Home Rubricas Carta De Uma Professora Dirigida Aos Encarregados De Educação

Carta De Uma Professora Dirigida Aos Encarregados De Educação

12539
3

Cara/o mãe/pai,

Nos últimos dias, tenho vindo a sentir que devo dirigir-lhe algumas palavras e, hoje, esse sentimento tornou-se imperativo. Por isso, fiz uma pausa nas minhas tarefas “invisíveis”, as correções de trabalhos e de testes de avaliação, para me dedicar a este texto.

Chamo-me (…) e sou a professora de Português, de História e Geografia de Portugal e de Cidadania e Desenvolvimento do seu filho, desde setembro deste ano letivo. Cheguei aqui, num quente dia de agosto, cheia de vontade de começar. E os meus começos chegam sempre cheios de esperança, cheios de curiosidade, cheios de sonhos. Dedico-me, desde a primeira aula que dei, há mais de vinte anos, a esta missão de ensinar com a determinação de quem crê que esta é das mais nobres tarefas que podemos realizar e com a paixão de quem só consegue imaginar-se a fazer isto na vida. Gosto verdadeiramente do que faço, mesmo quando há desaires, mesmo quando nem tudo acontece como desejaria, mesmo quando há fracassos, e quero acreditar que os meus alunos o percebem nos nossos dias comuns.

Além de professora, também sou mãe. E são muitas as vezes em que roubo tempo ao meu filho, um filho da idade do seu, para me entregar ao seu, porque também ele se enfiou num espaço que sempre se abre no meu coração para que mais um(a) aluno/a aí fique guardado até à minha eternidade. É (quase) incrível, mas orgulho-me de me lembrar, com uma precisão que até a mim impressiona, todas as centenas de alunos que, ao longo de todos estes anos, como professora, tive o imenso privilégio de conhecer. Há momentos em que ele me cobra isso… Porém, como no verso do nosso Camões, “outro valor mais alto se alevanta” e estou certa de que também os meus colegas, seus professores, estarão a dar-lhe o melhor de si e a ser meus parceiros nesta missão de o educar e de o fazer crescer bem, equilibrado e mais esclarecido, porque o espaço que vou deixando aberto como mãe vai sendo preenchido pelos professores que tem a sorte de conhecer e de ter na sua vida.

Procuro equilibrar as exigências inerentes ao exercício da minha profissão com o laço que quero que me ligue a cada um dos meus alunos, olhando para o que é, com tudo aquilo que o torna singular. Quero-o com toda a certeza, com toda a firmeza e com toda a crença de que tal será o que de melhor lhes poderei dar, para que cresçam mais capazes e melhores; no entanto, sei também que nada conseguirei se com cada mãe e com cada pai não unir vontades e esforços. Hoje é o dia de lhe dizer que é disso que precisamos: eu e, principalmente, o seu filho.

Retomo o início deste texto: nos últimos dias, tenho vindo a sentir que devo dirigir-lhe algumas palavras – porque, de cada vez que olho para cada um dos “meus” meninos, me deparo com lacunas que me têm trazido aos dias uma preocupação que preciso de partilhar e porque não posso deixar que esta preocupação persista. Vejo em cada um deles o nosso futuro: o deles; o de cada um de nós, adultos, que hoje nos dedicamos a ajudá-los a crescer; o do nosso país; o da nossa sociedade do século XXI, tão cheia de tantos desafios. Para o futuro de cada uma das crianças e de cada um dos jovens com quem hoje partilho os meus dias, só posso desejar o melhor: que sejam responsáveis, curiosos, amantes do saber, sensíveis, briosos, dedicados, capazes de abdicar de alguns prazeres para lutarem pelas suas convicções, participantes ativos e esclarecidos na sociedade e felizes, muito felizes. Todos sabemos que a vida adulta exige muito de nós e todos sabemos também que, se a levarmos a sério, ela nos permite colher muitas alegrias, muitas conquistas e, sobretudo, muita liberdade de ação, mas também sabemos que isso será muito mais fácil se, desde pequeninos, crescermos e formos orientados nesses valores. Já pensou no orgulho desmedido que, como pai ou como mãe, sentirá se o seu filho, mais tarde, for aquilo que descrevi? Não há ninguém que ame mais os filhos do que os seus pais e ainda bem que esse amor é acrescentado com a entrega das muitas pessoas que fazem parte das suas vidas e que tanto gostam deles também, mas o amor de uns e de outros tem de se unir por uma causa comum: a sua educação. E cá estamos nós, juntos, por isso e para isso. Creia que, por mais que eu goste do seu filho, sozinha muito pouco conseguirei. É indizível a sensação de dever cumprido, quando oiço ou leio frases de ex-alunos como “Ensinou-me tanta coisa, que, às vezes, até é difícil lembrar-me se foi minha professora de Português, ou de Filosofia, ou de História!…” ou “Tenho-a no coração. Obrigada por tudo o que me ensinou. Carpe diem!”.

