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Chumbar ajuda os alunos a aprender?

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A única arma que os professores possuem e que acreditam que é capaz de recuperar as aprendizagens dos alunos e sejamos sinceros, punir aqueles que pouco ou nada fizeram ao longo do ano, é o chumbo. Já estive em vários conselhos de turma que a opção de transição do aluno dependia do encaminhamento do aluno para outra área de estudo, mudança de turma, mudança de escola, etc. Algo que alterasse vícios adquiridos, libertando o aluno para uma nova fase.

Só que o problema principal está nas aprendizagens. Como refere e bem Alexandre Homem de Cristo, no artigo publicado hoje no Observador, em Portugal, não existe um sistema de recuperação transversal e eficaz nas escolas que permita recuperar o aluno logo quando este apresenta as primeiras dificuldades. Se analisarmos o que se passa por exemplo no 1º ciclo, com a dimensão do currículo e elevada carga letiva, os alunos que têm a sorte de ter pais que fazem papel de explicador, têm uma maior probabilidade de sucesso. Só que os pais não devem fazer de explicadores, devem fazer de pais e terem tempo para serem pais.

Vejo a opção pelo chumbo, como o dar tempo para o aluno voltar a apanhar o comboio. Mas se o aluno não aprendeu da primeira vez, corre o sério o risco de não aprender a segunda se a estratégia for exatamente a mesma, com a agravante de uma acrescida desmotivação por ter perdido os seus colegas de turma e por estar a ouvir novamente a mesma coisa. É como obrigar uma pessoa a rever um filme que não gostou…

Sou apologista do chumbo, DESDE que exista uma alteração efetiva da estratégia utilizada para ensinar aquele aluno. Se for para repetir a mesma coisa, então mais vale deixar o aluno transitar de ano.

Mais abaixo vão ler as soluções apresentadas pelo autor, mas ele esquece-se das soluções que na minha opinião são realmente eficazes, a redução efetiva do número de alunos por turma, um regime de codocência e programas equilibrados quer na sua dimensão quer no seu grau de dificuldade. Tudo o que não temos neste momento em Portugal.

É um assunto extremamente complexo, que pode ser visto de vários prismas e que toca alguns egos mais sensíveis… Apesar dos consensos serem impossíveis nesta matéria, continuo a defender que Portugal devia ter uma política coerente e estável sobre este assunto, onde os professores obrigatoriamente têm de ser ouvidos e tidos em conta.

Fica um excerto do artigo referido

 

A resposta, tendo por base os estudos mencionados, tem duas partes. Sim, há um pequeno efeito positivo no imediato. Não, esse efeito não representa uma mais-valia para o aluno, porque é demasiado ténue e não justifica a penalização de atrasar o seu percurso escolar. Resumindo: nem num contexto geral, nem especificamente no caso português, a retenção escolar parece ser uma ferramenta apropriada para lidar com os alunos com dificuldades.

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Soluções

Exemplos concretos? Vamos a isso. Uma medida possível seria uma aposta real no apoio ao estudo, fora das aulas mas na escola, acabando assim com as existentes desigualdades no acesso às explicações – as explicações custam dinheiro e por isso estão geralmente inacessíveis aos alunos socialmente desfavorecidos (e que, em média, têm maiores dificuldades no seu percurso escolar e portanto mais necessitam). Outra medida possível seria permitir às escolas gerir reduções acentuadas da dimensão das suas turmas, quando os resultados escolares assim o justificassem – permitindo, assim, um acompanhamento de maior proximidade para os alunos que precisam de ajuda para aprender. Ainda outra medida possível seria uma aposta estrutural na formação contínua de professores, no sentido de lhes dar ferramentas para chegar aos alunos mais difíceis – algo que é muito mais difícil do que se possa pensar. Por fim, uma outra medida possível seria colocar a tecnologia ao serviço da aprendizagem dos alunos. Hoje em dia existem plataformas digitais que, implementadas numa sala de aula, permitem aos alunos aprender ao seu próprio ritmo apesar de integrados numa turma (algo que existe, por exemplo, nas chamadas “escolas do conhecimento”, na Suécia).

(…)

So what? As quatro ideias-chave que importa reter

Primeira ideia: Portugal tem um número muito elevado de alunos a chumbar, todos os anos, com particular incidência nos primeiros anos de escolaridade de cada ciclo de ensino. O perfil socioeconómico dos alunos, sendo um indicador para estimar o desempenho escolar, está fortemente relacionado com a reprovação: são os alunos mais pobres e com pais menos escolarizados que maior probabilidade têm de reprovar. Olhando aos padrões europeus, Portugal é um dos países onde mais alunos são retidos ao longo do seu percurso escolar e está a milhas de distância do pelotão europeu. Ou seja, as elevadas taxas de reprovação de alunos é sobretudo uma característica do sistema educativo português.

