Início Rubricas Carta Aberta a Miguel Sousa Tavares

Carta Aberta a Miguel Sousa Tavares

18560
39

Com franqueza, não me preocupa que Miguel Sousa Tavares (MST) pense e diga mal dos professores – todos temos razões mais ou menos justas, mais ou menos claras, mais ou menos sérias para julgar os outros. O que me preocupa é que MST escreva num jornal de referência, como é o Expresso, um texto pejado de mentiras que demonstram ou uma profunda ignorância ou uma evidente má-fé (ou ambas).

Afirma MST que não se lembra “de um só ministro da educação ou de uma só política de educação que [os professores] não tenham contestado” e que “tudo lhes serviu de pretexto de contestação”. Ora, os professores têm aguentado estoicamente servir de cobaias em sucessivas experiências que foram levadas a cabo, sem discussão ou negociação prévia com docentes e pais/encarregados de educação, por diversos ministros da educação – alteração da estrutura curricular, dos programas curriculares e das cargas horárias de cursos e disciplinas; introdução de disciplinas e áreas curriculares e sua extinção sem prévia avaliação (formação cívica, área de projecto, estudo acompanhado, etc…); estabelecimento de objectivos mínimos e sua substituição por metas curriculares, depois substituídas por perfis dos alunos e por aprendizagens essenciais; sistemática inundação das escolas com decretos-lei, despachos normativos, portarias, ofícios, circulares, notas informativas…; imposição de projectos (agora é o de Autonomia e Flexibilidade Curricular). Os professores, mesmo discordando, têm-se mostrado disponíveis para acatar as reformas e têm mostrado capacidade de adaptação e resiliência.

Os professores contestam “os horários de trabalho”? Sim, porque eles contêm ilegalidades. Contestaram “a avaliação de desempenho”? Sim, nos moldes em que ela ia ser imposta. Contestam “a contagem do tempo de serviço” (sic)? Não, contestam a sua não contagem – é inaceitável que 9 anos, 4 meses e 2 dias que qualquer trabalhador tenha trabalhado não lhe sejam contabilizados. Contestam “as progressões automáticas” (sic)? Não, nem tão pouco são a favor – MST devia saber que os professores são avaliados pelos coordenadores de departamento/disciplina, por uma comissão de avaliação e pelos diretores de agrupamento e que há quotas que fazem/farão com que a maioria dos professores, após 40 anos de serviço, chegue apenas a meio da carreira.

MST não sabe do que fala. Como não lhe interessa a verdade, não se informa. Como não sabe o que é ser professor numa escola pública, trata de inventar. Comporta-se como um néscio, um “ignorante que não sabe o que podia ou devia saber, quer dizer, o que ignora conscientemente e com vontade de ignorar, o que se recusa a documentar-se” (Javier Marias). Afirma que “diminuiu-se o número de alunos por turma”, o que é falso – pelo contrário, aumentou-se! Afirma que “o número de professores aumentou”, o que é falso – pelo contrário, tem diminuído continuamente, pois todos os anos aposentam-se mais professores do que aqueles que entram na carreira!

MST fala da Parque Escolar como se os professores tivessem alguma culpa dos desmandos do seu amigo José Sócrates e como se nos “milhares de milhões” que lá foram enterrados não estivesse também o dinheiro dos professores. Aliás, MST fala dos professores como se eles não fossem também contribuintes e igualmente pais e encarregados de educação que têm filhos no sistema de ensino. Repete, ridiculamente, à exaustão que “pagámos com sacrifício”, como se todos os professores e as suas famílias não tivessem igualmente pagado. Já agora, eu não faço ideia do que seja trabalhar numa escola da Parque Escolar, com os tais “relvados sintéticos” e as “mordomias que superam as do primeiro mundo”, uma vez que nenhuma das seis onde trabalhei até hoje foi construída ou intervencionada por ela.

MST confunde os professores com a Fenprof, como se todos fossem seguidores de Mário Nogueira, esquecendo que milhares de professores começaram a greve às avaliações antes da data marcada por esta organização sindical e que mais de 20 mil assinaram uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos que não partiu dos sindicatos.

