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Bravio | Do sobredimensionamento das turmas e dos programas ao pensamento obeso

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regime-para-emagrecerO sobredimensionamento das turmas e dos programas é uma realidade incontestável, tão incontestável como as suas consequências. Quem mais sofre? Como sempre, os mexilhões (os mais vulneráveis, os mais desfavorecidos, os menos apoiados familiar e socialmente…). São os que mais sofrem, mas não são os únicos. A moléstia, apesar de cobarde (por ser mais cruel com os mais débeis) acaba por tocar a todos.

Um professor de Geografia, por exemplo, pode ter  mais de duzentos e cinquenta alunos (bem mais). Com turmas de vinte e cinco pupilos — o que já será uma benesse, nos tempos que correm — o “desgraçado” pulará de contente, pois apenas terá duzentos e cinquenta nomes a decorar, duzentos e cinquenta jovens a conhecer e a compreender (individualmente), duzentos  e cinquenta testes a corrigir, de cada vez, o que faz, em média, mil e duzentos por ano (250 x 6 = 1500), duzentos e cinquenta níveis a ponderar, muito bem, antes das dez reuniões de avaliação… Coisa pouca e despicienda, portanto!

Como é óbvio, esta aparente questão quantitativa não se fica por aqui. Tal como um cancro, tem ramificações profundas e extremamente nocivas, embora silenciosas e ocultas, a olho nu ou pouco clínico. A não ser que os professores de Geografia (que aqui tomo como gritante sinédoque de todo o coletivo docente) passem a viver em retiros conventuais, na mais absoluta das solidões, sem orações para rezar (e, ainda assim, seria desumano) é de esperar que simplifiquem um pouco o seu calvário, quer na quantidade de testes, fichas e outros registos de avaliação quer na natureza dos mesmos. E é aqui, sobretudo aqui, que moram os efeitos mais nocentes. Como os professores de Geografia também são seres humanos, é de esperar que não se autoflagelem, sem dó nem piedade, com quinhentos testes por período, recheados de itens de desenvolvimento. É normalíssima, humaníssima, a tendência para outro tipo de itens, que são menos morosos na correção e que, não obstante, cumprem o papel de avaliação de (determinados) conhecimentos, pois, como toda a gente sabe, enquanto o professor corrige testes e trabalhos dos alunos, o mundo não para: o trabalho nosso de cada dia continua, com força e alegria.

Na verdade, o sobredimensionamento das turmas é um vórtice quantitativo que acaba por arrastar — uns mais, outros menos — todos os professores para um determinado modus faciendi da sua prática didática. Nesse sentido, o que se pede aos alunos depende muito do tempo disponível, tempo que precisa de ser sereno, não stressado. Como não existe, ou é extremamente anorético (com 250 ou 300 alunos é uma miragem) o que se vai exigindo aos alunos, nos testes e não só, implica respostas cada vez mais reduzidas, cada vez mais próximas do A ou B, do Sim ou Não, do Verdadeiro ou Falso… Os textos bem desenvolvidos e estruturados vão cedendo o lugar aos pequenos períodos, às frases curtas, incompletas, muitas vezes de uma ou duas palavras apenas. O espaço da escrita vai sendo engolido pela voragem, e o pensamento vai ficando preguiçoso e gordo.

De braço dado com o sobredimensionamento das turmas, caminha, em conjugal cumplicidade, o sobredimensionamento dos programas. São, de facto, uma parelha muito seleta. São ambos ladrões de tempo, mas, acima de tudo, ladrões de aprendizagem, de desenvolvimento mental, de capacidade analítica, crítica… Como não há, verdadeiramente, tempo para ensinar os cérebros a exercitarem a busca, a caçarem o conhecimento, este surge cada vez mais simplificado, mais decomposto, reduzido, cada vez mais, à sua expressão mínima, em tópicos, em grelhas, em esquemas, embalado em fichas, projetado… O cérebro não precisa de farejar, não precisa de buscar, não precisa de caçar, não precisa de se fatigar, de se cansar, de conhecer a dor, a frustração de falhar… Tudo está ali, diante dos olhos, devidamente cozinhado, ao seu facílimo alcance, servido com requinte. E o preguiçoso cérebro vai ficando obeso ao ponto de acabar por reclamar, se não houver uma mão complacente que lhe chegue as escusadas iguarias à boca. Mas dá-se-lhe a papa toda no tempo previsto.

Como se vê, a raiz do problema é profunda e exige intervenção incisiva, precisa, extremamente focalizada, talvez ousada. Mas é essa intervenção que é necessária, e não se compadece nem com cuidados paliativos nem com cosmética destinada a disfarçar os sintomas. É, pois, absolutamente ridículo (para não dizer pior) pensar que podemos contornar esta realidade pondo a tónica na qualificação, capacitação e formação dos professores, na menor mobilidade profissional dos professores, no reforço do poder dos diretores e… outras medidas laterais.

Luís Costa

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