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… coisas de ser pessoa.

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6ª feira é dia do ComRegras dar voz aos pais. Fica o primeiro artigo do João Lima.

Sê bem vindo João 😉

… coisas de ser pessoa

“Estou enojado com a educação escolar de hoje, que é uma fábrica de incultos sem respeito pela memória. E que não faz nada para que as crianças aprendam as coisas com a memorização. O poema que vive em nós, vive connosco, muda connosco e tem a ver com uma função muito mais profunda do que a do cérebro. Representa a sensibilidade, a personalidade.”

George Steiner, em entrevista à Visão 16-07-2016

… durante anos estive do outro lado. Na sala de aulas, ensinando. Educando. Não gosto da divisão que todos brandam aos céus como se a mais alta das razões se fosse levantando de que em casa se educa e na escola se ensina. Sempre a combati. Na escola educa-se. E ensina-se. E fazem-se muito mais coisas, como dar civilidade. Agora, quando me desafiaram para voltar a escrever num blog tive sinceras reticências de pensamento e de reserva intelectual. Primeiro porque deixei de ser professor. Mudei de profissão. Depois porque fechei um blog sobre o assunto e não mais me apetecia andar por estes mundos. Mas o desafio surgiu noutra perspetiva. Inundada que anda a internet de mães e pais fotogénicos, eu, anónimo e muito pouco dado à exposição assumo aqui essa função. De escrever como pai. O que irei escrever será tudo menos politicamente correcto, ou bonito, ou com acordo ortográfico. Será a razão de alguém que sempre pensou e viveu a educação de forma diferente e que agora ensina e educa os seus dessa mesma forma. Fora da linha comum. Ou melhor, de outra forma que não a sistemática. Este é só um texto de abertura. Somente isso. Como tal, só um apontamento de apresentação. Tal como foi esta semana inicial na escola. Os miúdos, como gosto de dizer, voltaram à escola. Eles, que são o sangue e a alma de espaços de betão, voltaram. Quer dizer que as casas onde estavam estão agora mais vazias. Como pai sinto isso. E sinto que tenho pena de uma coisa muito simples. Quando eu era miúdo tinha que apresentar, por estes dias, e creio que foi assim até aos 12 anos, a cédula pessoal. Durante esse tempo dizia o sistema que eu era “pessoa” ou estava em vias de ser. Gostava desta coisa. Do pessoal. Do ser pessoa. Dizia o sistema, muito baseado na cultura e vivência política francesa, que a pessoa se forma em comunidade, para ser cidadão. Agora, o sistema encrava se o petiz não tiver cartão do cidadão. Imaturidade do sistema, penso eu. Imaturidade ao não dar tempo à pessoa para ser educado e ensinado a ser cidadão. As coisas e os nomes são reflexo do tempo em que estamos. Do cartão do petiz já nem o número de identificação interessa. Interessa o outro. O de contribuinte. Eu tive o privilégio do “sistema” me ter dado tempo para aprender a ser “pessoa”. Talvez seja por aqui que começam os males da escola hoje. É que disto, verdadeiramente, já ninguém se lembra…

Nota: O autor desrespeita com admiração, consideração e afins o acordo ortográfico em vias de obrigatoriedade séria.

João Lima

2 COMMENTS

  1. SEM DÚVIDAS:

    “Estou enojado com a educação escolar de hoje, que é uma fábrica de incultos sem respeito pela memória. E que não faz nada para que as crianças aprendam as coisas com a memorização. O poema que vive em nós, vive connosco, muda connosco e tem a ver com uma função muito mais profunda do que a do cérebro. Representa a sensibilidade, a personalidade.”

    George Steiner

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