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Avaliação da Semana | Prioridade à Escola?

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 Prioridade à Escola?

Apesar de o número de novos casos de covid-19 ter vindo a descer acentuadamente desde o início do confinamento, os casos graves que exigem internamentos hospitalares e cuidados intensivos persistem em valores ainda elevados. Ainda assim, abre-se aos poucos um horizonte de esperança e o inevitável desconfinamento, fundamental ao retomar da normalidade na vida económica e social, tornou-se tema incontornável. Mas como fazê-lo de forma segura e gradual, não comprometendo o que até agora se conseguiu, tendo em conta que, com o atraso na distribuição de vacinas, continuamos longe da meta desejável, a imunidade de grupo?…

Embora o Governo não tenha ainda tornado públicos os seus planos, há uma ideia que já fez e seu caminho e parece ter-se consensualizado a nível social e político: assim como se resistiu até ao fim ao seu encerramento, agora deverão as escolas ter prioridade na reabertura. Mesmo com lojas, restaurantes ou serviços não essenciais encerrados, defende-se que as escolas deveriam reabrir rapidamente, para minimizar os elevados prejuízos que o seu fecho acarreta para o desenvolvimento pessoal e social das crianças e jovens em isolamento. Menos referido, mas não menos importante nas contas governamentais, é o impacto na economia, com muitos pais e mães obrigados a ficar em casa para acompanhar os filhos menores.

Há, no entanto, um pesado óbice ao regresso às aulas presenciais: a necessidade de assegurar condições de segurança a alunos, professores e funcionários. De outra forma, estaremos a fazer da população escolar uma cobaia involuntária de um desconfinamento irresponsável. Depois da narrativa falhada das “escolas seguras”, parece óbvio que as medidas tomadas em Setembro pecaram por insuficientes. Mas não se vê qualquer planeamento no sentido de melhorar substancialmente as carências detectadas. A única promessa nova é a maior frequência e regularidade dos testes – mas mesmo estes serão apenas para professores, funcionários e alunos do secundário. Parece, contra todas as evidências entretanto surgidas, que se pretende continuar a alimentar o mito de que as crianças não adoecem nem contagiam.

Modalidades de ensino semi-presencial aliviariam a pressão sobre as escolas e poderiam ser uma alternativa, como são noutros países, conjugando os benefícios da escola presencial com uma ocupação reduzida dos espaços escolares. Mas a falta de computadores para os alunos e professores que deles necessitem e de ligações à internet compatíveis com as exigências das plataformas de [email protected] torna inviável esta aposta. E é por aqui que chegamos ao cerne da questão: a continuada falta de investimento no sector educativo, mantido a funcionar nos mínimos, com sucessivos governos mais preocupados em realizar mudanças cosméticas que permitam a cada ministro “deixar a sua marca” do que em atacar os problemas de fundo que comprometem a melhoria qualitativa da escola pública.

Em boa verdade, o desconfinamento escolar de que se quer fazer prioridade esbarra numa contradição de fundo que, a não ser que se assuma de vez a realidade e arrepie caminho, parece insanável: é que há já muitos anos a Educação deixou efectivamente de ser prioritária.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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