Desde a primeira aula que digo aos meus alunos que estarmos dentro da sala de corpo e alma é meio caminho andado para termos sucesso e para sermos felizes. Na verdade, isto faz parte do meu discurso desde há muitos anos e é a mais elementar premissa para as disciplinas que leciono. É por isso que as tarefas que lhes destino para casa são raras e é também por isso que, nas nossas agendas, ficam apenas registadas as datas dos testes de avaliação, das apresentações orais e dos momentos de avaliação das leituras que deverão, para a sua construção como leitores e por imposição do programa da disciplina, fazer de forma autónoma. Aliás, a minha organização quase obsessiva leva-me a fazê-lo sempre com muita antecipação e disso é dado conhecimento atempado aos alunos. À parte isso, muitas são as atividades a que nos dedicamos na sala de aula e que prepararam muitos outros momentos de avaliação, de que sabem que não terão conhecimento prévio, porque deverão fazer parte das suas rotinas de aprendizagem e deverão crescer em responsabilidade – “sei que devo ter estes conhecimentos, sei que devo saber fazer bem estas tarefas, então, vou dar o melhor de mim sempre: enquanto aprendo e quando preciso de mostrar que sei”. Nem faria sentido de outro modo. Além disso, são tantas as tarefas que realizamos (praticamente com uma média de uma por semana em cada período letivo)!…

Se lhes dou tempo para se prepararem, espero que ponham todo o esmero naquilo que fazem e perceber que tantos deixam de o fazer preocupa-me atrozmente. Dar-lhes dois meses para lerem um livro adequado à sua idade, à sua escolha e beneficiando das minhas sugestões e orientações e não o fazerem, assusta-me. Depois de lhes dar a possibilidade de fazerem o trabalho de avaliação a partir de um livro de leitura obrigatória nas aulas, para suprir a sua falta, e nem isso fazerem, apavora-me. E tenho a certeza de que, como pai/mãe, sentirá o mesmo que eu.

Podemos, como pais e mães, não ser um ás a matemática, ter consciência de que não falamos nem escrevemos na nossa língua como gostaríamos ou até nem saber uma palavra em inglês, mas sabemos olhar para os trabalhos feitos pelos nossos filhos e ver que não fizeram o que lhes era devido ou que há muito a melhorar. A nossa missão é fazer-lhes ver que devem dar o melhor de si e que devem sempre tentar superar-se e conseguir alcançar vitórias. Não deixe que lhes baste serem suficientes, “desenrascarem-se”, à boa maneira portuguesa… Queira mais. Queira para o seu filho muito mais do que quer para si. Como costumo tantas vezes dizer, façam o que fizerem futuramente, sejam excelentes, sejam extraordinários! Se forem padeiros, façam o melhor pão das redondezas, aquele que fizer a clientela fazer quilómetros para o ir comprar, porque é melhor do que todos os outros. Se forem cientistas, façam todas as experiências e mais algumas até conseguirem resolver um problema que assola a humanidade há anos, há séculos ou há milénios. Se forem engenheiros, construam as produções mais seguras e mais eficazes.

Enquanto eu estiver na vida do seu filho, acredite que darei sempre o melhor de mim. Depois de o deixar, acredite que o levarei comigo no coração.

Conto consigo para a nossa missão.

 

Abraço.

 

 

3 COMMENTS

  1. Simplesmente perfeito. Devia ser replicada em todas as escolas para que pudesse ser enviada, com as devidas adaptações, aos encarregados de educação dos nossos “meninos” e com a devida “bibliografia” a esta professora. Obrigado pela partilha.

    • Pois, pois, e quando a maioria dos meninos não tem E.E.? Elogiam o ensino do passado, quando o mesmo não soube formar seres humanos bondosos, capazes de demonstrarem solidariedade para com os mais fracos. Os meninos/adolescentes são vítimas ( e há muitos filhos de professores ) dos ensinamentos que recebem em casa. Há 27 anos que leciono, sou DT, nunca tive problemas GRAVES com os EE. Soube convencê-los de que a minha tarefa é ajudar os seus filhos a serem jovens livres, felizes e saudáveis. Recebo-os SEMPRE com um sorriso nos lábios. Se a escola PÚBLICA não souber dar resposta a TODOS os alunos, feche portas, não está a desempenhar o seu papel.NUNCA, mas NUNCA compararei os meus alunos aos meus filhos, estes sempre foram privilegiados. E quem me conhece sabe do que falo. Não, não possuo grandes bens materiais.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here