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Bravio | Indisciplina – O quinhão dos encarregados de educação

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the_mot0Quando comecei a lecionar, o corpo docente era absolutamente heterogéneo, a todos os níveis, e estava longe de possuir as qualificações que os professores têm atualmente. Contudo, nesse tempo, os pais e encarregados de educação confiavam muito mais nos professores e, salvo raras exceções, que sempre houve e sempre haverá, responsabilizavam muito mais os seus educandos. Entretanto, todos os fatores desta equação deram uma volta de cento e oitenta graus: o corpo docente é muito mais qualificado e trabalha muito mais, os pais e encarregados de educação confiam menos nos professores e tendem a responsabilizá-los muito mais pelo insucesso dos alunos, que jogam habilmente com as “partes desavindas”, estando menos atentos nas aulas, estudando muito menos, ignorando cada vez mais os trabalhos de casa, tendo menos ambições e externalizando cada vez mais as culpas do seu insucesso. Ironias do destino ou meras consequências lógicas de uma estúpida quebra de confiança?

A última década trouxe para o palco educativo a culpabilização dos professores e, consequentemente, o sémen da desconfiança nas suas competências e no seu trabalho. Muito por culpa do poder político, os pais e encarregados de educação foram pondo de lado a salutar e pedagógica “cumplicidade” com os professores e foram-se tornando numa espécie de inspetores ad hoc, num grupo de pressão cada vez mais atento a eventuais falhas de quem educa e ensina do que de quem aprende. Muitos, mesmo muitos, deixaram de ser naturais “aliados” daqueles que complementam a educação da família e ajudam a preparar o futuro dos seus descendentes, para se tornarem potenciais antagonistas, sempre prontos a exteriorizar, a qualquer instante, o seu desagrado, a sua animosidade, a sua agressividade ou mesmo a violência (verbal, física ou ambas). Os mestres foram ocupando o lugar dos discentes nas justificações constantes — sobre tudo e sobre nada, a tudo e a todos — e os discípulos foram-se tornando mestres da desculpabilização. Até os próprios processos de alunos (disciplinares e de avaliação) se foram convertendo, gradativamente, em julgamentos de professores. Outrora, a presunção de verdade estava do lado dos professores, hoje… está alhures. E não é apenas um numerosíssimo grupo de encarregados de educação que põe a palavra de uma criança ou de um jovem à frente e acima da palavra de um professor, há muitos responsáveis escolares e supraescolares que, lamentavelmente, cobardemente, o fazem também.

Não pretendo com isto dizer que não se deve dar crédito às queixas ou aos argumentos de uma criança ou de um jovem (bem pelo contrário), quero tão-só afirmar, categoricamente, que jamais se lhes deve dar razão, ou dar sinais de razão, sem ouvir primeiro o professor, tal como qualquer pai deve fazer relativamente à mãe e vice-versa: “Se ralhou, se pôs de castigo é porque teve motivos para tal!”. No entanto, o que se passa hoje em dia é bem diferente, tristemente diferente, iniquamente diferente: no modo como muitos pais se referem aos professores; no modo como deles falam aos filhos; no modo como consentem que os filhos deles falem; na facilidade com que semeiam, na sua mente, a desconfiança e a insubmissão relativamente aos professores; no modo como os desautorizam, justificando tudo e mais alguma coisa; na facilidade com que, diante dos alunos, apontam o dedo da culpa aos professores; na celeridade com que se deslocam à escola para resgatar um telemóvel apreendido, por oposição à morosidade na resposta a uma carta registada, do diretor de turma… Outrora, por via de regra, os pais pediam contas aos filhos. Hoje, por via de regra, é o professor o grande responsável pela motivação/desmotivação e desempenho dos alunos. Neste capítulo, há toda uma central de pressão a espremer o corpo docente.

Desta quebra de confiança, resulta, sem qualquer sombra de dúvida, a desautorização constante dos professores aos olhos dos seus alunos. Muitos pais e encarregados de educação contribuem generosamente, consciente ou inconscientemente, para que os seus filhos deixem de ver os professores como referências seguras. Daí aos “ouvidos moucos”, ao “deixa-andar”, à cultura da autodesculpabilização, à insubordinação, ao insulto… enfim, à indisciplina (no seu mais amplo sentido), é um pequeno passo. Os malefícios para os alunos — os danos provocados na sua personalidade e nas suas perspetivas futuras — são tão graves como aqueles que pais desavindos e em constante desautorização mútua causam nos seus filhos. Sem pôr nem tirar.

Luís Costa

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