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Chumbar Ou Não Até Ao 9.º Ano: A Escola No País Das Maravilhas – António Cortez

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Em inícios de Novembro anunciava-se mais uma medida extraordinária da tutela da Educação, ancorada nas decisões do Conselho Nacional de Educação. Não mais a retenção de alunos até ao 9.º ano. Como? Com a velha e sempre nova solução das “estratégias pedagógicas” que, a bem da escola e das famílias, pode fazer o milagre educativo: quem não estuda nada, quem jamais se esforça por aprender, pode agora seguir – como se tivesse via verde – incólume até ao 9.º ano.

Ao discurso de um sistema educativo feito para “o rigor e a excelência” sucede agora o discurso bem-comportado, socialista (dirão alguns), humanista (dirão outros) do “passe agora e aprenda depois”. A meu ver, a questão da reprovação até ao 9.º ano é importante, uma vez que se trata de legitimar (ou não) as aprendizagens e os programas em curso. Há uma incongruência básica: não se pode falar em “rigor e excelência” na escola portuguesa quando, no limite, os nossos alunos, sejam eles esforçados ou não, têm garantida a aprovação em todos os ciclos até ao 9.º ano. Por outro lado, como considera Jorge Ascenção, da Confap (Confederação Nacional das Associações de Pais), este problema – chumbar ou não chumbar – merece ser debatido a partir de outros ângulos.

A questão é económica, de facto, uma vez que, sendo a classe docente tão mal paga, os efeitos culturais dessa situação agravam o dia-a-dia escolar. Como? Professores deslocados da sua área de residência, tendo de pagar alojamentos caríssimos ou a humilharem-se com o aluguer de quartos onde depositam o pouco que trazem consigo (um resto de ideal, uns poucos euros para nada… talvez para despesas de transportes); professores com progressões congeladas e que, face a vários gastos, não podem comprar livros, frequentar museus ou ir ao cinema (como se pode dar aulas vivas e interessantes se a cultura letrada não faz parte da existência docente?); professores esmagados por um sem-número de reuniões muitas vezes inúteis em torno de decretos-lei, de decisões emanadas dos gabinetes do ministério e que nada têm que ver com as necessidades de docentes e discentes; professores esmagados pela extensão dos programas, necessariamente dados à pressa, mascarando com fichas superficiais o que, em teoria, nasce da vontade de “rigor e excelência” – tudo isto dá vontade de desistir.

Testes cada vez mais fáceis, exames muitas vezes absurdos, que avaliam competências mal-amanhadas (lê-se mal, escreve-se pior, quase nenhum estudante entre os 14 e os 25 anos tem noções seguras de História, de Geografia, de Língua Portuguesa – a sintaxe é deplorável, o vocabulário é rasteiro, as associações e inferências não existem, a faculdade da imaginação vê-se comprometida), a que se soma, em muitos estabelecimentos de ensino, a ausência, em número real, de auxiliares educativos sem os quais as escolas não funcionam, esta é uma das faces do problema.

Sustentar esta medida – não se reprovar até ao 9.º ano – é dar azo ao laxismo. Nada disto tem que ver com políticas de esquerda ou de direita. Tem que ver com bom senso. Implementada, esta “estratégia” será mais uma prova de que o único programa político para a educação em Portugal é descredibilizar a profissão de professor. Chegará o dia em que, a reboque do aluimento do sistema escolar, teremos aulas online, com tutores a fingir que há exigência, em rede, ensinando o nada-tudo em plataformas digitais… Admirável mundo novo! E mais barato!

Crescer na escola deveria ser possível, conjugando-se paciência e exigência no acto de ensinar. Para tal, quem ensina deveria ser bem pago e ter tempo para essa palavra fora de moda: a ilustração. Na lógica depredatória em que vivemos, os 250 milhões de euros que o Governo quer poupar hoje são um hipotecar do nosso futuro. À corrupção financeira, à destruição do SNS, à maior taxa contributiva da Europa, acrescente-se a falência do Sistema de Ensino e ver-se-á que o embrutecimento civil é fruto das decisões de curto prazo. Quem olhe para os jovens nas ruas da cidade já intui isso… E se a violência doméstica também nada tem que ver com a educação, então está tudo dito sobre a sensibilidade de quem dirige os destinos do país. Ou não?

Fonte: Público

1 COMMENT

  1. Tem razão o António Cortez…mas ninguém o ouve… Por estes dias o prosélito secretário de Estado, Costa, fez umas reuniões com directores s, e incentivou-os, de modo cínico, a implementar nas escolas a sua visão: flexibilidade; trabalho de projeto; colaboracionismo em geral…. a escola escolhida como o trampolim derradeiro para a ascenção social para o fim das desigualdades… A sua mão armada serrão as avaliações externas … sendo a minha única esperança a ética profissional dos inspectores que, tal como os professores, não estão por aqui de passagem e também já viram muito…
    Sei que estiveram nas visionárias reuniões ,mas não sei o que proferiram, mas bastaria terem dito que ficasse o SE Costa , e outros políticos, com a incumbência de acabar com as desigualdades sociais, que é essa a sua obrigação… Depois deveriam ter dito, porque há muitos que o acham, que o modelo pedagógico que Costa e Companhia querem implementar agravará as desigualdades, que é injusto, laxista, que tenta impor de modo miserável um ideia pedagógica bolorenta e não inovadora…
    Por fim. falou SE COSta, nas mesmas reuniões de acolitamento, que iria ajudar as escolas com um novo plano para o sucesso escolar, bombástico… Perguntei ao Ronaldo de Educação quanto é que ele tinha para implementar esta maravilha… Menos de 1%, mais coisinha menos coisinha… O SE Costa não fala a verdade e os directores têm a obrigação de não se deixarem intimidar… É o meu desejo de Natal!

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