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Causas e procedimentos para quando o aluno recusa sair da sala de aula.

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200168451-001Esta é uma das maiores dificuldades pela qual os professores passam quando lidam com questões disciplinares. Frequentemente chega o momento em que não dá mais! O professor já esgotou o seu cardápio de estratégias e mesmo assim a conduta do aluno mantém-se perturbadora para o processo de ensino/aprendizagem. Quando chega esse ponto só resta ao professor uma alternativa, dar a ordem para o aluno abandonar a aula, conforme estipulado no artigo 26º, alínea b) do estatuto do aluno.

No entanto, começou a surgir um fenómeno que, se entra na moda, pode tomar proporções muito preocupantes. Estou a falar da recusa do aluno em sair da sala de aula. Quando isto acontece estamos perante uma situação eventualmente explosiva, que deve ser resolvida com inteligência e muita calma.

Analisemos este fenómeno por diferentes prismas.

O que leva um aluno a desafiar de forma tão incisiva a autoridade do professor?

Passando por cima das questões sócio-afetivas e económicas que, por si só não são suficientes para justificar a atitude do aluno, é para mim evidente que tal se deve à diminuição da autoridade da escola e por consequente do professor. Os muitos anos em que a tutela apresentou um discurso de crispação para com os docentes, minando a opinião pública de forma a justificar o estrangulamento financeiro das escolas, levou a sociedade a desprezar a autoridade e reputação que estava enraizada nesta profissão.

Posto isto, temos a própria estratégia disciplinar implementada pela escola. O estatuto do aluno não estabelece critérios de atuação (podem consultar a proposta do ComRegras aqui),  deixando ao livre arbítrio das escolas o grau de exigência disciplinar. Esta opção é perfeitamente justificável, até porque sou defensor de uma verdadeira autonomia para as escolas, nomeadamente nas questões disciplinares. No entanto, cada cabeça sua sentença, e haverá por este país fora quem opte pela estratégia do “coitadinho” ou o extremo oposto da “vara de ferro”. Mas uma coisa é certa: se existir um sentimento de impunidade por parte dos alunos “complicados” e se o corpo docente não for defendido pelos seus superiores, estamos perante a “tempestade perfeita”.

Por fim, o próprio professor. A capacidade para gerir conflitos, a forma como cativa os alunos, o estilo utilizado (podem consultar o vosso acolá), a sua personalidade, as estratégias utilizadas, etc, tudo isso é importante para ganhar o respeito dos alunos.

Como prevenir este tipo de situações?

Como referi anteriormente, o professor é fundamental neste processo, mas ninguém o deve acusar de ser mau professor só porque tem problemas disciplinares dentro da sala de aula. O professor foi formado para ensinar e não para gerir conflitos. Não cabe só ao professor lidar com esta problemática. Os pais, através do diretor de turma e o órgão de gestão devem implementar estratégias para prevenir este tipo de situações. No meu entendimento existe uma estratégia que, ao ser enraizada na escola trará naturalmente resultados positivos. Esta medida terá um efeito preventivo e dissuasor que levará o aluno a pensar duas vezes antes de recusar a ordem da saída da sala de aula. Sou da opinião que os alunos devem ser envolvidos na elaboração desta medida, pois se estes a reconhecerem como válida é meio caminho andado para ela resultar. Esta estratégia trará também uma consequência indireta: protegerá o professor pois não foi ele que a estipulou e, na maioria dos casos, bastará consciencializar o aluno para as consequências da recusa em sair da sala de aula.

E o que é que o professor deve fazer?

Em primeiro lugar deve manter a calma. Se for possível dialogar com o aluno de forma individual, pois a sua força está na reputação que quer manter perante os outros e quanto maior o “espetáculo” mais forte o aluno se tornará. Entrar no “jogo” do agora diz ele, agora digo eu, não vai levar a nada e poderá levar a situações extremas em que tudo pode acontecer. Ao escolher este caminho o professor só “ficará bem na fotografia” se o aluno sair, mas caso isso não aconteça, a sua autoridade ficará posta em causa e aí é que é que vão começar os verdadeiros problemas…

Como esta situação já me aconteceu (podem verificar), julgo ser oportuno transmitir a minha experiência. Não é por ser melhor ou pior que os outros, é apenas o que fiz e o que aconteceu.

