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Começar o ano letivo, com ou sem dentes?

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sorriso cintilanteHá uns tempos atrás vi num noticiário que um grupo de mestres do Taekwondo, Aikido, Jiu Jitsu, ou lá como se chama aquilo, tinham criado umas ações de formação de defesa pessoal destinada a professores. Meio a brincar meio a sério, quando nos pedem para indicarmos as ações de formação que desejamos/precisamos, a conversa de uma ação de formação de defesa pessoal vem sempre à baila. Segundo a notícia, a adesão era maciça e nem mesmo os 50 € de inscrição afastavam os pretendentes.

Este artigo até podia abordar a temática do “bate e foge”, mas como ainda acredito que nas escolas portuguesas, a relação aluno professor não se baseia numa “intimidade” tão profunda, prefiro abordar uma frase que é repetida inúmeras vezes nas salas de professores, principalmente nesta fase – “no início do ano nem lhes mostro os dentes”, onde os “lhes” são obviamente os alunos.

Existem três  abordagens possíveis que os professores utilizam nas suas primeiras aulas:

A primeira baseia-se numa “politica” de proximidade, onde o professor ouve muito, fala pouco e tenta desde logo estabelecer relações sociais de hierarquia quase horizontal. Facilmente se percebe que nesta abordagem os dentes são bem visíveis… É o professor “fixe” como eles dizem, e que ganha aos pontos no campeonato da empatia.

No lado oposto, temos uma abordagem muito mais fechada, rija, crua, utilizando a máxima “pão, pão, queijo, queijo”. Aqui os dentes só serão visíveis, caso o professor sofra de um mal fadado vírus de flacidez labial… Nestes casos, as reações dos alunos baseiam-se entre “…e… este tipo é lixado!” ou “fogo, estamos tramados com este gajo!” e poupo-vos o vernáculo menos próprio…

Por fim temos a abordagem intermédia, onde o professor mostrará que haverá regras, mas que não será nenhum ditador de livro de ponto na mão…

Concordando ou discordando das técnicas descritas, estas são genuínas e os alunos rapidamente percebem para que lado vai soprar o vento e após algumas semanas de adaptação, o comboio entra nos eixos e o processo de ensino aprendizagem decorre com maior ou menor sobressalto.

O grande problema é quando tentamos ser algo que não somos, quando queremos esconder os dentes mas no nosso íntimo só os queremos mostrar, ou vice-versa. Claro que é normal termos uma abordagem mais distante no início do ano letivo, até porque estamos a conhecer aquelas pessoas de metro, metro e meio pela primeira vez. Mas se existe algo que os alunos detetam com enorme facilidade é a falsidade.

Com isso mostramos que somos inseguros, que precisamos de mostrar algo de início, com medo que a “coisa” fique fora de controlo e que depois passemos o resto do ano a apanhar os estilhaços da ilusão. E todos nós sabemos que a “coisa” é a tão preciosa autoridade que é determinante para o sucesso escolar e que não deve ser confundida com autoritarismo. Quando atingimos esse plano existencial, não há nada que consiga perturbar a nossa liderança. É algo que se sente e que ecoa por aquelas quatro paredes.

Por isso caros colegas e se me permitem. Sejam fieis a vocês próprios! As abordagens que descrevi acima têm as suas vantagens e desvantagens, mas são genuínas e sinceras. Escolham uma e vão ver que o caminho que escolheram é seguramente mais estável do que assentar a vossa liderança numa personalidade gelatinosa.

E como estamos a começar o ano letivo, deixo algumas dicas que poderão ajudar o vosso relacionamento com os alunos e consequentemente terem menos problemas disciplinares.

  • Planifiquem as vossas aulas – obviamente que as planificamos, eu sei, mas convém ter um plano B ou C para quando as coisas não correm conforme o previsto. Tempo livre numa sala de aula é tempo de recreio e se não dominarmos bem a estrutura da aula e os seus conteúdos, deixamos de ser os seus lideres.
  • Sejam imparciais – somos professores, mas somos humanos e por vezes é difícil tratar todos da mesma maneira e nas diferentes situações que ocorrem ao longo de um ano letivo. A parcialidade gera sentimentos de revolta e injustiça que a prazo terão um efeito boomerang.
  • Sejam coerentes – se apresentarmos sempre a mesma conduta, os alunos percebem rapidamente as nossas linhas vermelhas, o pior que podemos fazer é umas vezes ceder e noutras tentar recuperar a disciplina perdida.
  • Tenham tempo para os ouvir – aulas, reuniões, testes, turmas grandes, pais, é tudo muito intenso e não temos tempo para nada. A ideia que o professor só está lá para ensinar, já era, somos muito mais que isso, somos muitas vezes a família que o aluno não tem. Estejam lá quando vos for pedido, estejam lá quando o seu silêncio ou seu desvaneio for um pedido de ajuda encapotado. Não é justo pedir isto, mas é o que nos distingue das outras profissões e o que nos torna aquele professor que ficará na sua memória para o resto das suas vidas.
  • E por fim, tenham tempo para vocês… Lá para novembro as situações de indisciplina aumentam e o motivo é naturalmente o desgaste físico e emocional que alunos e professores começam a sentir. Encontrem um equilíbrio, encontrem algo que vos faça focar novamente, não caiam no erro de aguentar tudo sozinhos, não somos de ferro, somos de carne e osso e por vezes a estratégia mais inteligente é pedir ajuda. E já sabem, se precisarem, cá estaremos, nem que seja só para desabafar 😉

Votos de um excelente ano letivo!

Imagem retirada de:www.doisac.com
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2 COMENTÁRIOS

  1. ahahahah! …quem anda uns anos nisto, já sabe que ficamos sempre a perder! há algum animal na jaula que enfrente as hienas? – eu não conheço!

    • Não se trata de enfrentar nada nem ninguém, trata-se de agir de forma estratégica e em cooperação. Espero que no futuro não fique sempre a perder e ganhe algo mais do que a descrença…

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