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Avaliação da Semana | Professores estrelas de TV, notas inflacionadas, incertezas do novo ano

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Professores, estrelas de TV?

O #EstudoEmCasa trouxe fama a alguns professores e levou-os a outros públicos além dos alunos da telescola. Foi o caso da dupla de professoras de Inglês que inventou uma espécie de rap para ensinar os meses do ano. O convite para irem a programas de entretenimento televisivo foi insistente, e as colegas acabaram por não resistir.

Durante a semana, assunto foi amplamente discutido entre os professores. Uma discussão que começou aqui no ComRegras, chegou à imprensa e se espalhou pelas redes sociais. Não tendo estado em causa, suponho, a liberdade pedagógica inerente à criação de uma estratégia pedagógica motivadora para os alunos, a questão colocou-se ao nível do estrelato televisivo. Devem os professores expor-se desta forma, a eles e ao seu trabalho, em programas de entretenimento? Discutível, sobretudo quando uma das envolvidas acabou a confessar o seu arrependimento e as pressões a que terá sido sujeita.

Pela minha parte, batendo-me há muitos anos por uma maior visibilidade pública da classe docente e por um papel mais influente desta, tanto junto da opinião pública como na definição das políticas educativas, só posso congratular-me com o protagonismo dado às colegas, ainda para mais assente no reconhecimento da sua competência profissional. Mas importa estar atento às cedências e compromissos que podem implicar os quinze minutos de fama televisiva. Quer isto dizer que qualquer professor que, nessa qualidade, vá à televisão, deve procurar, com a sua intervenção valorizar e dignificar a profissão. Usar com inteligência o meio televisivo, sem se deixar instrumentalizar por ele. Pois reduzir o nosso trabalho à caricatura da sala de aula e à piada fácil, preconceituosa e estereotipada é uma velha tradição do humor à portuguesa. Que vem já do tempo, pelo menos, das Lições do Tonecas

Notas inflacionadas, o crime que compensa

Combater a inflação das notas continua a ser a quixotesca missão que o ME, incapaz de mexer com as inércias e interesses instalados em torno do sistema de ingresso no ensino superior, destinou a si próprio.

No entanto, a semana que passou revelou alguns dos contratempos que a determinação ministerial terá de enfrentar: os inspectores da IGEC não querem assumir a tarefa – dizem-se poucos, cansados e envelhecidos. O confinamento esticou prazos processuais e isso fez com que processos disciplinares às escolas e dirigentes escolares alegadamente envolvidos na prática em anos anteriores não estejam ainda resolvidos – dificultando o efeito moralizador decorrente da eventual condenação. Por último, mesmo que penas efectivas venham a ser aplicadas, o seu alcance em relação aos colégios é limitado – e todos sabemos que é sobretudo aqui que persistem os casos mais graves e persistentes de inflacionamento das classificações.

As incertezas do novo ano lectivo

Publicamente, ainda está quase tudo por definir em relação ao próximo ano lectivo. De concreto, apenas se sabe que a transferência da segunda fase dos exames para setembro não irá permitir o arranque normal do novo ano escolar logo no início do mês. E também que, não estando ainda solucionada a crise pandémica que estamos a viver, as medidas de confinamento, ainda que parciais, irão continuar a marcar presença no quotidiano escolar.

Contudo, há já indícios que se afiguram preocupantes: percebe-se, por exemplo, que o profissionalismo e a abnegação com que os professores portugueses abraçaram a missão de ensinar os seus alunos à distância estará a ser entendida como disponibilidade para continuar a trabalhar, futuramente, sem horários nem limites definidos. O ME, que foi rápido a cativar as verbas que as escolas pouparam em despesas de funcionamento, mostrou-se incapaz de aproveitar e excelente oportunidade do encerramento forçado para mandar retirar o amianto nos muitos locais em que ele subsiste como um perigo para a saúde pública.

Também já se antevê a necessidade de desdobrar as turmas numerosas que continuam a ser regra nas nossas escolas e de continuar a assegurar remotamente parte da actividade lectiva. Mas nada se diz acerca da necessidade de contratação de mais professores que esta opção implica, nem de lhes fornecer os equipamentos informáticos para trabalharem online. Uma despesa por vezes avultada, que lhes continua a sair do bolso…

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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