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Carta Aberta À SE Da Educação Alexandra Leitão

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Exma. Senhora secretária de estado Alexandra Leitão,

A senhora secretária de estado afirmou que seria desigual declarar 30 dias de trabalho à segurança social aos professores em horário incompleto.

Permita-lhe que partilhe consigo a minha experiência “no terreno”. Sou um exemplo em carne e osso do problema em análise, pois sou professora contratada num horário de 14 horas. Ganho um salário proporcional ao meu horário, claro. O meu tempo de serviço será, como é óbvio, também proporcional ao meu horário. De repente, de um dia para o outro, pararam de me declarar 30 dias de trabalho à segurança social, roubando-me 10 dias em cada mês. No entanto, continuo a descontar o mesmo valor do meu salário. A senhora afirma que é uma questão de justiça.

Dá-me dois minutos do seu tempo para ler o seguinte?

Sou convocada para reuniões de departamento, reuniões de diretores de turma, reuniões de coordenação com professores da mesma disciplina e ano, reuniões sobre flexibilidade curricular, reuniões convocadas para a implementação do DL 54/2018 e do DL 55/2018, reuniões de avaliação intercalar, reuniões gerais do agrupamento. E ainda tenho ainda de assegurar as reuniões com os encarregados de educação (pois, estes part-time têm tarefas de gente grande, como direção de turma de secundário).

Como deve calcular, estas tarefas TODAS são efetuadas fora do horário part-time que me foi atribuído.

Para ir a estas reuniões, preciso de gastar combustível extra. Preciso de preparar algumas destas reuniões, na qualidade de diretora de turma. Ah, e ainda me pedem para ir a visitas de estudo e participar em atividades do departamento.

Um horário de 14 horas tem componente não letiva. O trabalho não letivo seria supostamente a preparação e construção de materiais didáticos para as aulas, a correção de fichas, o preenchimento de instrumentos de avaliação, a correção de estes de avaliação. Está de acordo comigo, certo? E aquelas outras tarefas todas a que sou obrigada são o quê? Voluntariado?

A senhora afirma que é uma questão de justiça, de proporcionalidade. São declarados dias à segurança social em proporção….mas em proporção a quê? Às tais 14 horas….as tais que estão no papel?

Eu bem relembro os colegas e a escola, de que sou agora considerada em part-time pelo ministério, mas sou convocada na mesma para todas as tarefas, não posso ser dispensada delas, porque aí já sou “igual”.

A senhora afirma que é uma questão de justiça. Eu que vivo esta situação todos os dias do mês, digo que é uma questão de injustiça.

Com os melhores cumprimentos,

Manuella Gomes

3 COMMENTS

  1. Sem comentários.
    Em anos que tive o prazer de ter part time…foi-me oferecido por colegas a seguinte resposta: só estás assim porque queres… É mesmo muito difícil estar neste mundo…quando a classe docente se queima a si própria.
    A leitura do contrato é da máxima importância…
    A defesa pelos direitos nos sindicatos é 0…aqui no retângulo… Pois, nos Açores é Madeira o mundo é outro…não é ouro…mas somos aceites como seres humanos.
    Tenho pena que nos esquecemos do que é mais poderoso.
    Adoro a História de Portugal…ora gostava que fosse ao pós 25 de Abril e tirasse a conclusão do que aconteceu com os agricultores e a FLA na grande manifestação em Ponta Delgada….
    Grato

  2. Eu?? Quem sou?? Professor contratado… 15 anos depois e seis anos de tempo de serviço… Tenho 2 horários… 1 de 11h+1h de estabelecimento, não contabilizada, pq dou aulas na hora de estabelecimento. Outro com 10 horas, sem horas não letivas. Tenho de escrever sumários, ir a reuniões, etc… Visitas de estudos, classificar provas de aferição… Tanta coisa… Como sou de Ed. Física não estou na sala, tenho de fazer os sumários em casa, preparar aulas, eventos, atividades, tanta coisa. Faço mais de 100 km por dia. Não tenho direito a subsídio de almoco, pq trabalho num agrupamento na parte da manhã e noutro a tarde. Trabalho todos os dias. Passo a minha hora de almoço a conduzir para outra escola… tenho licenciatura, mestrado, especialização, duas filhas pequenas que não vejo, uma esposa que me ajuda e compreende muito, mas está na mesma situação… Estou a estudar para o curso de especialização em educação especial… E tenho dois empréstimos para pagar… Acabei a minha licenciatura a 15 anos… Sou um simples e humilde professor contratado…sem tempo para a família e para si… Mas com dois empréstimos para pagar: uma casa para viver com a família que não usufruí e um carro para destruir nas deslocações para o trabalho… Que só dorme meia dúzia de horas por dia… E só tem o domingo livre para cortar as silvas, tratar das galinhas…e sofrer de ansiedade que vai começar tudo outra vez… Sabendo ainda que só entram 24,5 dias para a segurança social… Sem saber se vai ter trabalho,.onde vai trabalhar… E se tem direitos… Foi o que sonhei? Foi para o que estudei? Trabalho tenho muito, direitos poucos e estabilidade nenhuma…

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