Quanto ao “aceitar sujeitar-se ao escrutínio da sua acção pedagógica”, aceita MST que seja eu a avaliar o seu desempenho como jornalista e aceita receber uma avaliação de “medíocre” (que é a que eu lhe atribuo) pela sua falta de ética e de profissionalismo? Pela qualidade do seu jornalismo, que considero “uma anedota”? Pois, é o que eu pensava!

Indigna-me que o caçador MST aponte, sistemática e persecutoriamente, a sua espingarda aos professores. Indigna-me que destile fel e derrame a sua ignorância e má-fé em meios de comunicação que têm uma responsabilidade social, acicatando o ódio aos professores, para mais num texto pelo qual recebe mais dinheiro do que aquele que eu recebo por um mês de trabalho, mostrando ser, ele sim, o “inútil mais bem pago deste país” (acusação que fez aos professores aqui há uns anos). Por isso é que MST não sofre de “cansaço” e “desmotivação” e não anda “constantemente em lutas, em protestos”, a não ser contra os professores.

José Couto

Professor do 3º CEB e do ES

COMPARTILHE

39 COMENTÁRIOS

  1. Que texto extraordinário. Por favor, alguém que consiga colocá-lo a circular nos meios de comunicação que o faça pois este sim, representa o sentimento de todos os professores.Obrigada a quem o escreveu, obrigada a quem o consiga divulgar como merece.

  2. E já agora deixem de falar apenas nos 9anos e 4 meses. Então e os 8anos que foram irremediavelmente perdidos durante o tempo de MARIA de Lurdes? Nunca mais ninguém se lembrou desses?

  3. Excelente texto. As obras da Parque Escolar, são o pior exemplo disso: dinheiros públicos mal aplicados. Estou numa escola que custou mais de 17 milhões de euros e é tudo menos funcional. Onde não há dinheiro para aquecimento, onde não há dinheiro para manutenção, onde faltam funcionários, onde os professores se desdobram em demasiadas tarefas e onde os alunos não têm tempo para conversar. Uma escola cinzenta, demasiado grande (edifício) e pouco humana. Este é retrato de quem está na escola e sabe do que fala, mas que nunca foi ouvido . Toda a gente decide menos aqueles que estão na Escola.

    • Ótimo para o Expresso enquanto direito de resposta ou na carta do leitor. Texto magnificamente assertivo para a opinião pública. Acredito que é assim que poderão começar a perceber a nossa realidade

  4. …e se esse Senhor que opina sobre tudo e todos tivesse opinado a tempo e horas sobre o caso ” Ricardo Salgado”,talvez fosse bem mais proveitoso para o País!Ele que teve informação priviligiada ou não fosse a sua filha nora do Dono Disto Tudo.

    Simplesmente Maria

  5. Sempre houve gente com problemas mal resolvidos. Quase aposto (eu, que sou meia dúzia de anos mais novo que o caçador MST) que ele não deve ter conseguido ser professor, por muito que o almejasse. O que é pena é ter aprendido muito pouco com os pais que o fizeram: uma das maiores poetisas deste país, e um, apesar de tudo, antifascista chamado António Sousa Tavares.
    O “nosso” Miguel não aprendeu nada com história dos seus progenitores. Eles nunca agiram em função dos “media”, fizeram-no por convicções (concordemos ou não com as ditas). É por isso que são hoje recordadas como BOAS pessoas (porque isto de ser “boa pessoa” tem que se lhe diga)

  6. Alguém que consiga pegar neste texto e exigir ap expresso direito de resposta ou então deveríamos colocar o Expresso em tribunal por permitir por difamação sem direito a contraditório.

  7. http://www.facebook.com/notes/clube-do-autor/primeiro-capítulo-do-novo-livro-de-miguel-sousa-tavares/1961193447224870/
    Parece-me que a causa desta obsessão do MST está associada ou “às reguadas” que levou na infância aplicadas pela sua professora D.Constança e se chorasse com as reguadas e ela lhe perguntasse porque chorava o Miguelito ele teria dito que estava a chorar de alegria! Estas reguadas que hoje guarda nas suas memórias de infância é um caso de recalcamento face ao fel que liberta sobre os professores – hipótese 1; hipóetese 2: o MST é demagogo e como acha que a maioria das pessoas são contra os professores, para vender bem os seus livros nada melhor do que vociferar sobre a D.Constança de quem ele afinal, na verdade, adora!

