Home Concursos Classe docente: o futuro que quer ou o futuro que lhe couber?

Classe docente: o futuro que quer ou o futuro que lhe couber?

170
0

futuroQuando paro para pensar em nós como uma classe profissional, ocorre-me que somos uns eternos otimistas, que vivemos na crença que pior que a nossa situação atual é impossível e que de alguma maneira, um dia destes, as coisas melhoram. Com a chegada de um novo ministro de educação, jovem, com um percurso individual distinto e apresentando um discurso onde manifesta a vontade de escutar os professores, sentimos de novo uma réstia de esperança. Infelizmente, quando confrontados com as propostas do modelo de concurso de professores, percebemos que foi “sol de pouca dura”.  Quando li sobre as mesmas, não pude deixar de pensar, ou o ministro da educação ouviu os professores e tem conhecimento do que eles pensam, mas optou pela estratégia de sempre e dos ministros anteriores, “dividir para reinar” ou deixou-se convencer pelos interesses há muito institucionalizados. As organizações que nos representam limitaram o seu discurso a palavras como “inadequadas” ou “insuficientes”. Quem, mais uma vez, viu os seus interesses salvaguardados remeteu-se ao silêncio, quem sentiu, nos últimos anos, a injustiça e a precaridade, e se vê agora beneficiado, aplaudiu, o que faz sentido. No entanto, o que não é compreensível, pelo menos para mim, é olhar para uma proposta destas e ouvir colegas a proferir frases como “finalmente há justiça”. Pergunto eu, justiça em quê e para quem? Se exercemos as mesmas funções, que fundamentos existem para a divisão de professores em diferentes prioridades? Por que razão as escolhas e os problemas pessoais de cada um são um critério na colocação de professores, dando vantagem a uns e prejudicando a maioria? Que tipo de justiça é esta que mantém, há mais de uma década, milhares de professores na precaridade, abusando-se do conceito de necessidades residuais? Teremos nós perdido a consciência da existência do coletivo? De que forma, é que a nossa dignidade e os nossos direitos são mais importantes que a dignidade e os direitos dos demais?

Nenhum de nós é ingénuo ou vive no mundo da fantasia para achar que é possível fazer tábua rasa de tudo o que já foi feito até hoje, que é possível chegar a um modelo que agrade a todos e que contemple todos os interesses individuais, mas persiste a necessidade de uma mudança. Resta-nos encontrar um modelo que se paute pela transparência e equidade, mas não menos importante, que promova a estabilidade, não só dos professores, mas da escola em geral. Um modelo, que na minha opinião, se caracterize pela racionalidade e objetividade. Este teria, como muitos defendem, que assentar num critério objetivo, a graduação profissional, que na minha ótica, seria feita, tendo como primeiro critério, o tempo de serviço efetivo. Um concurso alargado a todo o território nacional, não limitando os professores nas usas escolhas e no acesso ao emprego. A existência de um concurso único, contemplando já na candidatura o pedido de mobilidade, restrita, numa primeira fase, aos docentes com problemas de saúde que exijam tratamento continuado e numa segunda fase, a docentes que peçam mobilidade, por razões pessoais, desde que haja disponibilidade de vaga e que não ultrapasse outro candidato que requeira o mesmo. Nos anos que se seguem, os professores só concorriam às vagas que aparecessem e se efetivamente quisessem. Cada um ocuparia o lugar a que tinha direito, as escolas passavam a contar com um corpo docente estável, os diretores sabiam com o que contar, permitia um melhor conhecimento dos alunos e os professores podiam planificar e organizar a sua vida pessoal a longo prazo.

É verdade que somos milhares, não partilhamos todos das mesmas opiniões e não é fácil alcançar consensos alargados, mas como o problema é nosso, faz sentido que façamos parte da solução e para isso, temos que deixar de nos centrarmos no nosso umbigo, de nos refugiarmos no silêncio ou desviarmos o olhar porque quem está mal que se mexa. Precisamos de organização, coesão, falar a uma só voz e de encontrar uma representação efetiva para todos. Uma classe que apenas tenta sobreviver, dificilmente terá as rédeas do futuro que quer e ao qual tem direito.

Cassilda Coimbra

Professora

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here