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Colocando o ponto nos ii na questão dos vencimentos dos professores

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Esclareço desde já que não sou apologista desta “guerra” professores mais experientes e menos experientes, mais congelados ou menos congelados. Somos todos professores e estamos todos no mesmo barco. Mas isso não torna o debate e a reflexão proibida, nesta casa não existem temas tabus e todos têm direito à sua opinião.

Antes de abordar o tema que ainda ontem incendiou as redes sociais, convém ter consciência que quem ganha o ordenado mínimo está pior do que um professor, que quem não tem emprego está pior do que um professor e que quem há bem pouco tempo perdeu tudo, está bem pior do que um professor. Falar em ordenados de 1000 ou mais euros pode parecer insultuoso, compreendo isso, mas o mundo é o que é, e não deve impedir que cada um lute por melhores condições de vida, para si e para os seus.

Devem os professores ter ordenados mais altos?

Sim, 85% dos 4778 votos dizem que sim. Os votantes foram maioritariamente professores (69%), mas o facto de existir um espaço entre os 69% e os 85%, mostra que não são apenas os professores que consideram que estes deviam ter ordenados mais altos.

 Mas analisar esta questão através de uma sondagem informal não é suficiente. Existem outros parâmetros que precisam de ser abordados.

Tantos escalões de vencimento para quê?

Não somos todos professores? Não fazemos todos a mesma coisa, salvo algumas diferenças? Então qual o motivo para uma diferenciação de vencimentos?

A carta enviada ao Ministro Tiago Rodrigues e que ontem publiquei, mostra uma indignação que existe nos professores em início de carreira. Não acho descabida, como não acho descabida a indignação de quem pede uma reforma a tempo e horas e uma redução da carga letiva a partir dos 40 anos.

O problema não está nos ordenados do topo da carreira, estes até são interessantes, o problema está nas dificuldades em atingir esses vencimentos e nos ordenados em início de carreira. Os comparativos Europeus e até imaginem, Maria de Lurdes Rodrigues, na altura que era ministra, referiu que os vencimentos dos professores em início de carreira são efetivamente baixos.

Convém lembrar que estamos a falar de pessoas com habilitação superior, que executam um cargo muito exigente e de muita responsabilidade e que dão muitas horas além das que constam no seu horário.

Mas a indignação dos professores que estão no 6,7,8 e 9 escalão, também se justifica, estes foram vítimas de cortes violentíssimos, muito superiores aos professores que estão em início de carreira.

Não faz por isso muito sentido este atirar de pedras entre professores, pois todos têm razão de queixa.

Reduzir o número de escalões.

Uma redução significativa do número de escalões é algo que vejo com bons olhos. Já referi que o trabalho docente é o mesmo e não se justifica uma diferença de largas centenas de euros entre o topo e o início de carreira. Mas atenção, se algum dia esta proposta for para a frente, eliminem os escalões de baixo e não os de topo, já chega de espertinhos…

Exigência para com os professores, uma avaliação efetiva!

Mas não podemos seguir o caminho dos direitos e ignorar os deveres. Se nos querem levar a sérios, temos de dar as duas faces. Se os ordenados dos professores são baixos, para alguns, os professores são demasiado bem pagos para aquilo que fazem: se um professor passar uma aula a falar, ignorando as dúvidas dos seus alunos; se um professor não apresentar uma postura ativa no controle disciplinar dos seus alunos; se um professor apresentar constantemente classificações dissonantes do seu grupo, sejam estas por excesso ou por defeito; se um professor for incapaz de se atualizar e implementar estratégias diferenciadas que vão ao encontro das características dos alunos; e se um professor optar por uma postura passiva/ausente no seu Agrupamento, então ganha bem mais do que aquilo que merece. E muitos de nós já devem ter constatado que a incompetência não está totalmente ausente da sala dos professores… é residual, mas existe.

A exigência para com os professores deve existir, e esta terá de passar por uma avaliação externa, feita por professores formados para o efeito, sem cotas e que diga a verdade sobre o desempenho dos professores e não a verdade para caber num qualquer orçamento de estado.

Mas isto é o reino da utopia, a realidade é que a curto prazo o descongelamento das carreiras não será para todos, a verdade é que continuará a existir professores que ganham pouco e outros que ganham muito, a verdade é que o sistema não é justo e ninguém quer tocar num tema que é nitroglicerina política e sindical.

Então o que fazemos?

Lutemos por um descongelamento de todas as carreiras, lutemos por uma diminuição da carga fiscal, lutemos por um tratamento de igualdade, pois o tratamento entre funcionários públicos não tem sido proporcional.

Lutemos sim, mas abramos também as portas da autoexigência, mantendo níveis de competência que felizmente persistem na grande maioria dos professores.

Somos todos PROFESSORES, estamos todos juntos nesta causa e mesmo para aqueles que não estão na carreira, lembrem-se que um dia chegará a vossa vez e que a união de uma classe trará benefícios a curto/médio e longo prazo para TODOS.

