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Chumbar é Normal?

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Perante o título eu não afirmo, pergunto se chumbar é normal? Se reter alunos é normal, daí a imagem da barragem.

Final de ano letivo, estamos em pausa para exames ou em tempo de provas de aferição (como a da manhã). Por esta altura invariavelmente surgem as mesmas dúvidas chumbar é bom ou mau? É normal ou não? Para além desta invariável, parto também de uma entrada do Alexandre.

Declaração de interesse. Um dos princípios pelos quais oriento a minha postura profissional assenta na consideração do aluno como sujeito de um processo e não objeto de trabalho. Isto é, muitos (professores mas não só) consideram que o aluno é a massa com que qualquer professor trabalha. A massa à qual o ensino e o empenho profissional dão forma. Tal ideia pressupõe que o aluno não tem vontade, não tem opinião. É massa inerte que ganha forma e tem sentido apenas pela intervenção educativa e escolar. Pelo meu lado, considero que o aluno é sujeito no seu processo. Tenha consciência, assuma ou não as implicações dos seus atos, tenha (ou não) noção das suas atitudes e do seu comportamento. Mas, ao resistir, ao adotar determinadas posturas (atitudes ou comportamentos) está a assumir uma dimensão ativa do seu processo, a assumir as suas opções – que podem ir do desinteresse ao confronto com o docente e como os pais..

Perante esta declaração de interesses​, assumo que o (in)sucesso (para além de eventuais dificuldades específicas de aprendizagem) decorre de uma postura do aluno. Por um lado, pelo lado do sucesso, o aluno (com estrutura social e/ou familiar de apoio) assume uma postura ativa e reconhecida perante a escolarização. Tem a sua estratégia montada sabendo (melhor ou pior) retirar proveito das lógicas e das dinâmicas instituídas (aulas, conteúdos, avaliação e mais do mesmo). Por outro, pelo lado do insucesso, tenho-me questionado até que ponto não reflete uma estratégia (assumida, ou não) de recusa da normalização que a educação confere, de recusa da homogeneização que a escola assegura.

Deste modo, promover o sucesso passa, em meu entender, por dar sentido às estratégias sociais e familiares que o aluno com sucesso assume. Combater o insucesso passará, em meu entender, por contrariar as estratégias de recusa e refutação da homogeneização e uniformização. Não sabendo até que ponto as tentativas de recusar essas estratégias darão origem a mais do mesmo (comportamentos disruptivos, conflitos e tensão na relação de ensino-aprendizagem).

Em final de ano letivo e olhando apenas e somente ao meu contexto (à minha realidade escolar) percebo exatamente que há alunos que assumem a postura da conformidade escolar e do processo de escolarização. Ao olhar a minha realidade escolar percebo que o insucesso assenta no aluno com condições sociais ou familiares frágeis. O desinteresse e o alheamento surgem, na maioria das situações, como mecanismo de contestação, os comportamentos são forma de retaliação, as atitudes (assumidamente negativas) são moeda de troca nos processos de negociação com docentes e demais elementos que representam a ordem, a regra, a “normalidade”.

Olhando e considerando apenas a minha realidade escolar, que estratégias de promoção do sucesso poderão ser adoptadas? Qual o (novo?) papel da escola e como o concretizar perante estratégias assumidas ou desinteresse reconhecido? Que relações ou inter relações assumir com que parceiros? Qual o papel dos pais/encarregados de educação e da escola, uns e outros, como elementos de complementaridade de uns e de outros?

Não penso nem escrevo para o ano que agora termina. Penso e escrevo em face de eventuais estratégias que possam ser assumidas por via dos​ resultados das provas de aferição que hoje, pela segunda vez, se realizam.

Manuel Dinis P. Cabeça

12 de junho, 2017

coisas das aulas

3 COMMENTS

  1. Num quadro de escolaridade básica, “passar” não pode ser considerado prémio, como “reprovar” não pode ser castigo.
    Assim, um aluno não deve reprovar como consequência de ter mais de x negativas, como não deve reprovar por ter infernizado a vida aos professores.
    A decisão tem de ser eminentemente pedagógica, isto é, tem de ter em conta o que se afigurará melhor para o futuro da pessoa / aluno.
    Defendo, ainda, que nunca se reprove (retenha) um aluno sem concordância da família.
    Note-se que, a prazo, este é um sistema que tenderá a ser muito mais seletivo do que o tradicional “chumbo” com base nas negativas, mas não se pode ter tudo…

    • Concordo. A parte da família é que tenho algumas dúvidas, pois não existe o distanciamento necessário para tomar certas decisões.

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