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Como A Avaliação Docente Pode Afastar A Excelência

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Partilho um texto publicado nas redes sociais e que revela como perversa pode ser um sistema de avaliação por quotas.

Avaliação de Desempenho Docente

Sou professor no quarto escalão. Fui avaliado no presente ano letivo para progredir para o quinto escalão. Confesso que, durante os últimos anos tenho estado alheado de todas as polémicas relacionadas com a avaliação da carreira docente. Disseram-me que preciso de MUITO BOM para progredir para o quinto escalão. Por isso, no momento em que me comunicaram a minha avaliação final de BOM, fiquei chocado. E agora? Já não progrido para o quinto escalão? Explicam-me que posso requerer ao Diretor a recuperação da avaliação de “MUITO BOM” que tive no ciclo avaliativo anterior. Pedem-me sigilo sobre a minha avaliação, “para evitar ruídos desnecessários”.
Questiono-me sobre a necessidade de sigilo num processo que devia ser transparente e público. Não era mais fácil afixarem uma pauta com as avaliações finais dos docentes na sala dos professores? Confesso que começo a ficar confuso!
É óbvio que não é possível manter os resultados da avaliação docente no segredo dos deuses. Alguns colegas acabam por comentar a sua avaliação final. Eu, por exemplo, fiz questão de não respeitar o pedido de sigilo. E assim, às tantas, fico a saber que o colega X foi avaliado com EXCELENTE. De repente, apercebo-me que estou perante um sistema de avaliação docente que tem tanto de injusto como de imoral. Foi criado para que nos dividíssemos numa profissão em que cooperar é fundamental. Quando deviam premiar o mérito e a dedicação à escola, estão a distinguir os docentes seriando-os para entrarem num sistema de quotas limitativo e gerador de competição.
É inevitável. Eu comparo-me ao colega X que foi avaliado com EXCELENTE. Por sinal um colega com quem mantenho boas relações de amizade. Sim, reconheço-lhe competência. Conheço bem o seu trabalho, trabalhamos em equipa frequentemente. Mas, e eu? Sei que não sou inferior ao colega X em nenhum dos parâmetros avaliados. Nesta minha tendência para a modéstia, eu nunca me consideraria um professor excelente, mas estou plenamente convicto que sou tão competente e dou tanto ou mais à escola do que o colega X.
Será que o facto de o colega X ser extremamente reivindicativo, de personalidade frontal e frequentador de “ambientes diretivos” influenciou o resultado da avaliação? Será que o facto de ter amigos na SADD o terá favorecido? E, por outro lado, será que a minha postura mais pacífica e submissa, sempre disponível para aceitar todos os cargos e trabalhos que já ninguém quer, acabou por me prejudicar? Lamentavelmente, tudo passa agora pelo meu pensamento, correndo o risco de estar a ser injusto com alguém. Na verdade, a minha mágoa é mais dirigida contra este sistema de avaliação docente minuciosamente construído para limitar as progressões na carreira docente.
Agora percebo como o sistema é estranho, obscuro e injusto. Reconheço que estou magoado e que me sinto injustiçado como nunca me senti. E que estou sobretudo desmotivado. Tão desmotivado que questiono a minha capacidade de continuar.
Reflito. Desanimo. Desabafo com um amigo. E, finalmente, tomo decisões quanto ao futuro. Preciso urgentemente de mudar a minha postura em relação à escola. A partir de agora, vou colocar a minha vida pessoal e familiar em primeiro lugar. Vou abandonar os projetos e desafios que tenho abraçado com paixão em benefício dos alunos e da escola. Vou solicitar ao meu Diretor a escusa de todos os cargos de coordenação que tenho exercido a seu pedido e que me obrigam a tantas reuniões de trabalho, planos de ação, relatórios e afins. E vou deixar de organizar aquelas atividades extracurriculares tão interessantes para os alunos, mas tão trabalhosas para mim.
A partir de agora vou limitar-me a cumprir o serviço letivo e não letivo que me é atribuído. Vou continuar a dar o meu melhor nas atividades letivas, pautando-me sempre pela dedicação aos alunos. Mas vou aprender a dizer NÃO a tudo o resto.
É com esta sensação de libertação e de alívio que inicio as minhas férias. Neste mês de agosto já não vou ter de rever aqueles documentos de trabalho, melhorar grelhas Excel e preparar planos de ação. Nestas férias não vou trabalhar para a escola. Afinal, este sistema de avaliação da carreira docente até tem os seus méritos!!
Boas férias para todos!

(anónimo por motivos óbvios)”

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17 COMENTÁRIOS

  1. A minha situação é precisamente igual à sua, é uma tremenda injustiça e é o q apetece fazer daqui para a frente! Fazer apenas o serviço letivo e n letivo e nada mais!

  2. Mas o senhor professor com aquilo que acaba de descrever só demostra que é muito limitado, digo mais, chega a roçar a estupidez.
    Aquilo que pretende fazer a partir de agora é o que seria normal fazer desde sempre. É por isso que a classe dos professores está como está ..

