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Círculos

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rainy-nightArmou-se de uma energia que não sentia e puxou a porta da rua. A mola velha deu um guincho enferrujado que se sobrepôs, por instantes, ao matraquear pesado da chuva no vidro. Arrepiou-se com a ventania fria da madrugada e puxou para si o abraço do casaco velho de lã. Na rua vazia, o vento fazia girar papéis velhos e folhas caídas numa dança despropositada. Caminhou apressada em direcção à paragem de autocarro e sentou-se encolhida, ombros escudados no canto do cubículo, os pés molhados da chuva cuspida pelo vento.

Esfregou uma na outra as mãos maltratadas de unhas roídas e mirou-as como se as vislumbrasse pela primeira vez. Com o calor da fricção, o tom arroxeado da pele tornava-se, sob a luz esmorecida do candeeiro, num escarlate vivo que realçava a teia profusa de cicatrizes feias e brancas como fantasmas.

Lembrou-se do dia aziago em que, pequenita e franzina, entornara sobre si uma panela de sopa acabada de fazer, lembrou-se do muito que gritou, sozinha em casa, com os braços e as pernas a fervilhar de bolhas e dores insuportáveis, recordou-se de se ter arrastado até à porta da rua, com as roupas literalmente coladas a si, de os gritos se terem progressivamente transformado num choro sofrido e baixinho, das vozes dos vizinhos no patamar, do bombeiro alto e garboso como um príncipe que pegou nela como quem segura um tesouro e a levou para o alívio nebuloso do sono.

Lembrou-se dos tantos e tantos dias de perpétua solidão que passou naquela casa, enquanto a mãe rodopiava no carrocel desnorteado da sua vida sentimental, cada uma delas presa em universos que pontualmente se interceptavam em segmentos momentâneos e fugazes. Reviu a convivência tantas vezes forçada e incompreendida com os amores da mãe, homens imoderados, coléricos, promíscuos, alguns gentis, nenhum constante, ninguém ficou.

Recordou todas as vezes em que, amargurada e infeliz, prometia a si própria que aquele não seria o seu caminho, que iria fazer da sua casa um lugar fagueiro e festivo, um casulo almofadado onde os seus amores pudessem aninhar-se e espreguiçar, agasalhados dos rigores do mundo para todo o sempre, ámen.

Evocou a imagem doce dos seus pequeninos, rechonchudos e macios, a dormir o sono dos justos. Amarfanhou-se-lhe o coração ao sabê-los sozinhos em plena madrugada, a aflição a martelar-lhe nos ouvidos, a culpa a calcar-lhe o peito, a necessidade a empurrá-la para a frente. São só algumas horas, não parou de repetir para si própria. Quando voltar das limpezas ainda eles estão a dormir, a vizinha Alzira está logo ali, os ouvidos de tísica atentos ao zoar de uma mosca. Todos os “nunca mais” tantas vezes juramentados com raiva e determinação orbitam maldosamente na sua cabeça.

Afasta-os com um gesto distraído do braço, à medida que sobe para o autocarro. O motorista sorri timidamente e deseja-lhe um bom dia claro e sincero. É bem-apessoado, limpo, as calças bem engomadas, um ar sério que lhe lembra o bombeiro-príncipe que a salvou e que para sempre morará no seu coração. Ofereceu-lhe de volta um sorriso triste e sentou-se lá atrás, os pés eternamente gelados, a solidão a ensopar-lhe os ossos.

MC

Estendal

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2 COMENTÁRIOS

  1. Muito bom, como sempre. Uma história triste (infelizmente comum) muito bem contada.

    (Não percebo porque é que algumas palavras têm links que nos levam a páginas que nada têm a ver com o teor do texto. Se é uma forma “criativa” de publicidade, discordo totalmente.)

    • Caro Luís. Obviamente que é publicidade, obviamente que não é agradável e percebo o desconforto, mas tem de compreender que manter o ComRegras com as características que tem implica investimento e como deve calcular a vida não está fácil. Tem sempre a opção de não carregar nas palavras que estão a laranja. Os meus cumprimentos.

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