremamente difícil e complexa, principalmente quando se avalia 150, 200, 300 alunos e ainda por cima quando a avaliação deve ser o mais individualizada possível.

Um exemplo concreto, é o sistema de níveis que algumas escolas introduzem nas suas turmas, permitindo uma redução do número de alunos por turma, apostando num ensino diferenciado, um ensino que espera por todos e puxa por todos. Nada contra!

Só que um aluno que esteja num nível intermédio e que passa para um nível avançado, pode sentir claras dificuldades e no final do período obter uma avaliação inferior à obtida quando se encontrava nesse mesmo nível intermédio. Esta situação é principalmente penalizadora no ensino básico, onde a escala restringe-se a uns curtos 5 valores.

Então para quê subir o aluno de nível, se na pauta até pode ficar com uma nota inferior a um aluno intermédio ou até de nível introdutório?

Como uma colega minha dizia e bem, a nossa preocupação deve ser as aprendizagens e não tanto o que aparece na pauta. Verdade das verdades, a preparação dos alunos é, ou deveria ser, a nossa prioridade máxima. Só que pais e até alunos, associados a quadros méritos que provam não sei bem o quê, olham e julgam pela pauta. Sempre foi assim, sempre será assim. E a escola não está imune ao julgamento externo e à pressão externa, quer de encarregados de educação, quer do Ministério da Educação e até Autarquias.

Por isso constato que existe um claro choque entre a flexibilização do ensino/autonomia com a realidade da pauta. A pauta é quem mais ordena, venha quem vier, diga o que disser. E esta dificuldade de avaliar de forma quantitativa, num ensino tão flexível, mutável, evolutivo, com critérios que pesam 100% em eventuais recursos de nota, geram contradições e naturais confusões.

Já o disse e não tenho problema nenhum em assumi-lo, gosto da flexibilização, da liberdade que nos é dada, mas esta precisa de fazer o seu caminho e certas decisões precisam de ser tomadas para que na imprevisibilidade do ensino/avaliação, exista alguma estabilidade, fundamental para que todos os membros da comunidade educativa percebam o que consta na pauta e o que é que andamos a fazer nas salas de aula.

E como é que isso se faz?

Pois… essa é a resposta que todos gostariam de ter, mas receitas, só mesmo na culinária…

Alexandre Henriques

Nota: ficam dois artigos do jornal Público que serviram de fonte de inspiração para o que acabaram de ler.


Por mais flexibilidade que exista, a avaliação tem de ter efeitos para os alunos

As linhas com que se pode coser a Escola

10 COMMENTS

  1. Para os bons alunos e para os mais interessados os testes é que contam, as pautas de NOTAS é que contam e as NOTAS para aceder aos cursos universitários é que contam.

    Tudo o resto só interessa para os filhos dos outros.
    Para os nossos ………é diferente.

  2. Em minha opinião, o texto põe em evidência um conjunto de equívocos que, há décadas, aprisionam a profissão e as práticas de avaliação dos professores. Assim:
    1) “As grelhas de avaliação têm de permitir uma série de instrumentos de avaliação”. Assim formulada, teríamos que, “no princípio”, havia as grelhas, às quais tudo, depois, teria que se submeter. Ora, uma avaliação com critérios não precisa de grelhas para absolutamente nada. No ensino básico, com uma escala de cinco níveis, basta descrever com clareza cada um dos cinco níveis (de desempenho), considerando as aprendizagens a realizar, interpretar dados recolhidos com instrumentos diversos, e posicionar o aluno. Mesmo que se pretenda, ponderar domínios há formas que dispensam totalmente quaisquer grelhas.
    2) “O maior desafio de realizar um ensino tão diferenciado é a sensação de falta de equidade”. A afirmação é contraditória porque o princípio da flexibilização curricular, que sugere uma estratégia de diferenciação na sala de aula, visa, precisamente, alcançar a equidade, enquanto adaptação do ensino às necessidades individuais. A flexibilização põe em causa, antes, a homogeneização e a uniformização.
    3) “Um ensino (sistema de níveis) que espera por todos e puxa por todos”. O próprio exemplo que sugere leva, de imediato, a contrariar a afirmação de princípio porque, afinal, a colocação do aluno em turma de escadinha, por nível de desempenho, resulta em prejuízo grave para o próprio. Os princípios da flexibilidade curricular sugerem, antes, uma organização heterogénea das turmas.

