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Avaliação da Semana | Teoria da bolha, professores de risco, carga de trabalhos, lei da rolha

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A teoria da bolha

A ideia foi apresentada como um verdadeiro ovo de Colombo: a chave para uma reabertura segura do ano lectivo passaria pela separação física entre turmas, formando cada uma uma espécie de bolha e limitando assim a propagação da pandemia no meio escolar. Perante a impossibilidade prática de isolar cada um dos alunos, ou de cumprir distanciamentos nas salas de aula, optou-se pela solução que implica, caso apareça um caso positivo, a mandar a turma inteira para casa. Mas as restantes podem continuar a ter aulas.

Contudo, rapidamente se percebeu que a segurança da bolha é ilusória. Até podemos ter salas fixas e desinfectadas, circuitos e espaços delimitados para cada grupo. Na prática, sabemos que as entradas e saídas das escolas têm sido a confusão habitual, este ano agravada pelo ritual da desinfecção das mãos. Que as misturas das diferentes bolhas se tornam inevitáveis nas cantinas, nos recreios, nos transportes escolares. Pior ainda, que o ME promove activamente a contaminação entre bolhas ao impor, para poupar alguns milhares de euros na contratação de professores, a junção de turmas com poucos alunos inscritos nas aulas de EMRC.

O paradoxo dos professores de risco

Mais do que para os alunos, o regresso às aulas em tempo de pandemia representa um risco significativo para muitos professores. Uma percentagem significativa de docentes integra grupos de risco, por serem diabéticos, sofrerem de patologias oncológicas ou respiratórias ou terem, por estas e outras razões, o sistema imunitário enfraquecido.

Depois de apresentada declaração médica, estes docentes têm direito a permanecer em casa, sendo dispensados do trabalho presencial, à semelhança do que aconteceu quando foram retomadas, em Maio passado, parte das aulas presenciais  do ensino secundário.

Contudo, a realidade agora é outra: o ensino é suposto ser integralmente presencial, pelo que não é admitido o teletrabalho lectivo. Quem não vier trabalhar por integrar grupo de risco pode beneficiar desta situação durante 30 dias, mas depois, se quiser continuar a faltar, só mediante atestado médico, com as penalizações conhecidas e previstas na lei. O que ainda está por explicar é como será atestada a doença de quem não está efectivamente doente – apenas deseja não vir a estar, porque a infecção do covid-19 poderá ter, nestes casos, complicações potencialmente fatais.

Uma carga de trabalhos

Com o recrudescer da pandemia, surgem as primeiras baixas nas escolas: alunos em casa, infectados ou em isolamento por terem tido contacto com familiares, colegas ou amigos portadores do vírus. Mas como – já se percebeu – a regra é resistir ao máximo à tentação de mandar toda a gente para casa, as aulas presenciais continuam a funcionar. No entanto, os professores vão sendo pressionados para, ao mesmo tempo que asseguram integralmente o seu horário lectivo, elaborarem e acompanharem planos de trabalho destinados aos alunos em confinamento.

Trata-se no fundo de implantar a famosa solução do b-learning, ou ensino semi-presencial, mas sem qualquer ajustamento nos horários dos professores nem contratação de mais docentes para dar conta do acréscimo de trabalho. Uma situação ainda mais revoltante quando sabemos que há professores disponíveis para o teletrabalho que o ME obriga a entrar de baixa por não querer reconhecer, pelo menos nalguns casos, a necessidade de implementar o ensino à distância.

No caso dos professores a quem está a ser pedido muito mais do que é a sua obrigação, é evidente que devem recusar a carga de trabalho, não reconhecido nem remunerado, que lhes querem impor. Sob pena de mais este abuso vir a fazer parte do novo normal…

A lei da rolha

Uma tendência preocupante que se desenhou esta semana e a comunicação social mais atenta não deixou de noticiar: o governo recusa-se a divulgar dados acerca do número de escolas e turmas que não estão a ter aulas devido à pandemia, e quantos alunos, professores e funcionários se encontram infectados. Estes casos existem, pois todos os dias são noticiados pela comunicação social. E custa a crer que o ME, que monitoriza tudo o que se passa nas escolas, não esteja também a compilar estes dados. Que, contudo, não são divulgados.

Esta lei da rolha que, como quem não quer a coisa, se está a tentar impor, contrasta com o que tem sido a política de verdade e transparência do governo sobre o tema da covid-19, com as conferências de imprensa e os relatórios diários da evolução da pandemia. É como se quisessem perpetuar o mito de que não há contágios nas escolas, não assumindo nem investigando os casos que venham a ocorrer. O que denota a tentação perigosa de manter as escolas abertas, a todo o custo e a qualquer preço. Mesmo o de ocultar o real impacto da pandemia no meio escolar.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

4 COMMENTS

  1. Tem toda a razão, colega!
    Não podem obrigar-nos a trabalhar mais horas do que as que estão no nosso horário. Se um dos alunos adoecer e tiver de ser apoiado à distância, que ponham os colegas que estão em casa sem fazer nada a trabalhar com ele.

  2. E a minha escola onde duas funcionárias e uma professora está em casa com covid e nenhum de nós faz testes nem sequer é avisado?

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