    Abra os olhos…

    • “Aquilo que pretende fazer a partir de agora é o que seria normal fazer desde sempre.”

      Isto adquire-se com a experiência e inteligência……

  3. Caro colega, o seu sentimento é generalizado. O DR 26/2012 está a ser finalmente aplicado com as suas consequências. Após anos de adormecimento, devido ao congelamento, os conflitos e a desmotivação irão aumentar. Esta avaliação é opaca, profundamente arbitrária e desfasada da realidade das escolas. Estimula-se o trabalho colaborativo ao mesmo tempo que se promove a competição entre profissionais. A Escola está em profunda ebulição e a tendência é para a sua ainda maior deterioração. A postura passará a ser o que afirma: cumprir a nossa missão com os alunos e deixar cair tudo o resto. Temos vida.

  4. Precisamente… O que lhe aconteceu agora, já me aconteceu a mim. É impensável o que se faz em prol daquilo a que se chama “Avaliação de Desempenho”… o secretismo que se gera à volta disto é, precisamente, para que estas situações se mantenham sem que ninguém as denuncie… o que me choca é que são os próprios colegas a alimentar esta espécie de avaliação que arrasa por completo a excelência profissional de imensos colegas. Roubam-nos aquilo que é mais digno em nós – o nosso profissionalismo… o que é indecente, triste, arrasador… no mínimo, inconcebível! Muito triste mesmo!

  5. Confesso que já me questionei sobre o que será um professor “Excelente”.
    Passados estes anos, deixei de me questionar.
    Porque não há professores “Excelentes” a não ser na avaliação de desempenho por causa das quotas e isso tudo.

  6. Revejo-me absolutamente nas palavras do colega. Precisava de MB para passar para o 5º escalão. Sinto uma grande injustiça, não só pela minha dedicação à escola, pelo trabalho excessivo (4 níveis, secundário: regular e profissional, DT, apoios, preparação para exame nacional…), pelas turmas atribuídas (as mais difíceis), pelas atividades desenvolvidas, etc. Não consigo contabilizar as horas que despendi, por semana, para todas as tarefas. Posso, no entanto, dizer que 60 horas semanais eram insuficientes.
    Verificar que outros obtiveram menções superiores com bem menos serviço atribuído, é de uma injustiça dilacerante assim como o secretismo que envolve todo o processo.

    • “4 níveis, secundário: regular e profissional, DT, apoios, preparação para exame nacional…”

      Mais ou menos como a minha circunstância.

      A diferença é que não preparo para exames nacionais. Nem nunca prepararei.

      • yep, muitas escolas organizam um horário de preparação para os exames. Tipo sala de estudo, prof na biblioteca e semelhante. Aquilo que os profs dantes faziam voluntariamente, marcar umas horas para se encontrarem com os alunos que vão fazer exame, está a ser transformado numa prática formal e inquestionável.

  7. O que acho incrível no meio disto tudo é durante estes últimos 10 anos não ouvir ninguém falar da i justiça das quotas nestes dois escalões!
    Agora que houve descongelamento é só surpresas.
    Sindicatos e professores andam a dormir na forma.

  8. Não concordo absolutamente nada com o António Realista. O professor que se preza deve, da facto, investir na escola e nos seus alunos e eu acredito que a maioria de nós o faz e muito bem . Considero que o atual sistema de avaliação por quotas é penalizador e pode ser injusto porquanto só os ” melhores” podem progredir ( até pela subjetividade inerente a essa classificação). Contudo, e apesar de tudo, acho que devemos fazer sempre o nosso melhor. Claro que há também aqueles que trabalham numa escola, mas não têm como principal fonte de rendimento a atividade docente, antes outro qualquer trabalho, o que leva a que pouco se dediquem à escola e aos alunos! E, muitas vezes, são estes mesmos que se atrevem a chamar palermas aos que são , de facto, dedicados e empenhados. Mas isso já é outro assunto.

  9. A avaliação é uma aberração. Quem tentar dizer o contrário, terá de o demonstrar. POTNO FINAL. Há mais de 12 anos que luto contra este aborto avaliativo… Num Congresso da FNE, no auditório da CGD em Lisboa, tive a possibilidade de usufruir de uns minutos de microfone… e as primeiras palavras não foram as habituais cumprimentos da praxe dirigidos aos Congressistas e aos membros da Mesa do Congresso. Antes, iniciei com a revoltante frase: “Tenho Vergonha de ter Excelente”.
    E baseando-me nos critérios de avaliação, expliquei por que morivo tinha vergonha de ter excelente.
    Tem toda a razão o colega que aqui desabafa… mas vai permitir-me um reparo: Só acordou agora para o que era a injustiça da avaliação docente? Será que até ao presente, era daqueles que considerava que não éramos todos iguais e que deveria haver avaliação? É que conheço quem isso defendia até ao dia que lhe passou o mesmo que ao colega…! Enfim. É sempre tempo de acordar…!

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