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Avaliação e comportamentos

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Chegámos ao final do segundo período letivo. Fruto de um calendário que nada tem de pedagógico e tudo de religiosos. Foi um período grande, desgastante, cansativo, extenuante. Consumiu tudo e todos. Consumiu a paciência, o trabalho e o empenho de todos quanto se dedicaram ao que fazem ou simplesmente por lá se arrastarem em processo de desmotivação, alheamento ou simples indiferença. Todos, independentemente do seu empenho e interesse, ali se cruzam. Foi um período grande.

Não sei como é noutros sítios, em outros lados, mas, por onde ando e tenho andado registo uma correlação estreita entre avaliação e comportamentos. Isto é, o mais das vezes a avaliação anda perto dos comportamentos, melhor o comportamento, melhor a avaliação, sendo o seu inverso também verdade, mas já não tão linear. A relação entre avaliação e comportamentos são formas de, tanto professores como alunos, gerirem os seus tempos, implementarem estratégias, assumirem processos de negociação e trabalho com uns e com outros. Comportamentos e avaliação dão o mote à fama de cada um, alunos e professores. Criam e alimentam uma imagem simbólica de uns e de outros, tão importantes na adolescência quanto na imagem de um professor. Uns pelos resultados, outros pelo desprimor, uns pela exigência, outros por outra coisa qualquer.

Pessoalmente senti as avaliações descerem em todas as turmas. Desceram resultados individuais, desceram médias de turma e médias de ano. Enquanto diretor de turma registo, de igual modo, uma descida global, por intermédio da subida significativa do número de níveis 2, por disciplina e por aluno. Registo, à semelhança do individual, uma descida generalizada das médias por disciplina. É geral, isto é, acontece por mais lados que este meu?

Em final de período letivo questiono os alunos sobre as circunstâncias desse abaixamento generalizado. Reconheço, nas suas respostas, a extensão do segundo período, a acumulação de testes, a sua coincidência ou simultaneidade na semana, em semanas consecutivas. Registo ainda a dificuldade em gerir o tempo e os modos de estudo por disciplina, de planear e organizar os tempos (de estudo, de lazer, de trabalho, de brincadeira). Dificuldades em equilibrar interesses e dinâmicas (o escolar e o extra escolar, o curricular e o extracurricular).

Sinto, nas suas respostas, que na escola se continua a trabalhar cada um para seu lado (disciplinas, professores, áreas), sendo difícil articular procedimentos que evitem o cansaço, tanto de alunos como de professores, de ultrapassar uma “gramática escolar” monótona, repetitiva, de conteúdos, testes, avaliação, mais conteúdos, diferentes dos anteriores, mais avaliação.

Registo que há alunos maus em comportamento (marcados pela indiferença, pela desmotivação ou pelo alheamento ao trabalho disciplinar) mas que cumprem mínimos (digo mínimos olímpicos), isto é, não comprometem. Outros há que apesar do esforço e do empenho ficam aquém dos mínimos e resvalam para o insucesso.

De igual modo registo que há professores de aparência de exigentes e rigorosos mas que avaliam pelo lado mais emocional. Há docentes que respeitam as respetivas grelhas de operacionalização mas que multiplicam registos, diversificam instrumentos criando processos de adaptação individualizados – e bem.

Ou seja, a avaliação é sempre um processo de aferição. De nós mesmos, para nós e para os outros. De aferição perante os outros, em função de uma imagem que se procura afirmar. De aferição de ideias, de modelos, de práticas.

Em síntese, a avaliação é uma aferição de sentidos sociais e profissionais.

Manuel Dinis P. Cabeça

Coisas das Aulas

3 de abril, 2017.

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