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Com janelas e portas abertas, os casacos e as mantas ajudam a fintar o frio nas escolas

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O ambiente impróprio a que as escolas estão atualmente sujeitas, já chegou aos ouvidos da comunicação social. Porém, pasmo com a reação de um dos representantes de diretores que mostra uma resignação chocante.

Tenho alunos a recusar ir à escola! Se a moda pega, quero ver como fica a resignação…


Vítor Santos está votado às salas frias. Como professor de Biologia e Geologia, as aulas práticas que dá decorrem num laboratório num piso abaixo da terra, sem janelas nem ponta de sol. Na passada segunda-feira lá chegou, às 8h10, para arrancar com as duas primeiras aulas da manhã. “Estive lá duas horas e fiquei com os pés gelados o dia todo”, conta o professor da Escola Secundária Clara de Resende, no Porto. Com as temperaturas a rondarem os zero graus àquela hora da manhã, pouco aquecendo durante o dia, com o aquecimento central ainda desligado e com a necessidade de ir tendo janelas e portas abertas para que o ar circule — e o vírus não se propague —, professores, alunos e funcionários enfrentam, por estes dias, o difícil desafio de se abstraírem do frio para conseguirem trabalhar.

Nesta escola do Porto, há turmas de 28 alunos em salas com 49 metros quadrados. O distanciamento é o possível, por isso insiste-se em ter as janelas abertas e, quando é possível, também a porta para garantir que o ar se vai renovando. Mesmo com temperaturas baixas. “Os miúdos encasacam-se e os professores também”, diz a directora do agrupamento, Rosário Queirós.

Até agora não lhe chegou nenhuma queixa por parte de encarregados de educação, mas a situação, admite, é “complicada”. No início da semana, depois da visita de um engenheiro da Parque Escolar para aferir se o sistema de aquecimento da escola estaria adequado para permitir a renovação de ar (não comprometendo a recomendação da Direcção-Geral de Saúde de que a ventilação deve ser, sobretudo, natural), a escola ligou “o sistema de ar forçado”, aquecendo assim algumas salas. Mas ainda assim, com as portas e algumas janelas abertas — sobretudo os frisos superiores — o calor vai-se perdendo. “Vamos ter de abrir menos as janelas porque senão as pessoas morrem de frio. Os alunos não tiram os casacos. Nós também não. Que remédio!”, sublinha Vítor Santos.

Na verdade, o problema do frio nas escolas não é novidade. Todos os invernos, sucedem-se relatos de escolas sem condições térmicas, seja por terem instalações muito antigas, equipamentos avariados ou falta de verba para assegurar o seu funcionamento. Mas este ano, face à situação pandémica e às recomendações de que se devem manter janelas e portas abertas para permitir uma melhor ventilação das salas de aula, a sensação de frio tende a agravar-se.

No Liceu Camões, em Lisboa, os alunos já se habituaram a “trazer mantinhas” para a escola, diz o director, João Jaime. “O Camões sempre foi gelado, gelado.” Há anos que por ali se lutam por melhores condições para os alunos desta centenária instituição mas, este ano, nem sequer o calor de um abraço pode ajudar a colmatar o frio. Nos monoblocos onde os alunos têm aulas, os equipamentos de ventilação não são ligados devido à pandemia, diz o director.

No entanto, para João Jaime, há preocupações maiores, que não passarão com o fim desta vaga de frio: a incerteza de como decorrerão as actividades lectivas até ao final do ano lectivo, a falta de instruções de como será feita avaliação final dos alunos neste ano de excepção.

À Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP), não têm chegado queixas devido ao frio nas escolas. “Sabemos que num ou outro caso há situações que têm de ser melhor ponderadas porque é óbvio que o arejamento das salas não se pode fazer quando temos temperaturas negativas”, nota Jorge Ascenção. Mas o presidente da CONFAP quer “acreditar que ninguém está a obrigar os alunos e os professores a estarem dentro de uma sala com a porta e janelas abertas quando está frio”. Caso contrário, aprender e ensinar torna-se ainda uma missão mais exigente. “É preciso ter bom senso naquelas que são as normas e orientações. Podemos arejar, fazer mais intervalos”, sugere o responsável.

Questionada pelo PÚBLICO sobre a recomendação actual relativa aos sistemas de ventilação e aquecimento nas escolas, a Direcção-Geral de Saúde (DGS) esclarece que “não está desaconselhada a utilização de ventilação mecânica de ar (sistema AVAC)”, apesar de o arejamento dos espaços dever ser feito “preferencialmente com ventilação natural”. “Quando estes sistemas são utilizados, deve ser garantida a limpeza e manutenção adequada, de acordo com as recomendações do fabricante, e a renovação do ar dos espaços fechados, por arejamento frequente e/ou pelos próprios sistemas de ventilação mecânica (quando esta funcionalidade esteja disponível)”, aconselha ainda a DGS.

Numa recomendação de Julho, esclarece que “as unidades de tratamento de ar com recirculação devem funcionar com 100% de ar novo, sempre que possível”. Ora, é precisamente isto que alguns dos sistemas que equipam as escolas não garantem, daí a precaução dos dirigentes.

“É a situação que temos”

Para Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, o momento que atravessamos deve ser encarado como “excepcional e temporário”: “Não queremos que os nossos alunos passem frio”. Mas as escolas estão também focadas em seguir a sua actividade com as cautelas e não serem focos de propagação do vírus, “como não foram no primeiro período”, sublinha. “Cada escola está a adoptar medidas e a ver qual a melhor maneira de garantir a aprendizagem dos alunos, mas não ser um foco de propagação”, diz o também o director do Agrupamento de Escolas Dr. Costa Matos, em Vila Nova de Gaia.

No agrupamento de Escolas General Serpa Pinto, em Cinfães, dirigido por Manuel Pereira, as temperaturas têm descido abaixo de zero. O aquecimento é a gasóleo, por isso está sempre ligado. “No caso das escolas que têm ar condicionado, a situação é mais complicada”, nota o presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares. É o caso de escolas que foram intervencionadas pela Parque Escolar. Em algumas, acrescenta, as janelas são difíceis ou até impossíveis de abrir.

“Na escola onde trabalho, tenho o aquecimento ligado o dia inteiro, as bandeiras das janelas e as portas abertas. De alguma forma, desperdiça-se imenso calor e energia”, observa, notando ser difícil manter algumas salas “minimamente aquecidas”. À semelhança do que tem acontecido noutras escolas, a solução tem sido comprar aquecedores eléctricos para colocar nas salas mais frias.

Neste “ano atípico, numa situação absolutamente anormal”, pede paciência aos estudantes e encarregados de educação. “Pedimos aos alunos e aos pais que tenham alguma compreensão e que venham mais protegidos para a escola, com roupa que os ajude a estar mais confortáveis na sala de aula. É a situação que temos. É esperar que num futuro próximo a situação não se mantenha.”

Fonte: Público

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