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Bandeiras

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O autocarro enche-se logo na primeira paragem. Os risos altos e as vozes destemperadas ocupam todo o espaço e propagam-se no ar artificialmente quente do interior. Os poucos viajantes adultos preferem não aventurar-se no espaço posterior do veículo e optam por permanecer de pé, junto à saída. Os miúdos acomodam-se e espraiam-se com o descuido da juventude. Cruzam-se risos e conversas tontas, amanham-se trios em lugares de dois, celebra-se a liberdade efémera do fim do dia.

bandeirasO autocarro arrasta-se no vagar forçado do trânsito. Passados largos minutos ainda lá está, poucos centímetros conquistados aos soluços, no topo da avenida. Na frente do imponente edifício envidraçado, os postes enfileirados abanam vigorosamente com a ventania e as bandeiras esvoaçam furiosas. As rajadas caprichosas enredam os tecidos num despropósito cómico, como roupas multicores num estendal vanguardista.

-Olha, olha, aquelas bandeiras enroladas parecem uma saia! – exclama um miúdo franzino, derreado pelo peso da mochila. E perante um coro desafinado de “ondes”, precisou – Ali! Ali! A portuguesa e a outra!

-Pois é! – clama uma rapariga coradinha do banco corrido de trás – parecem uma saia bué pirosa, com aquelas cores todas! É a bandeira de Paris!

-Ó burra – grita-lhe uma voz lá da frente – Paris não é um país, é uma cidade! É a bandeira da França!

-Não é nada – opina outra voz – as cores são iguais, mas não é a da França!

Desprega-se dentro do autocarro uma saraivada de sins e nãos, zombarias e insultos às capacidades académicas de uns e outros.

-Não é a da França, não senhor – destaca-se uma voz esganiçada de adolescente – que eu até a tenho no perfil do facebook, por causa daquilo dos mortos e as cores são ao alto!

Que sim senhor, é verdade, anuem quase todos, que também eles a têm no perfil do facebook, por causa ‘daquilo’.

-Eu não – fala pela primeira vez um pequeno de rosto branquinho e cabelo avermelhado que escutava em silêncio sentado à janela.

-Não tens?! – pergunta a miúda sardenta sentada à sua frente. – Todos devem pôr a bandeira no perfil para mostrar que têm pena dos mortos. Tu não tens pena dos mortos?

-Eu não – repete o miúdo exasperante.

Um impaciente coro de ‘nãos?!’ reverbera dentro do autocarro.

-Não – teima o garoto, esclarecendo – eu não conheço nenhum morto, nunca vi nenhum.

-Ó pá, és muito otário – torna a miúda das sardas – a gente também não os conhecia, mas temos pena porque foram mortos por terroristas, percebes? E agora todas as pessoas que são amigas dos franceses põem a bandeira no perfil para eles verem que têm muitos amigos, tás a ver?

-Eu não quero pôr – reitera o teimoso. Perante os olhares impacientes dos restantes, continua: – os franceses vêem que nós somos amigos deles, mas também os terroristas vão à internet e agora ficaram a saber que nós não gostamos deles e depois vêm para cá todos rotos, sem sapatos a fingir que são pobrezinhos e matam-nos a nós também, não é?!

A lógica inatacável do argumento impôs um silêncio amedrontado e encorajou o orador a continuar:

-E também o meu pai diz que não põe a bandeira da França, nem partilha os vídeos com as pessoas a cantar a ‘maionaise’, ou lá como se chama o hino deles, por causa disso.

-O meu avô também não quis pôr a bandeira – avança a medo o miúdo da mochila – diz que os terroristas matam todos os dias montes de pessoas noutros sítios e ninguém liga nenhuma a esses mortos, só ligam aos mortos franceses…

-Ah, mas esses mortos são diferentes – contesta a miúda das sardas – são pessoas diferentes, que vestem aquelas roupas esquisitas iguais aos terroristas e vivem lá muito longe, nuns países estranhos, onde há muita abundância de necessidades e por isso andam sempre todos em guerra e lá nas ruas não se percebe bem quem são os terroristas e quem são os bons e eles já estão habituados às guerras e morrem constantemente.

-Pois é – corrobora a miúda coradinha do banco de trás – o meu pai diz que essas pessoas já estão habituadas a viver em casas todas destruídas e a ter os prédios e os hospitais e as escolas todas bombardeadas quase todas as semanas, porque é lá um costume deles e nem se importam de morrer porque depois ressuscitam ‘por causa que’ são muçulmanos. E ficam furiosos quando as outras pessoas não querem ser muçulmanos também e matam-nos que é para aprenderem.

Um silêncio meditativo imperou perante a crueza dos argumentos. Depois de alguns instantes de magoada reflexão, o menino pálido de cabelo avermelhado conclui em voz baixa:

-Eu não quero ser muçulmano. Acho que vou ser ateu, como o meu pai. Ninguém sabe quem é o deus dos ateus e ao menos assim não há razão para guerras.

MC

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