Home Escola Bravio | O Iceberg da Indisciplina

Bravio | O Iceberg da Indisciplina

314
2

Confesso que em privado já mostrei a minha preocupação de no próximo ano as Escolas fecharem-se sobre si e não fornecerem os dados disciplinares para tratamento estatístico. Apesar do cuidado que tive para proteger a sua identidade, sei bem o risco que corri e o que tem como objetivo conhecer a verdadeira dimensão da indisciplina em Portugal, bem como alertar e forçar a tutela/escolas a terem uma abordagem mais “profissional”, pode ser confundido como um ataque à Escola Pública. Nada mais longe da verdade, a Escola Pública precisa de ser defendida e tal só pode acontecer se esta for transparente e mostrar realismo e organização.

Fica um excelente texto do Bravio

O Iceberg da Indisciplina

IcebergO blogue ComRegras publicou, há dias, resultados de um estudo pioneiro no âmbito dos registos de indisciplina nas nossas escolas. São dados importantes, porque, para além de constituírem a primeira radiografia deste cancro escolar, focalizam uma intumescência grave, que necessita de uma terapia de choque. É necessário dar continuidade e alento a essa iniciativa. No entanto, convém não termos demasiadas ilusões, sermos realistas quanto baste, termos uma clara perceção dos limites deste tipo de abordagem e dos riscos inerentes a esta súbita e “mediática” atenção dada ao problema.

Os dados obtidos pelo ComRegras são — não tenho dúvida nenhuma — apenas uma pequena saliência de um gigantesco iceberg. E não acredito que, apenas com este método, seja possível trazer à tona o que está pesadamente submerso. A participação disciplinar é uma espécie rara, em vias de extinção, com caça aberta e desenfreada durante nove meses por ano. Descansa três, devido à migração sazonal. Serão muitas — creio eu — as escolas que já inventaram “outros procedimentos” substitutivos: queixinha oral, folhas com grelhas de queixinhas nos livros de ponto, “telegramas de ocorrências”… Enfim, pró-formas, coisas assaz descartáveis, com intenso odor a provisório. As escolas que têm tudo informatizado também terão artes idênticas — creio eu — uma vez que os computadores ainda não são completamente autónomos. Registam e apagam segundo a nossa superior vontade.

As passerelles da avaliação externa, as compensações dadas pela exibição de determinadas percentagens, as pressões vindas de todos os lados — das quais a mais inexorável, na última década, tem sido a da tutela, com o constante apontar do dedo aos professores, ignorando as criminosas consequências de tal atitude — têm feito grassar, com todo o vigor, a indisciplina nas escolas. Estas, com tantas frentes de combate para alimentar, têm cedido, dia após dia, deixando crescer esse monstro nas penumbras. Em muitos casos, só transparece o que não pode mesmo ser negado ou obnubilado. E é apenas esta parcela que está ao dispor dos estudos quantitativos.

Para além deste sumaríssimo elenco de fatores que condicionam a abordagem a este complexo problema, convém não esquecer que a palavra “indisciplina” sofreu muitas cambiantes de sentido nos últimos tempos. Há tantos, tantos e tantos comportamentos que deixaram de ser considerados indisciplinados… Há tantas, tantas e tantas concessões erradamente feitas aos alunos neste campo… Em cada escola — para isso, tem chegado a autonomia — tem-se vindo a fazer uma certa “jurisprudência ética”, uma espécie de moralidade vigente não explícita, mas tacitamente aceite, ou subtilmente imposta ao coletivo docente. Muitos são os que ocultam a indisciplina, que a esmoem, que a ingerem, que a tatuam nos neurónios, que se lançam sobre ela para a abafar, com prejuízo do seu corpo e da sua alma. Aqueles que se negam a fazer as concessões consignadas na “cartilha ética implícita” são olhados de soslaio pelos pares, vistos e tidos como retrógrados, desfasados, do contra… De forma mais ou menos subtil, a máquina tenta desautorizá-los, seja através de um falso encaminhamento das participações, seja através de uma envernizada condescendência ou de outros expedientes. Não sei, por outro lado, se todas as participações resistem à travessia do deserto.

Há, entre os professores (os que são diretores e os que não são, os que são diretores e turma e os que não são), por diferentíssimos motivos, por variadíssimos interesses, uma extensa autoestrada de desautorizações em cadeia. Um mar de palavras a dizer, que não cabem neste já longo artigo (mas não ficarão no silêncio). Resumo numa comparação: é como quando pai e mãe se desautorizam diante dos filhos.

Concluo, expressando o meu receio de que este alarde em torno da indisciplina espante a caça toda. Explico: temo que uma vitrina da indisciplina estimule ainda mais as artes mágicas acima indiciadas e nos conduza à indisciplina eterna. Porquê? Porque o sucesso tem que ser, e o que tem que ser tem muita força!

PS – Em futuros artigos, terei de abordar os restantes contribuintes da indisciplina: pais e encarregados de educação, alunos e Ministério da Educação.

Luís Costa

2 COMMENTS

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here