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Barro

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aldeia da terraNa semana passada terminei esta minha escrita afirmando que não temos barro para muitas das propostas que nos são colocadas. Barro no sentido de termos gente, flexibilidade e capacidade de nos adaptarmos aos desafios de novos tempos e novos modos de fazer, estar e ser docente, aluno, pai/encarregado de educação, ou mero cidadão. Barro que predominava pelas zonas de Redondo, S. Pedro do Corval ou e nos tempos que correm, pelo meu homónimo em Arraiolos (que ilustra o texto).

Afirmo que não temos barro pois muitos continuam a bater e debater problemas não pensando ou equacionando as soluções. Não temos barro por nos cingirmos ao que temos e não equacionarmos o que merecemos ter. Não temos barro que promova soluções em detrimento dos problemas. Não temos barro que faça dos contextos e das circunstâncias oportunidades mobilizadoras e não moenga passiva e de estagnação.

Não temos arro que mobilize aqueles professores que tudo fazem para envolver e implicar os seus alunos, mas que estão sozinhos, desacompanhados e que fazem das tripas oração, mas que não chega. Precisam de enquadramento, acompanhamento, apoio.- Por vezes basta uma palavra, um pequeno gesto de conforto ou consolo.

Não temos barro para que aquelas práticas que esbarram no mundo dos porquês e das limitações de um qualquer sistema, possam avançar, se não a puxar que seja a empurrar a carroça e logo se vê onde pode ir ter ou o que venha a dar; a despeito de normas e regras, condições ou recursos. 

Não temos barro para integrar práticas isoladas, envolver dinâmicas de clausura por que limitadas e condicionadas a uma sala de aula para que alastrem, qual experiência, por outras salas, por outros mundos.

Não temos barro para que se considerem todos os outros mundos que compõem a escola e que dela fazem parte, criando constelações e não arquipélagos distantes e isolados.

Não temos barro que permita ouvir, com humildade e seriedade, o que o outro nos tem para dizer e partilhar connosco aquilo que sente, seja a perfeita alegria de um sorriso de aluno, ou o constrangimento de uma dificuldade de chegar ao outro.

Não temos barro para, simplesmente, dizermos e afirmarmos que preciso de ajuda, que sozinho não posso, nem consigo.

Na escola, nas escolas, quase tudo se discute, há reuniões para isto e para aquilo, sobre isto e com aquilo. Só a título de exemplo, no ano letivo transato contabilizadas por mim, estive em 19 reuniões (não conto as de conselho de turma, de avaliação por período ou intercalares), mais de duas por cada mês de aulas – é certo que era coordenador de um departamento de uma escola que é TEIP.

Apesar das conversas, apesar do sem número de reuniões, que nos consomem e moem o juízo pouco, muito pouco se consensualiza. Poucas pontes se fazem e estabelecem entre nós, no meio de nós. Pontes entre práticas, pontes entre problemas e soluções, pontes entre o que se tem e o que se quer. O mais das vezes cumpre-se calendário e siga para bingo, linha está feita, isto é, venha outra que esta já ultrapassamos.

Não procuro culpado(s), não aponto responsabilidades, não indico percentagens disto ou daquilo.

Repito o que disse noutro lado, muitos não abdicam da sua postura de dificultar processos e resultados como se isso fosse sinónimo de rigor e qualidade. A maioria não se sabe organizar para analisar situações, identificar respostas, propor outros modos (ou formas) de apoiar alunos e famílias. Muitos, apesar de tentarem e se esforçarem, fazem-no sem qualquer orientação, sentido ou enquadramento tendo apenas como base o seu voluntarismo –  e a ação educativa não depende de voluntarismos mas da força do coletivo (que está cada vez mais depauperado nas escolas).

A falta de princípios de autonomia levam a que a maior parte se desresponsabilize, culpe outros ou parceiros, se esqueça de refletir sobre os seus próprios processos e práticas (individuais e coletivos). Enquanto não se definirem outras formas de organizar a escola e o trabalho docente e se articulem processos escolares com questões sociais, não há volta a dar. Isto é, enquanto não tivermos outro barro que permita fazer outros bonecos isto não ata nem desata. Não temos barro de jeito para este boneco e tudo continuará serenamente como sempre. E por vezes funciona. Mas só às vezes.

Manuel Dinis P. Cabeça

22 de fevereiro, 2016

 

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