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Centros Qualifica

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O governo lança hoje uma das suas promessas eleitorais, a aposta na formação de adultos, por intermédio dos centros qualifica (notícias 1 e 2).

À semelhança de qualquer área da educação esta não foge à regra de ter sobre elas considerações marcadamente ideológicas e valorativas. Isto é, todos temos uma ideia sobre o que é, como deve/devia ser, qual a sua importância ou qual o seu papel/objetivo. Acresce que vem na sequência, primeiro, dos centros novas oportunidades (CNO), bandeira de um governo de Sócrates quase que banido dos livros. Depois na sequência dos centros de qualificação e educação profissional (CQEP) do governo anterior. Se lhe juntarmos o facto de uma qualquer segunda oportunidade não ser bem vista então teremos o caldinho montado para tecer todas as consideração. Mais, mesmo ao nível das escolas esta realidade ou não é conhecida, a não ser nos seus contornos mais gerais e genéricos, dando, por vezes, oportunidade a preconceitos ou, então, é assumidamente desvalorizada e algo desconsiderada na organização letiva e escolar.

Trabalhei com adultos por três vezes ao longo da minha carreira profissional. Primeiro ainda na configuração dos cursos gerais e/ou complementares noturnos. Depois no âmbito do ensino recorrente e, mais recentemente, há dois anos a esta parte, no âmbito dos CQEP. Direi sem entrar em detalhes que são três realidades completamente distintas, sobre qualquer ponto de vista, tendo apenas em comum o facto de se dirigirem a uma população que, por diferentes razões, primeiro abandonou a escola e que a ela regressou.

No âmbito do serviço que me foi atribuído no contexto do CQEP, reconheço a grata surpresa que tem sido trabalhar com estas pessoas, aprender com elas, conhecer outras dimensões da escola e da realidade concelhia onde o centro se integra. Assumo um duplo olhar sobre estas funções. Por um lado enquanto formador numa das áreas chave. Por outro, enquanto curioso da escola na perspectiva de perceber e historicizar o insucesso. Ou seja, por intermédio dos registos autobiográficos destes agora adultos, perceber o que conduziu ao insucesso, até que ponto existem hoje recorrências dessas situações, a existirem como as poderemos gerir? Quais os momentos marcantes do insucesso? Quais as considerações tecidas sobre a escola ou sobre o professores ou sobre o trabalho dos professores? Reconheço que é um mundo que paulatinamente tenho vindo a descobrir – e que me encanta.

A maior parte das pessoas que abandonaram a escola fizeram-se por via de dificuldades económicas e sociais. Os anos 70 e 80 do século passado estão marcados nos textos das pessoas, as dificuldades sentidas, a necessidade de braços para apoiar a família, o abandono para que os mais novos pudessem prosseguir. Mas o abandono também se deve a coisas ainda atuais, ao desinteresse, à indiferença à escola e, em particular, ao trabalho de sala de aula, às rotinas e procedimentos às quais não se perspectivam objetivos, lógicas, compreensão. A maior parte das pessoas que abandonaram a escola ficaram marcadas pelo primeiro ciclo (o único ciclo de ensino que todos valorizam, destacam). Grande parte das pessoas aponta, como uma das chaves do seu insucesso, a mudança para a escola grande (a então C+S), a escola da cidade e o que isso acarretou (transportes, deslocações, levantar cedo, chegar tarde, novas companhias, professores indiferentes).

De modo a não me alongar e sem grandes considerações nesta área, pergunto se não seria interessante que as escolas onde se situam os centros pudessem conhecer mais e melhor aquela que é a sua própria história? Até que ponto não seria importante olhar atrás e sem qualquer pretensão saudosista, gerir aquelas que são situações ou circunstâncias recorrentes do insucesso. Incluindo os comportamentos.

Manuel Dinis P. Cabeça, 06 de março, 2017

coisas das aulas

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