Segunda ideia: a retenção de alunos é geralmente ineficaz para a promoção das suas aprendizagens. Ou seja, em média, chumbar não ajuda os alunos a aprender e recuperar o atraso que têm face aos colegas que transitaram de ano escolar. Em média, note-se: há sempre casos em que a medida poderá ser eficaz e necessária. Ora, se é, em média, uma medida ineficaz para as aprendizagens, é também uma medida praticada de forma recorrente, desviando para aí fundos públicos que são mal empregues.

Terceira ideia: não existem soluções mágicas, tal como a abolição das reprovações e optar por passagens administrativas. Baixar a exigência do ensino ou abolir avaliações externas só para passar alunos é uma opção irrealista e contraproducente. Qualquer solução para este problema das retenções escolares tem de ser direccionada para a qualidade das aprendizagens, garantindo mais e melhor apoio aos alunos que manifestem dificuldades. Isso terá custos orçamentais, inevitavelmente. Mas também há elevados custos orçamentais com a retenção escolar.

Quarta ideia: faça-se o que se fizer no domínio das políticas públicas, a primeira prioridade passa por combater a cultura de retenção que se instituiu entre os professores e directores escolares. Perante um aluno com dificuldades, a opção mais simples é deixá-lo para trás (retenção). A opção desejável é haver um investimento reforçado nesse aluno. Mas isso representa mais trabalho e mais dedicação e requer mais condições para prestar apoio aos alunos. Ora, actualmente, o sistema não gera incentivos aos professores para que sintam essa responsabilidade.

Fonte: Observador

7 COMMENTS

  1. Os professores não chumbam nem passam alunos. Isso quem faz é em primeiro lugar os normativos que regulam a acção do professor mas também dos alunos e, em último lugar, o conselho de turma que pode, de forma justificada alterar a avaliação proposta por cada professor. Ao professor cabe somente identificar a qualidade do desempenho do aluno que se espera que também seja resultado do processo de ensino, mas também dum processo de aprendizagem que envolva o aluno no seu empenho nas aulas como facilitador da apropriação dos conhecimentos e do desenvolvimento de capacidades, através dum nível de qualidade que se pode expressar de formas diferentes nos vários ciclos de escolaridade. A mesma acção dos professores poderia ter efeitos totalmente diferentes com outros normativos e enquadramentos legais. Recentremos a nossa discussão no que verdadeiramente importa: se a avaliação expressa efectivamente o valor do trabalho de cada aluno e do seu desempenho (demonstração).
    Claro que a discussão, eterna diria eu, de qual o benefício da retenção ou reprovação, como preferirem, pode e deve ser feita, mas considerando o quadro em que ela se coloca.

  2. A Suécia que péssimo exemplo… Bem sei que o Homem Cristo adora… Não há nada mais bonito que ver uma certa direita, digamos, reciclada, a certos paradigmas de esquerda… Depois a das plataformas digitais para substituir os professores… ainda accho mais bonito… Deve saber o Dr. Homem Cristo que há diversos académicos ferozmente contra a tecnologia em contexto de sala de aula e ainda mais ferozmente contra plataformas desta natureza! Mas isso era uma outra longa história…
    A quarta ideia de Homem Cristo, além de falsa, pretende gerar uma série de equívocos para, como é habitual em HC, culpabilizar os professores… Os tais que , segundo o mesmo Homem Cristo, são fracos profissionais por terem uma proveniência sócio-económica baixita…
    É falso que haja uma cultura de retenção, senão a Holanda, a França ; a Suiça , a Bélgica também a terão… A diferença é que não se pode comparar os meios que são postos à disposição das escolas em Portugal e nesses países. É perfeitamente estúpido pensar que os professores gostam de ”chumbar” alunos… Agora é verdadadeiro que os professores portugueses, na sua generalidade, não querem cair num logro…. e, infelizmente, não têm os meios necessários para apoiar devidamente os alunos com maiores dificuldades….
    Por último um esquecimento habitual em Homem Cristo, tal é a sua ânsia em denegrir os professores portugueses e em desculpabilizar o sistema que gera os problemas… Portugal é dos países mais pobres e desiguais da UE, mas disso , do principal gerador das dificuldades de aprendizagem, Homem Cristo permanece mudo… como um bom rapaz da direita… e dá a revienga, deixando-o os seus ímpetos esquerdóides…. mas práticos para ”malhar ” no professorado… O Homem Cristo tem um problema … pensa que somos todos néscios!