Alexandre Henriques, professor de nomeação definitiva, que leciona há 15 anos e que continua no 1º escalão da carreira.

 

26 COMMENTS

  1. Sugestão: voltar a publicar a lista que mostra, clara e inequivocamente, quanto cada escalão tem vindo a perder desde o congelamento.

  2. Esta política de guerrilha entre professores, fomentada superiormente, numa luta do “salve-se quem puder”, faz-me lembrar outra ministra de outro governo de outro primeiro-ministro de boa memória.

    • Há que recomeçar a dividir os professores. Migalha aqui, migalha acolá para ficarem contentes e felizes, flexíveis e do séc XXI.

      • Dividir? Eu não consigo ser mais claro… Este texto pretende agregar não dividir. Porque querem tornar algo em algo que não é. Afinal quem é que está a dividir?

        • “a verdade é que continuará a existir professores que ganham pouco e outros que ganham muito”

          O Alexandre considera que “outros ganham muito”?

          Isto, além de não ser verdade, é dividir.

          Lamento, mas é assim que vejo a questão.

  3. Sugeria a publicação/publicitação pública e local/escola da remuneração líquida, horas letivas e não letivas, cargos e o seu tipo de importância, idade, habilitações académicas e profissionais, entre muitos outros dados; talvez: sexo, atividade física, horas de sono, agregado familiar, gostos sexuais e as suas fantasias e grupo sanguíneo de todos os professores sem exceção.

  4. Este texto está muito explicito, bem elaborado e de alguém que conhece a realidade. Corroboro e apoio em absoluto.

  5. Alexandre,

    Como se avalia a qualidade do desempenho?

    Sabemos sim, que há casos pontuais e lamentáveis. Mas há formas de se lidar com eles.

      • Não vou por aí. A avaliação docente é um outro tema.
        Que me desculpe o Alexandre, mas este não foi o cerne da questão levantada pelo post/carta do professor anónimo aqui publicada que, ao contrário do Alexandre, considero vergonhosa.

  6. Caro colega,
    Sou professora com 34 anos de serviço. Estou no 8° ,escalão congeladissima (o que tem sido ótimo para a pele e péssimo para o bolso) é estou de acordo como cada uma das suas palavras. Tenho pena que haja gente (neste caso, colegas) que não entendem ou não querem entender esta posição que, no que me fiz respeito, é equilibrada e justa.

  7. Toda esta discussão é absolutamente lamentável e a consequência só pode ser a de dividir os professores, com ou sem intenção. Não dou para este peditório. Lamentável.

    • O artigo/carta está muito bem escrito e muito bem fundamentado. Para mim é claro que foi redigido por alguém que conhece perfeitamente bem a realidade. Parabéns!

  8. 33 anos de ensino… 8o escalão…. Sinto-me roubado todos os meses!….
    Pelos vistos não ganho assim tanto! Só ganho mais 500 euros líquidos do que os colegas do 2o escalão!… 🙁

    • e que tal 25 anos de serviço…4º escalão…qual o verbo para 40% da classe docente nesta situação? Roubado será um eufemismo…

  9. Nem a carta anônima nem este texto refletem a posição dos professores em início de carreira.
    Eu tenho consciência da idade que têm os professores no 9 escalão e do que é inerente a isso.
    Sou pelo descongelamento para todos, umbiguismos enojam-me.
    Sou contra uma avaliação que tenha reflexo na avaliação, pois já houve e não funcionou. E fiquei farta de lambe-botas.

    • Não funcionou porque tinha cotas… Não funcionou porque foi feita por professores que se sentavam na mesma sala de professores…
      E eu tb sou pelo descongelamento de todos…

  10. Se o politicamente correto não dominar, existe assunto para reflexão construtiva. Mas é um tema tão incendiário como o tema de considerar que todas as áreas disciplinares são iguais apenas porque praticam o ato de ensinar…

    • 1- Diminuir o nº de escalões, aumentando o nº de anos de serviço de permanência, não é descabido, desde que se eliminem os escalões mais baixos e as quotas para progressão. Mas acreditar que um ME eliminasse esses escalões mais baixos e as quotas, é como acreditar que se acerta no euromilhões 3 vezes consecutivas…
      2- o problema da avaliação é: a) a legitimidade técnico-pedagógica de quem avalia (quem aceita ser avaliado por alguém que sabe que faz pior ou que nem sequer faz o que critica?), b) como impedir o compadrio/amiguismo do/a avaliador/a, c) os critérios de avaliação subjetivos, arbitrários e discricionários.

      • Sobre o ponto 1, infelizmente tem razão. Quanto ao ponto 2, é possível evitar tudo o que disse. Professores formados durante 1,2,3 anos para o efeito, professores que não conheçam os seus avaliados, tudo é possível…
        reconhecendo naturalmente que nenhum sistema de avaliação é perfeito.

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