Simplesmente parei a aula, sentei-me calmamente e disse que enquanto o aluno não saísse, a aula não continuaria, optando depois pelo silêncio (meu e dos alunos). Normalmente é o suficiente para criar incómodo e para o aluno sair, mas se mesmo assim o aluno não sair, acrescento que quanto mais tempo ficar na aula maior será a sanção que irá sofrer. Claro que só posso dizer isto se sentir que a direção me apoia e atua em conformidade. Se essa simbiose direção/professor não existir, é melhor não fazer bluff, pois o aluno também conhece a realidade escolar. Não sou apologista de chamar alguém da direção ou mesmo de um gabinete disciplinar, pois considero que essa opção irá retirar autoridade ao professor.

O que não recomendo…

Alguns de vós, ao lerem estas palavras poderão ter pensado “Havia de ser comigo… Ai dele que não saísse, nem que eu lhe pegasse ao colo ou o arrastasse pela sala ele sairia, ai saía saía…”

Pois é, lembro apenas um episódio que aconteceu há uns anos atrás numa escola do norte do país e que envolvia um telemóvel… Lembram-se? O envolvimento físico além de não ser permitido por lei dá uma imagem de total descontrolo por parte do professor. E o professor deve ter uma conduta exemplar para aqueles que estão à sua frente. Além disso, quem está à nossa frente vai contar aos seus pais o que aconteceu e o professor poderá sofrer consequências bastantes desagradáveis, conforme estipulado no estatuto disciplinar dos funcionários públicos. Por isso amigos, muita calma nestes momentos…

Esta é uma situação complexa e cada caso é um caso. A minha verdade não será certamente a única verdade, por isso seria importante saber se já passaram pelo mesmo e como costumam resolver essa situação. Aceitam o desafio?

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23 COMENTÁRIOS

  1. Tenho optado pela hipótese de parar a aula já disse a um aluno que chamava os agentes da escola segura e ele saiu rapidamente.

    • Essa proposta levanta-me duas dúvidas:
      1ª um professor por si só pode chamar um agente da escola segura?
      2ª mesmo que seja o diretor a chamar, essa função pode ser executada pela escola segura?

      • Tenho conhecimentos que numa escola do 1º ciclo a escola segura foi chamada a intervir uma vez que alguns alunos tiveram uma conduta desadequada. A direção não actuou e os pais foram chamados à escola. Pareceu-me que de pouco serviu, os alunos continuaram ao longo do ano com os mesmos comportamentos perturbadores.

  2. Outra solução poderá ser, desde que a escola disponha de salas, ser o professor e os restantes alunos a mudar para outra sala. Nessa altura, o aluno conflituoso deixa de “ter plateia” e acaba por abandonar, ele próprio, a sala de aula.

  3. A sugestão dada de não continuar a aula enquanto o aluno não sair, funcionará nas turmas em que o resto dos alunos são interessados e bem comportados, pois numa turma em que a maioria não quer saber dos assuntos escolares para nada, não funciona e até agradecem, a aula ficar parada. E é nessas turmas que de um modo geral acontecem esses casos de recusa de saída da sala de aula.
    Talvez a melhor opção seja mesmo os outros saírem da sala com o professor, no entanto não deveria ser essa a opção, pois quem procedeu mal é que deve sair.

    • Olá Miguel. Conheço uma série de situações que mesmo em turmas complicadas a estratégia resultou. No entanto, tocou no ponto chave… De que lado estará a turma? Com o professor ou com o aluno? O que acontecerá de seguida será o resultado de uma série de variáveis…

  4. Há dois anos na Trafaria, perante a recusa de uma aluna em sair da sala, chamei um funcionário e pedi-lhe que me indicasse uma sala vaga. Mudei de sala e o resto da turma CEF acompanhou-me. Foi remédio santo.

