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Avaliação da Semana | Novos computadores, aulas dois-em-um, mais casos de covid

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Novos computadores começam a chegar

Foi uma das promessas dos tempos do confinamento, quando se evidenciaram as enormes desigualdades entre os alunos no acesso às tecnologias: no ano lectivo seguinte, haveria distribuição de computadores e ligações à internet para todos os alunos, de forma a que, num novo quadro de ensino à distância, ninguém ficasse privado do acesso à educação.

O programa, previsto para implementar ao longo do primeiro período, somou alguns atrasos, mas com a chegada dos primeiros equipamentos às escolas e a definição de regras para a sua distribuição, estarão criadas as condições para que, nas próximas semanas, cem mil alunos carenciados do ensino secundário possam levar para casa um kit que incluirá computador portátil, headset, pen para acesso à internet e até… uma mochila!

Aulas dois-em-um

Com o número crescente de alunos em isolamento ou quarentena, algumas escolas estão a enveredar por uma modalidade sui generis de ensino semi-presencial: enquanto parte da turma está presente na escola, os restantes acompanham em casa, pelo computador, as aulas presenciais.

Não me parece que este sistema, que pontualmente poderá “desenrascar”, tenha condições para se impor como solução. Desde logo, porque uma aula dada à distância tem requisitos técnicos e pedagógicos próprios, muito distintos dos da aula presencial. Salvo situações verdadeiramente excepcionais, o mais certo é que o professor que tente cumprir simultaneamente as duas funções acabe por não conseguir cumprir satisfatoriamente nenhuma das duas.

Ainda assim, acredito que, colocados perante o desafio, um número significativo de docentes, pensando sobretudo nos seus alunos e na forma de chegar a todos eles, o aceitará. O que deve ficar claro – e nisso a experiência do primeiro confinamento foi esclarecedora – é que não pode ser obrigado a fazê-lo. O direito à imagem que permitiu a muitos alunos assistir aos zooms de câmara desligada também é válido para os professores: o seu vínculo contratual com o ME não inclui a cedência de direitos de imagem: nenhum docente é obrigado a deixar-se filmar, ou a filmar-se a si próprio, a dar a sua aula.

 Aumentam os casos de covid-19 nas escolas

Poderá não ser o “aumento galopante” de que falava alguma imprensa, mas o número crescente de casos positivos à covid-19 entre as comunidades escolares é uma realidade incontornável. A Fenprof, na sua lista em actualização permanente, enumera já mais de 900 escolas com casos activos. Mas o secretário de Estado da Saúde que admitiu, em conferência de imprensa, a existência de surtos em 477 escolas, foi desmentido pelos serviços do seu próprio ministério, que reduziram o número para apenas 68, a maioria na região de Lisboa. Em que ficamos então?

Parece evidente que não existem dados, em quantidade e com qualidade suficiente, para se fazer uma avaliação rigorosa do impacto da pandemia nas escolas. Quando, em mais de 80% dos casos confirmados, o rastreio não permite determinar a origem do contágio, é evidente que, por um lado, a difusão comunitária do vírus está descontrolada e, por outro, continuamos a desconhecer as condições concretas em que se produz a transmissão em locais como as escolas, os transportes públicos ou os espaços de restauração e comércio, entre outros.

Até podemos aceitar que, com um escrupuloso cumprimento das regras estabelecidas, as escolas têm condições para serem espaços relativamente seguros. Mas é óbvio que essa segurança poderia ser significativamente reforçada se fossem identificados, com rigor, os pontos fracos dos planos de contingência que estão a ser aplicados. O secretismo e a opacidade nunca inspiraram confiança nem são bons conselheiros na tomada de decisões. Em tempos de pandemia, ainda menos.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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