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Coisas e loiças

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DSCN1477Na semana passada diferentes foram as manchetes educativas em jornais nacionais. Ora indicavam que os portugueses chumbam muito, ora destacavam as exigências de uma escola a tempo inteiro. Tanto abordavam as contrariedades de, mais uma vez, se alterarem as condições de avaliação dos alunos ou remetiam para simples posições e opiniões institucionais, eu contra tu, nós contra vós, de um lado e do outro como se a coisa educativa se tratasse de uma barricada, uma qualquer trincheira.

Na coisa educativa direi que não há cão nem gato que não tenha uma qualquer ideia, opinião ou eventualmente parecer sobre tudo e mais alguma coisa. Não haverá por aí quase ninguém que não consiga opinar, expressar uma qualquer ideia (mesmo que sem pés nem cabeça) sobre as políticas educativas. Sobre como deviam ser e não são, sobre como se resolveriam estes e outros problemas, ou simplesmente como ultrapassar algumas entropia do sistema ou, ainda mais resolutamente, como superar obstáculos sistémicos à escola e da educação.

Não existirá área técnica ou tecnocrática, disciplina ou saber mais ou menos estruturado, que não tenha um qualquer especialista, uma especialidade ou apenas e simplesmente uma mera referência que diga, expresse e escreva sobre a escola. Sobre qualquer assunto, tema, pretexto (mesmo que não tenha texto), sobre toda e qualquer situação ou circunstância. A coisa educativa é mesmo pré texto para muita coisa e coisa a mais. E até parece que se combinam, consoante o governo assim é a cacofonia. E, ainda mais incrível, até parece que são os mesmos. Será só parecer? Enfim.

A grande questiúncula, como lhe costumo chamar, é que, apesar dos comentários, escritas, textos, dissertações e teses ou simples opiniões sobre tudo e sobre nada, o sistema (o educativo) continua a funcionar como funciona. E isto a despeito de opiniões, intenções ou qualquer texto.

E a coisa funciona. Nuns lados assim a modos que…, noutros antes pelo contrários e noutros ainda nem assim nem assado, nem sim nem não. Mas há de tudo, como na farmácia. Boas experiências, boas práticas. Tentativas estruturadas e organizadas. Coisas que falham, mas orientadas, avaliadas e analisadas. Coisas más, algumas repudiaveis outras enfim, nem tanto. Ideias de esquerda, de direita, de centro, de cima e de baixo mas que na escola se encontram como espaço de confluência, de chegada e de partida que é. Na escola e na educação, como na vida e por que é de vida que se trata, há de tudo.

Traço identitário à generalidade dos fazedores de opinião ou apenas de escrita comum diz respeito a que quase tudo está mal, senão antes, agora. Senão agora no futuro. A despeito de governos e de opções, sejam elas políticas, partidárias, ideológicas ou pedagógicas, que desde sempre tomaram a educação como pano de fundo e a escola como palco o certo é que quase sempre e de forma quase unânime o pessoal está contra.

Contra o quê? Não interessa, está contra. Estar contra acaba por ser não um estado e menos ainda uma posição. Estar contra é algo do reino do inteligível que se sente e saboreia, mas que efectivamente não existe. Estamos contra com pura convicção e firmeza. Estamos contra aquilo que cumprimos e ao qual obedecemos. Mas estamos contra.

Atenção que é um contra educativo, com contornos pedagógicos, clara e assumidamente centrado no aluno, nas aprendizagens.  

Já passaram pela cinco de outubro e demais espaços da gestão educativa, gente de todos os lados, com todas as sensibilidades, portadoras de todas as condições, embutidas de todos os espíritos pedagógicos e informadas de todas as didáticas. Relembro apenas, e por mera questão de deformação inicial em história como é o meu caso, pessoas como Roberto Carneiro, Couto dos Santos, Manuela Ferreira Leite, Marçal Rodrigues, Augusto Santos Silva, David Justino, Maria de Lurdes Rodrigues, Nuno Crato e, agora, Tiago Rodrigues (não apontem faltas, eu sei quem falta, mas os que faltam pouco contam para os que estão). Gente de quase todos os quadrantes, assessorada por tudo e mais alguma coisa, com conhecimentos que vão do superficial ao mais profundo e entranhado no sistema (recuso-me a indicar quem é quem neste rol). O que ganhou o sistema educativo com esta gente? Direi que tudo, ou quase tudo. Ou então não ganhou nada. Afinal não sei.Gostava, lá isso gostava, que, no meio de tudo isto, a escola e todos os que são profissionais da coisa educativa tivessem ganho memória, pelo menos memória.

E pronto digo apenas que, apesar de políticas ou dos políticos, de opções ou orientações, de partidos ou ideologias, do superficial ou aprofundado conhecimento que se tem ou deseja, a grande questão que levanto é que não temos barro para fazer os bonecos que uns e outros querem, gostariam ou desejariam. Falta barro, falta daquela massa que permita dar corpo e sentido às opções e às práticas, ao que se faz e ao que se gostaria de fazer mas que não se faz. Falta barro que torne tudo e todos em alunos, em fazedores de nós mesmos, que alimente dúvidas sobre qual o resultado final.

Falta barro, pois faltam dúvidas onde sobram certezas (quando não mesmo convicções).

Manuel Dinis P. Cabeça

15 de fevereiro, 2016

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