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Avaliação da Semana | Serenidade nas tropas, mas faltam os generais…

O povo – escolar – é sereno…

Com um misto de serenidade e resignação, os portugueses adaptam-se ao novo quotidiano imposto pelas medidas de contenção do surto do novo coronavírus. Nas escolas, isto implicou o fim das aulas e da presença física dos alunos e da generalidade dos professores. Mas ninguém teve férias escolares antecipadas.

Em isolamento nas suas casas, professores e alunos encetaram um novo tipo de relação pedagógica, intermediada pelas tecnologias de informação. O email, as redes sociais e as plataformas digitais permitem o contacto regular entre professores e alunos, a marcação de tarefas, a sua realização e envio aos professores e o feedback final por parte destes. Recursos que têm vindo a ser explorados activamente por docentes e discentes.

Claro que a tentativa apressada de implementar o ensino online nos últimos dias de aulas do 2.º período envolve riscos e tem limitações. Desde logo, pelas enormes assimetrias existentes no acesso aos equipamentos e tecnologias. Basta haver um ou dois alunos na turma sem computador ou acesso à internet em casa para que todo um programa de ensino à distância fique comprometido. Sejam quais forem as condições em que as escolas se vejam obrigadas a prestar o seu serviço educativo, há valores essenciais, como a inclusão e a igualdade de condições e oportunidades para todos os alunos que nunca poderão ser postos em causa.

Ainda assim, e apesar das dificuldades e do natural apalpar do terreno, inevitável perante uma situação nunca antes vivida, pode dizer-se que a grande maioria dos professores vêm revelando moderação e sensatez, quer no uso que fazem das tecnologias, quer no que pedem aos seus alunos. E também é justo reconhecer: a maioria destes, sempre que pode, responde à chamada.

Uma guerra sem generais

A crise de saúde pública em que estamos imersos evidenciou, na Educação, uma realidade há muito indesmentível: a falta de liderança e de rumo da parte do ministério que tutela o sector.

Claro que, perante a dimensão das dificuldades e dos problemas a resolver, ninguém desejaria respostas precipitadas em relação a um futuro próximo que se afigura tão imprevisível como inquietante. Mas percebe-se já que o 3.º período não irá começar normalmente na data prevista. Que as inúteis provas de aferição deveriam ter sido já canceladas para este ano, evitando mais um foco de perturbação das avaliações do 2.º período. E que estas bem poderão vir a ser as últimas que se fazem este ano.

Em relação a estes problemas, o Ministro nada diz. Novamente desaparecido, limita-se a permitir que os seus assessores e secretários de Estado prossigam a política habitual de, através de comunicados e notas informativas, lançar bitaites sobre o que os outros – escolas, professores, alunos, pais, instituições de solidariedade – poderiam fazer. Mas pouco ou nada ouvimos sobre compromissos do governo e do aparelho ministerial em relação à escola e aos alunos.

O combate ao surto do coronavírus tem sido apresentado como uma guerra em defesa da saúde pública, do nosso modelo de sociedade e da forma como nos habituámos a viver. Ora para travar esta guerra, da qual involuntariamente nos tornámos soldados, precisamos de reconhecer, em quem está à frente das instituições, capacidade de liderança, conhecimento da realidade, determinação e coragem. Na Educação, claramente, faltam generais à altura do desafio.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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