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Avaliação da Semana | O EstudoEmCasa e a escola refém dos exames

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 EstudoEmCasa, a telescola no século XXI

Não sendo a solução ideal, a opção pelas aulas televisivas acaba por ser a menos má, no actual contexto, para levar a escola a milhares de lares portugueses. Casas onde não existe um computador com internet que possa ser usado pelos alunos em isolamento forçado. Para já, é justo assinalar, no mínimo, a rapidez e aparente eficácia com que a iniciativa se está a concretizar.

Definida e apresentada em tempo recorde a grelha de programação, seria fácil partir, desde já, para o exercício da crítica e o levantar de objecções a um modelo de ensino a distância que, obviamente, não irá fazer milagres. Pela minha parte, não embandeirando em arco com a resposta encontrada, não me parece que a crítica fácil deva ser esse o caminho, no momento difícil em que a nau da Educação tenta abrir caminho por mares nunca dantes navegados. Aguardemos então pelas sessões televisivas, no ar a partir de 20 de Abril, para que um juízo mais fundamentado se possa fazer em relação às suas virtualidades e naturais limitações.

Uma escola refém dos exames

Quando se esperaria que a saúde e a vida de professores e alunos fossem salvaguardadas acima de outros interesses, confirmou-se a preocupação obsessiva do ME com os exames nacionais do ensino secundário. Numa absurda inversão de prioridades, reorganiza-se o ano lectivo em função dos exames, em vez de serem estes a adaptar-se, como seria natural, às contingências que impediram o desenvolvimento normal das actividades escolares. A opção faz ainda menos sentido se considerarmos que um dos fios condutores da política educativa deste e do anterior ministério tem sido justamente a desvalorização dos exames e provas finais, apostando antes no reforço da avaliação contínua e formativa.

Analisando com atenção o que ficou decidido, confirma-se, como sempre se suspeitou, que não são razões pedagógicas, nem de saúde pública, que poderão determinar o regresso prematuro à escola dos alunos do 11.º e 12.º ano. Pois os exames destes alunos não contarão para a sua nota final na disciplina, que será este ano definida unicamente pela avaliação interna. Trata-se apenas de assegurar a realização dos exames que constituem provas específicas para acesso ao ensino superior. E de dar o número de aulas suficientes que permita sumariar a matéria a ser avaliada.

Como pano de fundo, a incapacidade de equacionar o óbvio, que seria responder ao encurtamento do ano lectivo com um corte correspondente nas matérias dos exames. E um ensino secundário completamente refém do superior, em vez de adquirir a autonomia de que carece para desenvolver, com os seus alunos, objectivos e finalidades próprias.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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