    • Sobre o ponto 1: sim, concordo com o que diz, mas julgo que entendeu a questão central, o peso dos testes nos critérios de avaliação continuam a ser dominantes.

      Ponto 2: pois, mas atingir a equidade com uma classificação quantitativa é muito subjetiva. A diferenciação que visa a equidade é de louvar, mas as classificações não visam a equidade como bem sabe.

      Ponto 3: um sistema que permite uma única turma em 3 grupos distintos, que permite a passagem de alunos entre níveis consoante o seu desempenho, apresenta uma organização heterógenea. E a heterogeneidade é muito bonita desde que as turmas não ultrapassem os 15 alunos, mais do que isso é um faz de conta.

  3. Já percebeu que, se continuar a abordar a flexibilização curricular segundo conceções e práticas da cultura profissional dominante, dificilmente encontrará respostas congruentes com os princípios da flexibilização. O teste não tem que ter qualquer peso nos critérios de avaliação, já que um critério define um padrão de desempenho, através de um descritor. O que poderá ter peso/ponderação são os domínios de avaliação. O teste é, apenas, um instrumento de recolha, como outros. Aliás, podendo recolher, através do teste, elementos relativos a conhecimentos e capacidades, como posso fazer um juízo de valor que autonomize a avaliação de cada domínio – e isso é necessário, mesmo de acordo com o perfil do aluno – se confundi ambos os domínios com um peso percentual de um instrumento? Não consigo, logo não é coerente.
    Certamente, não é através de classificações que se atinge a equidade, a classificação seria e hierarquiza. A possibilidade de equidade, no sentido de promover o desenvolvimento máximo das potencialidades de cada um, está a montante.
    Não brinque: nessa diferenciação que refere, trata-se de uma heterogeneidade meramente formal, visto que todo o processo de ensino e aprendizagem é realizado em lógica de homogeneização dos três grupos, por nível de desempenho.

  4. Gostei de ler o que o Mário Sanches escreveu, e concordo com estes princípios.

    O problema é que a realidade ou as realidades não são facilmente “casáveis” com esta abordagem.

    Por exemplo, Mário, como como é que os exames nacionais finais fazem sentido no meio de toda esta perspectiva que explicitou?

    Gostava de saber a sua opinião pois me parece alguém com ideias bem esclarecidas e com as quais me é difícil discordar em questões de princípio.

  5. Aquilo que se assiste não é a qualquer tipo de aconselhamento marital mas sim ao divórcio…e, a bem da sustentabilidade/ renovação e perpetuação dos que há décadas se vão substituindo nos cargos de poder, decisão, administração e controle. A escola pública entreterá o povo criando- lhes a ilusão de que um dia…um dia…viverão melhor do que os seus pais viveram…
    Afinal … A pobreza é um ciclo vicioso …as escolas públicas apenas criarão a ilusão de que a ascensão social ainda é possível. “Incluirá” hoje mas segregará amanhã!

  6. Hoje numa reunião com professores que já estão a leccionar dentro da flexibilidade perguntei o que faziam de diferente. Professores de duas escolas diferentes responderam o mesmo – nada. É tudo igual ao ano passado só que preenchemos papelada e passamos todos os alunos. Creio que este sistema só vai acentuar a discrepância entre escolas e entre alunos e acentuar as injustiças nas avaliações dos alunos.

  7. a flexiibilização é compativel com a avaliação formativa mas incongruente com a aplicação da avaliação sumativa…
    enquanto existir avaliação externa que avalia o aluno através de uma folha A4 exclusivamente, terá de se continuar a aplicar essa avaliação nas escolas, sob pena de prejudicar a preparação dos alunos para essa avaliação externa…
    a aplicação pura deste modelo pedagógico da flexibilização (que já existe há mais de 2 décadas…) só é possível se for eliminada a avaliação sumativa tal como ela existe agora e a avaliação externa (vulgo, exames nacioanais).

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