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Carta aos meus alunos

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Esta semana recebi uma mensagem no facebook de um de vocês perguntando se eu já não dava aulas.

Não. Não dou. Foram quase dez anos de ensino, mas já há dois que não dou aulas. Foi um conjunto de coisas que me levou a decidir desistir de insistir. Mas há algo que não está, garantidamente, nesse lista: vocês.

Vou tentar terminar o meu mestrado (em ensino de espanhol) este ano, mas não pretendo voltar a dar aulas.

Quero que saibam que cada um de vocês me cabe no coração, cada um de vocês me fez aprender algo novo e algo sobre mim.

Dar-vos aulas desde 2005 mexeu, sem dúvida com o meu trajeto enquanto pessoa. Saibam que passei muitas noites em claro de todas as vezes que achava que algum de vocês se ia meter em sarilhos, de todas as vezes que queria inventar coisas novas para aprenderem mais e melhor, de todas as vezes que tive de vos corrigir testes e fichas madrugada fora para entregar tudo dentro do prazo.

Lembro cada um de vocês. Posso já não lembrar o vosso nome ou reconhecer-vos na multidão, mas lembro-vos todos.

Desde o meu cantinho no facebook, acompanho uma grande maioria dos meus pequenitos. Ainda bem. Acompanho os que já terminaram a faculdade, os que ainda estudam, os que deixaram de estudar por opção e os que deixaram de estudar por falta de opção. Acompanho as vossas felicidades e tristezas. Coloco “gostos” no vosso caminho e espero, sinceramente, ter contribuído para que chegassem a esse momento, não com o que vos ensinei sobre a voz passiva ou as funções sintáticas, mas com o que vos ensinei com o coração. Com o meu coração.

Aos que são apaixonados pela corrida, aos que já têm filhotes, aos que são bombeiros, aos que são militares, aos que vão estudar  para sempre, aos que vão de erasmus, aos que me encontraram num café e eu não reconheci de tão crescidos, aos que cantam, aos que desenham, aos que nem sequer foram meus alunos, mas me perguntam “Foi professora na escola X? Dava aulas a uma amiga.”, aos que jogavam no Freamunde e aos que jogavam no Paços e tentavam que eu fizesse uma escolha entre as duas equipas, aos que me perguntavam o que deviam seguir, aos que mudaram de curso a meio do secundário depois de falarem comigo, aos que moravam nos bairros deste Porto onde nunca tive medo de passar porque todos sabiam quem eu era, aos que eram netos da senhora que vende as sapatilhas contrafeitas, aos adultos que tinham coragem de enfrentar quatro horas de aulas depois de um dia de trabalho, aos que não tinham nada e aos que tinham fome (sim, dei aulas a alunos com fome), aos que fugiam das aulas para ir ao el corte inglés e aos que fugiam das aulas para ir pescar, aos que perceberam, facilmente, que sou sarcástica, aos que me mostravam as coreografias em primeira mão antes de toda a escola ver, aos que vão de férias, aos que gostam de arte, aos que aprenderam português, aos que aprenderam inglês, aos que aprenderam espanhol, aos alunos desde o 1º ao 12º ano (sim, dei todos os anos), aos que me tiveram como diretora de turma ou de curso, aos que me tiveram como professora substituta, aos que me tiveram como professora titular, aos que eu levei em visita de estudo, aos que só puderam ir de visita de estudo porque eu paguei, aos que confiaram em mim e me pediram uma palavra para os aconselhar, aos que tiveram piolhos e que me queriam abraçar nessa momento crítico, aos que gostam das mesmas músicas que eu, aos que não contiveram as lágrimas nos meus últimos dias, aos que me deram abraços de despedida. Este é o meu abraço de despedida para vocês. Não ensino mais.

Por tudo o que foram fazendo por mim, mereciam as minhas palavras. No meu coração, ficam para sempre.

Maria Radiante, in Maria Radiante 9-8-2016

1 COMMENT

  1. …lamento, pois só uma ínfima parte desses seus alunos e de outros chegará a ministro de Portugal… todos os outros sentirão vontade um dia de lhe chamar professor com letras grandes!

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