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“Buuuuuu!” – Os alunos, o Carnaval e a Escola

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Cinco minutos depois do toque, ao 1º tempo da manhã, entra de rompante na sala, máscara branca a cobrir a face, corre, rápida e alegremente, na direção da professora, abre os braços e grita “BUUUUUUUUUUUUUUUUUUU!”. Depressa se apercebe e é surpreendido com o silêncio sepulcral que reinData da foto: 08/2000 Máscaras da loja Ca'Macana.a na sala de aula, reação pouco usual face às suas tiradas, por parte dos seus colegas e professora. Ergue os olhos em busca da cara que lhe é tão familiar mas encontra uma que nunca viu. O seu coração dispara, arregala os olhos assustado, olhando em volta à procura dos seus colegas, para se assegurar que não se enganou na sala. Os seus colegas devolvem-lhe o olhar, receosos e apreensivos, mas ninguém profere uma palavra. Tira a máscara, e afogueado, dirige-se ao seu lugar apressadamente, sentando-se, sem pinga de sangue, à espera do veredito de uma professora, que não conhece e não percebe por que está ali, mas que está com cara de pouco amigos. A tensão é palpável, de parte a parte, vários sustêm a respiração e ouve-se o tic tac de um relógio mais barulhento…

A professora dá uma gargalhada, o gelo quebra-se e o rapaz volta a respirar, pensando “UFA, já me safei, que susto!”, o resto da turma solta um suspiro aliviado e a professora acrescenta “Se bem conheço a vossa professora, ela ia adorar este momento que nos proporcionou!”. Ao que o carinha laroca, falador, bem disposto, irrequieto, a quem os livros e aulas não dizem muito, mas que está sempre pronto para a brincadeira, responde “Isso sei eu, por isso é que pensei nesta partida mas afinal quem me pregou uma valente partida foi ela. Não leve a mal, mas apanhei um susto de morte quando vi que não era a nossa professora. Quem teve medo fui eu … estava com um ar tão sério a olhar para mim. Nunca mais me vou esquecer desta, para a próxima espreito primeiro antes de entrar, mesmo quando não está, estou sempre a aprender com ela, não é da matéria que isso eu não ligo muito! Outras coisas… mais importantes”.

No entretanto, a sua professora encontrava-se a pintar caras, a preparar e vestir adereços aos seus petizes para que também eles pudessem desfrutar da magia do Carnaval na sua escola. Não podendo estar em dois sítios ao mesmo tempos, não querendo abdicar deste momento importante para os seus filhos, mas preocupada em não prejudicar os seus alunos, partilhou este seu dilema com uma colega sua, que também já teve filhos pequenos, e que simpaticamente se prontificou a trocar a aula consigo. Felizmente ainda há bons colegas, sempre dispostos a ajudar no que lhes é possível, aliviando ou partilhando a carga.

O segredo da empatia estabelecida com os alunos, nada tem a ver com conteúdos, avaliações e desempenhos mas sim com interesses, afinidades e sentimentos; tudo o que torna a profissão docente uma das mais desafiantes e desgastantes, com recompensas inesperadas em momentos verdadeiramente preciosos, embora cada vez mais escassos.

Em outros “Carnavais”, no tempo em que a maioria dos alunos ia para a escola a pé, a 6ª feira que antecedia o dia de Carnaval, era uma verdadeira aventura. O principal objetivo era conseguir chegar incólume à escola, tentando não ser atingido por bisnagas e balões de água ou pela combinação da farinha, água e ovos, agilidade e um bom esconderijo (pastelarias, lojas, etc.) eram essenciais para sair ileso. Chegados à escola, todos sabiam que as partidas de Carnaval estavam proibidas, era lido um aviso na semana anterior, mas, nos intervalos, muitos saltavam ao som dos estalinhos e o cheiro a pólvora pairava no ar. As famosas bombas de mau cheiro eram uma arma eficaz, poderosa e pestilenta capaz de protelar a realização de um teste e tirar do sério aquele professor mais compenetrado e sisudo. A estratégia, a cumplicidade e o espírito de grupo eram um elo forte e dominante entre alunos. Na altura, não havia ASAE a ditar o que eram brincadeiras perigosas mas, geralmente, havia bom senso em quem escolhia brincar ao Carnaval, os alvos das partidas tinham “poder de encaixe” e, muitas vezes, sorriam, sorrateiramente, face às traquinices e às partidas inocentes. A Escola, as Crianças, os Professores e os Pais eram bem mais genuínos, não “se levavam tão a sério”, tornando a escola um espaço mais recreativo, divertido e de convívio salutar… imagine-se, sem recorrer a nenhum gadget eletrónico. Hoje em dia, a realidade é bem diferente, poucos são os alunos que, a partir do 7º ano, “brincam” ao Carnaval, o espírito perdeu-se pelo menos na Escola. No entanto, ainda há quem tente manter a “chama acesa” e surpreenda e, por vezes, seja surpreendido.

Pi

Fonte: imagem

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