  3. não se deve reprovar nem se pode proibir reprovar…quando acharem a ‘quadratura do circulo’ será uma noticia ótima para os docentes…
    nenhuma análise sobre o ambiente sócio-económico e familiar dos alunos que afeta inevitavelmente o desempenho escolar…e quais as soluções para os muitos casos de desestruturação sócio-familiar, acompanhamento CPCJ, jovens institucionalizados,…
    e também ignorar um fator importante na aprendizagem: quando não querem aprender, mas apenas usufruir do hedonismo disponibilizado em larga escala e de livre acesso a qualquer momento, muito mais atrativo do que conhecer conteúdos culturais, científicos ou técnicos…

  4. A minha experiência no 2.º ciclo e, nos últimos anos, no 1.º ciclo, tem-me mostrado que o professor tem que se preocupar, SEMPRE e SOBRETUDO, com as competências que o aluno desenvolveu e se estas lhe permitirão ter sucesso no ano lectivo subsequente.
    Por isto, o erro com o sucesso tem início logo no 1.º ano, no qual não se permitem retenções (origina traumas?), o que torna o 2.º ano um verdadeiro martírio para qualquer docente: alunos que lêem e exigem tarefas com determinado grau de complexidade; alunos que soletram e consequentemente ainda não interpretam, requerendo tarefas mais fáceis; alunos que ainda não conhecem os ‘casos de leitura’, alunos que simplesmente não lêem…
    Quantos tipos de trabalho prepara um docente no 2.º ano, mesmo não tendo em conta as crianças com Necessidades Educativas Especiais (NEE)? Vem então a admiração com a taxa de insucesso no 2.º ano do Ensino Básico!! Mas que elevada!?! Espantosamente…
    Se não se pretende reprovar, que não se reprove ninguém- haja coragem de reformular a constituição administrativa de “Grupos”, em vez de turmas, pelo grau de desenvolvimento dos alunos; permitam-se vários “momentos de transição” em vez de apenas um anual, conforme a criança se for desenvolvendo e adquirindo habilidades.
    Tudo espartilhado, calendarizado, como se o desenvolvimento humano(FÍSICO ou COGNITIVO) fosse uniforme e programado!!!… … Lógico? Para mim, não.

  5. Alexandre Homem ao citar e tirar conclusões de estudos que não refletem a realidade tem como resultado uma narrativa de pura ficção.

    Vou procurar desmontar esta obra de ficção e também de limitação ideológica para repor a verdade.

    “… o Conselho Nacional de Educação critica a cultura de retenção existente em Portugal”.
    – Na Recomendação n.º 2/2015 do Conselho Nacional de Educação são referidas muitas “culturas”, “cultura da retenção”, “cultura da nota”, “cultura da avaliação”, etc. Como demonstração por redução ao absurdo poderíamos dizer que o melhor seria acabarmos com as notas, pois assim acabaríamos com a avaliação et voilá acabaria também a retenção.

    – Mas foquemo-nos na tantas vezes repetida “cultura da retenção”. Muitos textos a citam, muitos entrevistados de renome a repetem, mas de facto não há nas escolas portuguesa uma “cultura de retenção” .

    – Como é possível afirmar-se que há uma cultura de retenção se os alunos transitam com mais de 5 ou 6 negativas? Antes pelo contrário o que há nas nossas escolas é uma avassaladora cultura da transição a qualquer preço. Os professores são sistematicamente pressionados para que os seus alunos transitem. O Ministério da Educação avalia as escolas pelo “sucesso” destas “transições” e os diretores querem que a escola tenha uma boa nota.

    “… os professores usam a retenção como forma de filtro logo no arranque de um ciclo de ensino, em vez de tentar puxar para cima um aluno que demonstre dificuldades no início e ajudá-lo a recuperar o atraso mais à frente”.

    – Conclusão abusiva e totalmente errada. Todos os professores procuram que os seus aluno melhorem de modo a conseguirem ultrapassar as suas dificuldades, nenhum aplica premeditadamente o “filtro” da retenção. Procurar colar aos professores este tipo de premeditação maldosa é simplesmente vergonhoso.

    – Quem tem um filtro ideológico e falta de trabalho de observação da realidade das Escolas é o autor desta frase altamente ofensiva para os Profissionais da Educação (certamente é mais confortável estar sentadinho a ler estudos e recomendações).