  5. Quando existe o problema não está nos alunos mas sim nos Senhores Presidentes dos Conselhos Diretivos que não têm personalidade, são frouxos e acham que os meninos é tem têm, sempre, toda a razão e não os Colegas. Para alguns Presidentes do CD, pretensiosos, orgulhosos e déspotas que não batem bem daquela cabecinha ( algumas pessoas nunca deveriam ter poder porque quando o têm abusam dele) , têm medo dos Pais, querem agradar a quem os elegeu e , sobretudo, acham que mandam nos próprios COLEGAS só porque são presidentes do CD. Acham que os professores são para espezinhar e culpam-nos das situações que acontecessem no dia a dia nas salas de aula porque, dizem que eles, não sabem tratar com alunos , que não sabem gerir conflitos, que não têm capacidades nenhumas para tratar com adolescentes, etc., etc. .. e que fossem eles nunca chegariam a uma situação daquelas , nunca lhe aconteceria tal coisa, …etc, etc, etc.

    Quando um Presidente do CD não é temido pelos alunos é uma rebaldaria nas salas de aulas e nas escolas e não me contem estórias de tato e jeito de Professores com adolescentes, pois, muitos deles nem sequer os seus pais respeitam e temem, quanto mais os Professores! Quem avalia os Presidentes do CDs ? Quem os lá coloca, concelhos de escola, associações de pais ? Não me façam rir. Para já os Presidentes do CD deveriam ser escolhidos em concurso nacional através de exames de personalidade e currículos virados para a gestão de pessoas e bens públicos.

    Não há etiqueta , nem empatia que resulte quando um presidente do CD não impõe respeito aos alunos de uma escola . Muitos deles ( presidentes do CD), coitaditos , procuram impor respeito onde não devem que é nos próprios colegas acham-se superiores a eles só porque são presidentes do CD. Aí nada feito. Adianta pouco tentar dialogar com alunos se o Gestor da escola não presta.

    Para os Professores serem respeitados dentro das sala de aula têm obrigatoriamente de ter por trás deles pessoas respeitáveis e não pura chicória como centenas de vezes acontece . Quando os Presidentes dos Concelhos Diretivos são puro lixo dão muito mais dores de cabeça aos Professores do que os próprios alunos mal comportados ou desobedientes, aqueles são muitíssimo piores do que as crianças porque estas ainda têm o desconto da idade e da capacidade.

    Nas diversas escolas por onde passei tenho experiência que quando os Senhores Presidentes dos CD são pessoas com nível não há problemas com alunos porque para manter a ordem basta ameaçar mandá-los ao CD nem sendo quer preciso fazê-lo, efetivamente . Não é preciso mais nada, basta uma leve ameaça . Quando os Presidentes do CD não prestam, se forem os alunos forem ameaçados com a ida ao CD, ainda se ficam a rir e fazem troça do Professor resultando um comportamento pior.

    Temos pena mas é assim mesmo. Doía a quem doer.

    • Se calhar há bons diretores. Eficientes, eficazes e empreendedores e o que é mais interessantes….humanos.

    • “Doia”? Melhor “doa”. Um dos pilares de um bom profissional do ensino é o domínio da língua materna e, infelizmente, verifico que estes comentários denotam graves lacunas que não podem ser somente atribuídas à pressa com que poderão ter sido escritos!
      Em canal aberto como este Impõe-se o maior cuidado, certo?

  6. Há também outro cenário, porventura menos comum, e que pode acontecer com alunos do Ensino Secundário, geralmente alunos com bom desempenho nos estudos:

    E é quando a empatia pelo professor leva a que certo grupo de alunos, particularmente os mais “liberais”, acham que podem cobrar, de forma difusa, alguma tolerância do docente ante abusos crescentes de confiança.
    O aspecto da competência científica do professor, sendo reconhecido, é enaltecido pelos tais alunos “liberais”, o que pode resultar numa permissividade pouco consciente do docente ante uma crescente conquista de confiança pelos discentes.

    Quando o professor se apercebe da armadilha em que caiu, sem necessariamente haverem culpados conscientes (o professor, todavia, tem de assumir a sua culpa), está sem a autoridade necessária perante os alunos para reverter a situação.

    E a tomada de medidas necessárias, porventura mais autoritárias, torna-se um assunto problemático, pois acaba por gerar um ressentimento nos alunos, que acabam por se considerar traídos na sua relação de empatia com o professor.

