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Bom livro para começar o ano ….. que pode dar reuniões mais felizes, mesmo com ansiedade, advogados do diabo e outras bizarrias

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Estes dias, estive a preparar o reinício das aulas.

E, no processo de preparação, um dos passos, é ler ideias diferentes, que me sejam úteis para a prática. Podem não ser aqueles livros mais diretamente virados para a escola e para os temas ditos de educação. No ano passado foi um livro sobre estatística muito útil para aqueles ociosos exercícios sobre resultados de fim de ano de alegada “avaliação interna”.

Este ano, bem, este ano….

Início do ano, muitas reuniões. E como sou crítico sobre reuniões à portuguesa….. partilho convosco as notas da leitura destes dias, que me deram bastante consolo, nestas semanas intensas de reunite.

O livro (que, durante uns dias, mobilizou e ajudou a melhorar a minha falta de habilidade e a ignorância coxa em ler inglês) foi Wiser. Getting beyond groupthink to make groups smarter de Cass R. Sunstein e Reid Hastie. Um livro também sobre reuniões e como as fazer melhores.

Capa WiserO primeiro autor, além de professor de Direito, em Harvard, EUA, trabalhou vários anos como dirigente político na Casa Branca com Obama. O segundo, professor da Universidade de Chicago, é especialista em psicologia do processo de decisão (centrando a sua investigação nos processos de decisão em grupo).

Em português, o título seria, numa tradução livre, atamancada por mim: “Ser mais sábio. Ir além do pensamento grupal para tornar os grupos mais inteligentes”

Reuniões: o jardim das delícias do pensamento grupal

O pensamento grupal é uma realidade que se impõe e marca. Qualquer professor que tenha assistido a tantas reuniões de departamento ou conselhos de “qualquer coisa” de escolas, como as que eu já vivi, em 20 anos (e para o que interessa ao caso, tenha assistido a quaisquer reuniões na administração pública portuguesa ou reuniões, em Portugal, em geral) consegue percepcionar depressa o que seja e porque é coisa negativa.

Despertei para o tema, pela vivência, e muito alertado por um excelente professor que tive há uns anos, Arménio Rego, que tem sido um dos investigadores mais ativos e notáveis dos seus efeitos na gestão em Portugal. Como dizia, anos atrás, numa entrevista ao Expresso: É um comportamento muito frequente nas organizações portuguesas – as decisões são muitas vezes tomadas em grupo, de uma forma rápida e precipitada“.

Um dos seus livros ainda hoje está no meu top de leituras mais úteis para o meu trabalho diário.

Nas escolas, o pensamento grupal atinge muitas vezes píncaros de esplendor. As reuniões podem, até, a maioria das vezes, ser longas (embora se delibere pouco ou nada, no uso do paradigma muito comum das “informações do Pedagógico”) mas as decisões caem, muitas vezes, nas ranhuras mais fundas do pensamento grupal.

O livro fala disso, com teoria sólida, uma visão prática (até desconcertante e bem disposta) e de uma forma simples (que, mesmo em inglês, para mim, que tenho fracos 3 anos de estudo de inglês, li só com um dicionário básico).

Calculo que venha a ser traduzido e acho que pode valer a pena reverter as ideias na prática escolar.

Conversa feliz não faz reuniões felizes

Sem me alongar, ficam notas marcantes de alguns capítulos. Por exemplo, o problema da Happy talk (ir-se para as reuniões dizer “que tudo vai bem e com segurança vai melhorar e que não há motivos para preocupações”).

Consolou-me que, sobre esta atitude, os autores digam (e mostrem estudos) de que é sempre melhor para as organizações haver alguns ansiosos, face aos complacentes.

Gostamos mais dos complacentes, que são mais simpáticos e fáceis de gostar, mas os ansiosos, são mais úteis, mesmo quando não são simpáticos, porque não fogem à preocupação, ao cepticismo e à dúvida e não gostam de Happy Talk.

Segundo os autores, essa gente, ansiosa e cheia de dúvidas, é essencial ao êxito das reuniões, porque são um obstáculo ao pensamento grupal que é problema maior que a divergência (que afinal não só é boa, como fundamental). “Quando os grupos funcionam bem, em última análise, é muitas vezes por terem líderes ansiosos e, por isso, serem mais capazes de obter e agregar a informação dispersa e garantir que os grupos sabem tudo o que os seus membros individuais sabem” (pág. 13).

Felizmente que não poderia ser, por ignorante, o tradutor do livro, porque, às tantas, se fosse, o Happy Talk (que daria em linha reta, Conversa feliz, estão a ver o que seja no vosso quotidiano de escola?) acabava traduzido como “Conversa contentinha” ou “consensosinho”, porque, a mania dos consensos e a fuga à divergência, são precisamente do que se trata.

Tradução mais antipática, digna de pessoa ansiosa, seria paz podre mas seria liberdade de tradutor a mais….

E acho que, só ao falar do que aparece numa das páginas de introdução, já percebem porque será esta leitura útil para encarar reuniões em escolas (muito edificantes, os capítulos da 1ª parte: Porque falham os grupos?”, sendo um dos mais divertidos e provocadores titulado com uma das causas: “O que toda a gente sabe).

Sugestivas, algumas das ideias que a pesquisa traz como caminhos de melhorar as decisões em grupo e as reuniões.

Só os títulos (traduzidos por mim, upss!): “Líderes silenciosos e questionadores” ou “Pensamento crítico” ou “Falem do diabo” (para dizer que, nas reuniões, deve haver “advogados do diabo”, para as melhorar….. em vez de promover o silêncio desses que são do contra).

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E a História ensina….

E como a História é realmente mestra, vejam as histórias que o livro conta dos Presidentes americanos Franklin Delano Roosevelt e Kennedy que, como sabiam que, nas reuniões, muita gente tendia a concordar com eles, por serem quem eram e se sentarem ao centro, se preocupavam em arranjar divergentes, ao ponto de os encomendarem, para ter ideias e decisões melhores.

No caso de Roosevelt, concordando em certos pontos dos debates, não com “o que todos já sabem”, mas com os poucos que fugiam a isso, mesmo se o obrigasse a defender, a dado passo, ideias que pareciam absurdas para obrigar a testar as certas (pág. 115).

No caso de Kennedy (pág. 116), correndo ainda mais riscos, para quebrar consensos prematuros, fazendo com que o seu irmão Robert fizesse de advogado do diabo nas reuniões sobre a crise dos mísseis de Cuba.

E, de certa forma, a esse diabo, devemos não ter o mundo explodido em cogumelo atómico … porque o “consensosinho” inicial era lançar mísseis sobre a União Soviética.

Se consegui despertar curiosidade sobre o livro há múltiplas entrevistas com um dos autores Cass R. Sunstein, disponíveis na Internet. Uma delas aqui no  e outra impagável no Daily Show

Desse autor é outro sucesso editorial, em parceria com R. Thaler, em 2008: Nudge: Improving Decisions about Health, Wealth, and Happiness. (Yale University Press, traduzido no Brasil com o título Nudge: O Empurrão para a escolha certa. Existe versão editada em Portugal com o título Nudge* ,*Estímulo, Empurrãozinho, Toque.)

E apesar do título, não é um livro sobre bullying….. ou, quem sabe, talvez possa ajudar.

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