    Nunca li um livro deste fulano, “carapau”… mas tipo “jaquinzinho”? ou “de corrida”?! Deve ser de corrida, daqueles que é explicado no Ciberdúvidas: “Ouvi há pouco tempo uma explicação interessante, e não completamente descabida, sobre a origem da expressão «carapau de corrida», que sempre me intrigou!

    O peixe é vendido pelos pescadores nas lotas, em leilões «invertidos», ou seja, com os preços a serem rapidamente anunciados por ordem decrescente, até que o comprador interessado o arremate com o tradicional «chiu!». Isto implica que o melhor peixe, e o mais caro, é o que é vendido primeiro, ficando para o fim o de menor qualidade. Em tempos anteriores ao transporte automóvel, as peixeiras menos escrupulosas compravam esse peixe no fim da lota, por um preço baixo, e corriam literalmente até à vila ou cidade, tentanto chegar ao mesmo tempo que as que tinham comprado peixe melhor e mais caro na lota (e tentando vendê-lo, evidentemente, ao mesmo preço que o de melhor qualidade). Nem sempre os fregueses se deixavam enganar, e percebiam que aquele carapau era «carapau de corrida», comprado barato no fim da lota e transportado a correr até à vila. Hoje ainda, o que se arma em carapau de corrida julga-se mais esperto que os outros, mas raramente os consegue enganar.”

    Epá, parece-me que este carapau é grande, escreve coisas banais, fala mal dos professores, adora reguadas, só pode ser de corrida!… Não, não tenho dúvidas, é “carapau de corrida” e…. não morreu afogado! Chiça!

  8. Parabéns, José Couto!
    O seu texto merece a máxima divulgação possível.
    Das duas uma: MST ou não se informa sobre o que
    escreve (por preguiça ou desleixo)
    ou mente descaradamente (e está a ser pago por isso).
    É o exemplo acabado daquilo que o seu amigo
    Sócrates chamava “jornalismo de sarjeta”.

  9. Só um aparte: ao que parece, e pelos vistos já chegou a ser esclarecido, MST nunca disse que os professores eram “os inúteis mais bem pagos do país”. Tratou-se daquilo que no mundo da internet se chama “fake news”…

    • Embora MST o negue – coisa que só acontece aos que não estão na posse das suas faculdades mentais ou aos cobardes -, a verdade é que o disse. Numa outra ocasião, designou-nos por “essa gente que não faz nada”…
      Mas o problema maior é que MST EXIBE, para além de uma obsessão doentia contra os professores, uma assustadora FALTA DE CONHECIMENTO do real. O conselho a dar a este simulacro de jornalismo é: Meu caro MST, investigue, informe-se, LEIA, ESTUDE! E, acima de tudo, RESPEITE quem trabalha a sério.

  10. Obrigada colega pelo excelente texto e por dar voz a todos nós que sofremos na pele esta espécie de “terrorismo” sobre os professores que só querem o melhor para o ensino deste país.

  11. Bom texto. Ainda aguardo que o MST escreva sobre o BES, Espíríto Santo e afins… Afinal, negócios de família… Ele que gosta de se mostrar , no caso dos professores, de jeito pícaro e justiceiro, nem uma linha lhe sai da pena para desenovelar as grandes golpadas do regime e os seus protagonistas… Nem um pio!

  12. Falta acrescentar os constantes erros de Português (“quaiqueres”)! Uma boa atitude do público seria nunca mais fazer-lhe qualquer referência, esquecê-lo mesmo (“não se deve falar no diabo que lhe aparece o rabo”), já que a criatura em questão, por ausência de mérito, alimenta-se destas polémicas que ele próprio cria. Era uma leitora compulsiva do Expresso, deixei de o comprar. A próxima: ignorar completamente o Jornal da Noite da SIC!

  13. A culpa do estado a que chegou o ensino em Portugal é, segundo Miguel Sousa Tavares, dos professores e só dos professores (ver crónica publicada no “Jornal Expresso” de 23.06.18, pág 08).

    É verdade que este senhor sempre esteve contra os professores e contra todas as suas lutas. Porém, quem nas escolas trabalha sabe bem que o veneno que Miguel Sousa Tavares vaza nos jornais, de forma sistemática, procura atingir e denegrir toda a escola pública, favorecendo e promovendo a escola privada.

    Quem fala e escreve acerca de tudo, muita asneirada comete. É o caso.

