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Avaliação da Semana | O diálogo de surdos com o ME e as facadas na escola

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ME e sindicatos: o diálogo de surdos

Decorreram no passado dia 22 os primeiros encontros formais entre o actual governo e os sindicatos de professores. Destas reuniões, meramente exploratórias e sem agenda concreta definida, apenas dois factos significativos houve a registar:

  • O fim do castigo imposto ao STOP, sindicato desalinhado e desafecto de federações e plataformas, que nos últimos tempos vinha sendo ostensivamente ignorado pelo ME;
  • O silêncio ministerial, quer quanto a propostas ou manifestações de intenções em relação à classe docente, quer relativamente a respostas aos problemas, aspirações e reivindicações dos professores.

Depreende-se assim que, na perspectiva ministerial, a recuperação incompleta do tempo de serviço é assunto arrumado, a falta de professores se resolve com medidas pontuais, a indisciplina e violência escolar continuam a ser situações residuais, o excesso de trabalho e de burocracia são invenções dos sindicatos. Que quase tudo nas escolas funciona no melhor dos mundos e as únicas reformas que interessa fazer são as decorrentes da flexibilidade curricular e da escola inclusiva.

Perante um ME em negação, competirá aos professores e aos seus representantes sindicais relançar, no novo ciclo político, a sua agenda reivindicativa.

Facadas na escola

Parece ter-se tornado uma nova e preocupante tendência, e as duas graves ocorrências desta semana complicam a narrativa dos “casos isolados” e do fenómeno “residual” com que o ME costuma desvalorizar o sucedido: em vez de se ficarem pelos insultos e ameaças ou usarem as mãos e pés para agredir, alguns jovens problemáticos estarão a levar consigo armas brancas para ajustar contas com colegas com quem andam desavindos.

Num dos casos, a investigação da PJ concluiu que o jovem que esfaqueou o colega teria mesmo intenção de o matar, o que só não aconteceu por, felizmente, não ter atingido nenhum órgão vital. No outro, ter-se-á virado o feitiço contra o feiticeiro: o dono da faca foi desarmado pela potencial vítima, que se virou ao agressor e o feriu no pescoço.

O alastrar da violência escolar e o número crescente de casos graves demonstram que, nalgumas situações já lá não vamos com manifestações de repúdio nem apelos à calma e à boa convivência. Devemos ter coragem de admitir que em casos extremos, felizmente raros, há mesmo jovens que não reúnem condições para frequentar a escola que é de todos. Jovens delinquentes ou pré-delinquentes, além de constituírem risco para quem os rodeia, precisam eles próprios de ser ajudados, num ambiente que, regra geral, as escolas tradicionais não lhes podem proporcionar. A não ser que aceitemos transformar a escola pública numa casa de correcção…

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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