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O caso do desaparecimento dos laboratórios de Física e Química, nas escolas.

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O que é que faz um bom professor? O que é que faz um bom currículo?

Quando penso nisto, sinto-me como se estivesse a lidar com um problema desconcertante. Por um lado, se refletir sobre aqueles que foram os meus melhores professores, eu não consigo separar a pessoa daquilo que a pessoa me ensinou. Por outro lado, ao projetar um currículo, queremos descobrir o que ensinar e como, e deixar de fora a pessoa que vai ensinar, porque: 1) as pessoas mudam, 2) os professores têm estilos diferentes, e 3) um bom currículo permite diferentes maneiras de dizer, escrever, pintar…

E afinal, quais são os objetivos gerais do currículo que queremos? Ensinar os alunos a pensar?  Importação de informações fundamentais?  Ensinar o mínimo possível para que o estudante tenha mais tempo para fazer investigação/pesquisa? Criar turmas maiores ou menores?

Temos que priorizar, transpirar, comprometer e disputar – tudo são elementos fundamentais para qualquer renovação curricular que se pretende bem-sucedida.

A verdade é que diferentes pessoas aprendem de forma diferente. Um elemento-chave da aprendizagem é a capacidade de transferir o conhecimento de um contexto digamos familiar, para um novo contexto anteriormente desconhecido. Estudar o metabolismo pode ser chato. Metabolismo no contexto de um atleta olímpico é interessante e motivador. Incluir experimentalmente, história e contexto, também é algo vital.

Laboratórios

O laboratório é onde a ciência acontece. Tudo o que podemos fazer numa apresentação oral formal é obter alunos animados, interessados, entusiasmados, mas é no laboratório que os cientistas são feitos (ou não). Integrar o laboratório e conversar conceitualmente, com exercícios coordenados e instrutores/monitores comunicativos, é importante. É pecaminoso que os alunos tenham de aprender através de meia dúzia de aulas nos laboratórios da escola,mal equipados, quando os há, onde os alunos não aprendem ‘o ‘porquê’ ou como’ das experiências terem sido concebidos daquela maneira. É caro? Comprar pilhas, lâmpada , é caro? E dar formações em massa sobre como não chumbar alunos, não é caro?

A Física tem uma reputação a modos que enervada pela dificuldade. Esta dificuldade é frequentemente atribuída à “Matemática”, o que quer que isso signifique. Uma análise dos problemas parece indicar que, as dificuldades são, na grande maioria dos casos, devido ao montão de novos conceitos (ideias abstratas) aos quais o estudante em geral, é inevitavelmente introduzido desde o início dos estudos.

Como ilustração, consideremos os seguintes problemas, chamando a atenção para o exagero dos dados, sabendo que isso não preocupa (geralmente) o raciocínio dos alunos:

  1. A) Uma dona de casa compra 8 quilos de salsichas a 25 cêntimos por quilo, mais 8 quilos de batatas que são vendidas à razão de 35 cêntimos por quilograma. Qual é o custo total da compra efetuada?
  2. B) Uma caixa pesando 8 quilos é movimentada ao longo de um piso áspero, com coeficiente de atrito de 0,25, sujeitando-se ao mesmo tempo a uma aceleração de 0,35 m/s2. Que força será necessária para movimentar a caixa ?

As soluções podem ser escritas como segue:

  1. a) Custo das salsichas + custo das batatas = custo total

8 X 0,25 + (8 x 0,35) = 4,8 €

Força para superar o atrito + força para acelerar a caixa = força total

8 X 0,25 + (8 x 0,35) = 4,8 N

O raciocínio e o trabalho aritmético envolvido nas duas soluções são idênticos. Mas, o 2º problema lida com ideias desconhecidas e é, por essa razão, muito mais difícil. E a dificuldade não pode ser evitada.

Os conceitos fundamentais da física – força, aceleração, etc. devem ser familiares para o aluno, antes que ele possa adquirir esse “amplo conhecimento geral de princípios e teorias da física”, tal qual os críticos do método laboratorial desejam.

Há um outro ponto que importa relevar acerca dos conceitos da Física. Para a maior parte dos alunos, são quantitativos, ou talvez seja melhor dizer métricos.

Um laboratório, é o lugar ideal para a aquisição dessas experiências métricas, que são uma “fundação” de que não se pode abdicar para quem precisa de usar conceitos métricos. Trata-se de um lugar, onde o estudante pode esclarecer as suas ideias sobre quantidades físicas através de uma experiência em primeira mão, com coisas mensuráveis, dando assim uma espécie de realidade corporal aos nomes desconhecidos que ocorrem ao longo do manual que circula na sala de aula.

Difícil, eu sei que é difícil, esta coisa de voltar a dar importância à existência dos laboratórios de Física. É tão bonito imaginar alunos do 1º ciclo a contruir páginas web e robots..Já ter um laboratório bem equipado,por escola, pleno de estudantes interessados, disponíveis para aprender e felizes, com professores motivados (enquanto ainda os há) parece ideia muito longe da vacuidade geral. Que bom seria…

F.J. (C.V.)

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