    – Porque motivo os alunos são retidos? Unicamente devido à aplicação da lei:
    “A avaliação incide sobre as aprendizagens desenvolvidas pelos alunos, tendo por referência os documentos curriculares em vigor” e “Caso o aluno não adquira os conhecimentos predefinidos … pode, a título excecional, determinar a retenção do aluno no mesmo ano de escolaridade”, não é por uma especial má-vontade dos professores.

    “…a retenção é muitíssimo mais baixa nas escolas privadas … os alunos mais pobres e com pais menos qualificados têm, geralmente, resultados mais baixos na escola …”

    – Os meninos das escolas privadas quando chegam a casa, dão um beijinho ao papá e à mamã, a empregada serve o chá e as bolachinhas e depois o menino tira um livro da biblioteca que lê ao som da música de Wagner, preparando as aulas do dia seguinte. Os meninos das escolas públicas têm muita sorte quanto têm os dois pais empregados, por vezes não vêm os pais antes de irem para cama, pois estes chegam tarde devido a trabalharem por turnos, ou porque têm de trabalhar 10 ou 12 horas por dia graças a um qualquer banco de horas. O principal problema não é a escolaridade dos pais, é a falta de disponibilidade que a precarização e a chamada flexibilidade laboral impõem às famílias portuguesas.

    “… na Área Metropolitana de Lisboa e no Algarve, os níveis de retenção sejam mais elevados – são regiões do país com elevada incidência de população migrante…”

    – Uma associação errada e preconceituosa. Basta recordar as elevadas classificações que tiram os alunos de ascendência ucraniana, não raramente estão no quadro de honra das escolas. O facto é que as famílias destes alunos valorizam muito a escolarização e passam esses valores para os filhos, tendo estes um bom aproveitamento.

    “…um estudo sobre o impacto das retenções no desempenho dos alunos, da autoria de Luís Catela Nunes, Ana Balcão Reis e Carmo Seabra … de acordo com os dados deste estudo, a retenção não compensa para o aluno.”

    – Então como explicar o sucesso do ex-presidente da república Cavaco Silva? É sabido que “aprendeu a lição mais importante da vida na adolescência”: “Cavaco Silva não é excepção e assume que há um acontecimento determinante na sua vida: o chumbo na escola, aos 14 anos. Dei uma lição ao meu filho sem lhe bater, contou, um dia, o pai, Teorodo Cavaco Silva. O Aníbal perdeu um ano e nesse Verão não houve cá férias, nem praia. Cavaco passou os meses mais quentes a pedalar numa bicicleta velha, até às terras do avô, onde perdeu dias a regar milho e batata-doce e sentado a ver o burro a andar à volta da nora … Voltou à escola. Tornou-se o melhor aluno da turma e adoptou uma máxima que ainda hoje rege a sua vida: “Sem esforço é difícil vencer na vida.”
    http://expresso.sapo.pt/actualidade/na-cabeca-de-cavaco=f503275#gs.sP2=0s0
    A retenção é uma hipótese que o aluno tem de começar de novo, mudando práticas anteriores. É uma hipótese que raramente a vida adulta e profissional dá.

    “ Uma medida possível seria uma aposta real no apoio ao estudo, fora das aulas mas na escola, acabando assim com as existentes desigualdades no acesso às explicações – as explicações custam dinheiro e por isso estão geralmente inacessíveis aos alunos socialmente desfavorecidos (e que, em média, têm maiores dificuldades no seu percurso escolar e portanto mais necessitam).”
    – Enfim, um lirismo confrangedor. Atualmente um aluno dificilmente é retido por não saber. O aluno pode é ser retido por não querer saber. Um aluno que não sabe, nem quer saber, não vai a qualquer aula de apoio na escola. Sei-o por experiência própria.

    “… Portugal é um dos países onde mais alunos são retidos ao longo do seu percurso escolar e está a milhas de distância do pelotão europeu …”
    – Portugal está a anos-luz do ordenado mínimo de um Luxemburgo, a parsecs do apoio social às famílias de uma Finlândia e é dos mais desiguais da Europa. Melhorem-se as condições das famílias que melhorarão sem dúvida os resultados escolares.

    É conveniente que quem escreve sobre educação faça o trabalho de casa e tenha um nível de conhecimentos mínimo.
    Quando tal não acontece o texto não passará de um conjunto de lugares comuns enclausurados numa ideologia sectária e muito faccioso.

    • E se houvesse essa cultura da retenção(?!) – expressão ofensiva à ética profissional- facilmente se eliminaria com a introdução de um artigo na legislação dizendo “ser proibida a figura da retenção”. No entanto, mesmo com toda a prosápia da escola/professores viverem a cultura da retenção, nunca nenhum governo introduziu esse artigo. Porquê?…

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