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Avaliação da Semana | Regresso às aulas em tempo de pandemia

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Regresso às aulas em tempo de pandemia

A necessidade de reabrir as escolas tem sido consensual. Desejada por pais, que percebem agora, melhor do que nunca, as vantagens da escola presencial; por alunos, ansiosos de reencontrar os colegas e retomar o convívio e a aprendizagem em grupo que só a escola proporciona; por governantes e empresários, que querem os pais a trabalhar e não a tomar conta dos filhos em casa; por professores, conscientes das desvantagens e limitações do ensino online.

No entanto, bastaram dois ou três dias de escola presencial – na maior parte dos casos ainda sem aulas a sério, mas apenas as habituais recepções e apresentações – para se começarem já a perceber as deficiências e os riscos do modelo de desconfinamento que foi adoptado na reabertura da escola presencial.

As opções essenciais eram conhecidas desde Julho, e sempre mereceram a crítica dos professores e outros profissionais no terreno: a recusa em desdobrar ou reduzir o tamanho das turmas, aumentar o número de salas de aula disponíveis, contratar mais professores ou comprar equipamentos como carteiras individuais ou separadores em acrílico para todas as escolas. Cedo se percebeu que a ideia era regressar à normalidade, mas sem investir seriamente nas condições que permitiriam a normalidade possível em contexto de pandemia.

Também nos acessos às escolas e na melhoria dos transportes escolares nada de significativo se fez. De que serve criar horários desfasados de entrada nas aulas, se os alunos chegam todos à mesma hora, acumulando-se à entrada na escola? De que serve formar “bolhas” dentro do espaço escolar, se depois as diferentes bolhas se misturam nos autocarros repletos de alunos?

O uso de espaços de utilização comum, como casas de banho e cantinas, será outra dificuldade. Sem condições para garantir distanciamentos e procedimentos correctos, depressa a maioria das escolas passará a fazer vista grossa ao que se passa nestes locais. A sugestão das refeições take away já vai nesse sentido: resolve-se o problema da falta de espaços para comer com o devido distanciamento dos colegas da forma mais simples e desresponsabilizadora, deixando os alunos entregues a si mesmos.

Outro problema é o da eterna falta de pessoal auxiliar nas escolas: um número clássico, em exibição no arranque de cada ano lectivo, e nesse aspecto não é novidade. O que espanta é a incapacidade de quem decide estas coisas em compreender que, num ano tão excepcional como o que estamos a viver, pelo menos este problema deveria estar resolvido antes do primeiro dia de aulas.

As consequências da abertura das aulas em pleno recrudescimento da pandemia terão, no curto prazo, outras implicações. Algumas escolas não reabriram esta semana por haver infectados entre o pessoal docente e não docente ou registo de surtos na comunidade local. São casos pouco falados a nível nacional, mas existem. E outras, que já funcionaram na primeira semana, poderão encerrar total ou parcialmente nos próximos dias, à medida que forem detectados novos casos positivos entre a população escolar.

Posta de parte a ideia de um novo confinamento, pelos custos económicos e sociais incomportáveis que traria, um modelo de funcionamento intermitente, abrindo e fechando escolas ao ritmo da evolução da pandemia, parece tornar-se incontornável para os tempos mais próximos.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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