  14. A mim preocupa-me o tempo que os professores gastaram com este fulano que não merece qualquer tipo de consideração da nossa parte !!! Ingrato !

  15. Não vale a pena complicar: o director geral de informação da SIC apenas é irmão do actual primeiro-ministro. MST debita o que der mais jeito por aí acima na hierarquia e nas conexões políticas. O problema maior é o povinho (continuar a) acreditar que um Expresso ou uma SIC são órgãos de comunicação social independentes e isentos…

  16. Porque não perguntar ao MST que opine sobre os seus “familiares” do BES? Porque será que esteve sempre caladinho? Onde ficou o seu rigor jornalístico quando fez aquela famosa entrevista ao seu amigo José Sócrates?
    Na verdade, trata-se de um jornalista sem qualquer rigor nas intervenções que faz e que só sabe dizer banalidades.
    Tenha vergonha e vá escrever alguma coisa de jeito… de preferência acompanhado de uma garrafa de uísque barato.

  17. Completamente de acordo com o sr mst os professores n sao especiais em relaçao ao resto dos portugueses nem teem estatuto especial

    • O senhor ou senhora foi congelado na sua carreira? Se foi , pretende que não lhe contem para progressão todos os anos que esteve congelado? Repare que ninguém exige o dinheiro do passado ( que é muito) durante 9 anos . Só se exige que uma vez descongelada a carreira como está no programa e no orçamento, sejam feitas as contas para mudar de escalão contando todo o tempo de congelação e não apenas parte dele. Nem se exige que paguem tudo de uma vez, aí os professores estão dispostos a negociar , mas exigem que se conte todo o tempo que estiveram a trabalhar congelados!

  18. Este texto deveria ser publicado pelo Expresso ao abrigo do direito de resposta, pois até eu, que estou aposentada, me sinto insultada por M. Sousa Tavares. Cada indivíduo que se sinta atingido pelo insulto coletivo deve poder exigir o direito de resposta que obrigaria o Expresso e todos os jornais que publicam insultos a publicar a resposta da pessoa insultada. O Alexandre tem esse direito, acho eu, mas um advogado poderia informar melhor. Comentei no Quintal o facto de Guinote responder no Público às falsidades (eu diria insultos ) que esse senhor escreveu no Expresso . Guinote não me respondeu, mas continuo a achar que deveria ser publicada no Expresso e não no Público (ou nos dois). Neste caso, como o nome era mencionado, o citado direito de resposta era evidente e não percebi por que razão Guinote não fez uso desse direito de qualquer cidadão. No caso de um insulto coletivo está na altura de alargar o conceito de direito de resposta, acho eu.

  19. M.S . Tavares diz o que a maioria dos portugueses pensa e não tem coragem de o dizer. Ninguém é contra os professores . Tantos Portugueses que tanto perderam tiveram que imigrar , separarem se de familiares
    Porque não são portugueses de segunda mereciam respeito.Os professores tem o vosso direito sei isso mas calma , tem que negociar , não se deixem enrolar pelos sindicatos andam para lá gente que nunca deu uma aula..

  20. Graca Conceicao Tenho um enorme apreço pela sua saudosa mãe, Sophia de Mello Breyner Andresen. Mas desprezo a opinião POLÍTICA, hipócrita e insensível à classe trabalhadora docente deste Miguel Sousa Tavares, que é oportunista de uma herança política que funciona apen…Ver mais

  21. É TRISTE que diga o que diz, sem saber. Mas e realmentea sua mediocridade é bem visível, nunca gostei dele e da arrogância e importância que se dá a ele próprio, sobre toda e qualquer matéria. Mas o mal é que o considerem e o deixem AINDA usar o smeios de comunicação social para despejar os SEUS TRAUMAS e PREPOTÊNCIA.Há pessoas que NÃO MERECEM o «crédito»que lhes dão. É INSUFICIENTE, até em caráter e honestidade, mas, infelizmente, é muitíssimo bem pago para o fazer,. DEVIA pensar nos que trabalham um dia inteiro para ganhar 600 euros ou menos,o que ele ganha com um qualquer artigo de merda 🙁 🙁

  22. Todos os comentaristas tem a mesma ignorância de mst, o que acontece é que quem desconhece o tema do comentário não dá por isso.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here