    Considerando a cada vez maior diluição dos referenciais normativos sobre o que se entende por autoridade e respeito pela hierarquia, incutida pela sociedade actual (pais, media e formadores), os próprios alunos, mesmo os menos problemáticos, podem vir a entrar em becos sem saída relativamente ao que se considera “por norma” permissível.

    Este vazio ou relativização de Valores leva a que o adolescente, muito legitimamente, tente encontrar o seu sistema de referenciais normativos, mas que invariavelmente acaba por se deparar, através da dura experiência, com as barreiras que muitos dizem na sua utopia, que não existem.

  7. Este tipo de questão leva-nos muito longe porque as motivações que um aluno tem para esse tipo de atitude são vastas. Por vezes os professores são “moles”, por vezes “não sentem as costas quentes”, etc, etc. Lidar com este tipo de questões não é um professor, não é um diretor, é a escola toda, é uma ação concertada de todos.

  8. Esta é uma forma mas a solução para acabar com a indisciplina devia passar por compreender os factores que levam a este tipo de condutas. Há muitas causas mas a principal deve-se a uma descredibilização geral da autoridade na sociedade. É preciso ir à raiz do problema e actuar em conformidade. O que o ministro Crato provocou foi prejudicar e até ridicularizar a imagem do professor. O professor já tem pouca autoridade e liberdade de actuar com receio das consequências e depois com governantes que deveriam estar do lado dele e em vez de prestigiar a imagem daqueles que formam a sociedade, ainda os submetem a humilhantes situações com realizar provas…Agora temos alunos que não se inibem de perguntar se fizemos a PACC no gozo e ainda temos de justificar, está tudo dito. Agradecemos todos, ao sr ministro Crato por prestigiar a classe de professores com suas ideias iluminadas e nos dificultar ainda mais a vida.

  9. Pois já me aconteceu…Tive a bela ideia de procurar uma sala vaga e…quem saíu fui eu e a turma! Deviam ver como o jovem aluno de dezoito anos ficou! A aula continuou noutra sala! Isto porque tinha um bia m grupo que acatou a novidade e até acharam graça! Ganhei, além do respeito, a admiração do resto da turma.

  10. Senão existem condições para continuar a aula deve o professor ausentar-se da aula e deixar que a Escola funcione. Se não funcionar, o professor deve manter a mesma posição ad eternum ate haver condições. O professor não e pago para andar a resolver problemas que a sociedade e a escola não resolve ou precave.

  11. Eu também já tive uma situação idêntica e mudei de sala conquistando a turma e o aluno em causa para o resto do ano, porém a diretora de turma como teve algum trabalho com a situação e como tinha o direito de avaliar os colegas do conselho de turma acertou-me as contas no final do ano na avaliação que me deu…

  12. Já fiz isso. Esperei que o aluno saísse da sala e parei a aula, mas mesmo assim o aluno continuou na sala de aula piorando o seu comportamento. Foi chamada a funcionária para o levar para a sala existente para o efeito e o aluno continuou a recusar-se. Foi chamado outro funcionário e o aluno continuou renitente demonstrando vontade de o agredir. Só perante a ameaça deste último de chamar os agentes da escola segura é que o aluno saiu da sala de aula, atirando com a mesa e dando pontapés na cadeira.
    Também, perante um comportamento colectivo de indisciplina, sem que houvesse qualquer incidente que o despoletasse, após cerca de 45 minutos esperando que os alunos se acalmassem
    e deixassem de bater com as mãos sobre as mesas sempre que me virava para o quadro, resolvi arrumar a minha pasta e sair da sala de aula. Fui à Direcção dizer o que se passava. Os alunos ficaram na sala de aula surpresos com a minha atitude e penso que até um pouco receosos O Director foi a sala e sei que os mandou sair. Isto constou e em outras turmas alguns alunos tentaram experimentar-me esperando que eu fizesse o mesmo. Claro que não repeti a façanha.

  13. Também já me aconteceu. Quando o aluno disse: eu não saio. Respondi: dos parvos como tu é que eu gosto, tens uma falta e ainda tens que me aturar o resto da hora. Foi remédio santo.

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