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Avaliação da Semana | Limitações do #EstudoEmCasa e perigos do regresso às aulas

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Limitações do #EstudoEmCasa

Existe, desde que o programa do #EstudoEmCasa foi anunciado, um grande consenso em relação à importância da iniciativa. Na verdade, sabendo-se que um número significativo de alunos enfrenta dificuldades que limitam ou impedem completamente o contacto regular com os seus professores a partir de casa, justifica-se inteiramente o recurso a uma tecnologia que, embora sendo “do século XX”, chega mais facilmente a todos os lares portugueses do que a internet e os computadores.

No entanto, as aulas pela televisão levantam alguns problemas e têm as mesmas limitações de outras modalidades de ensino a distância: não se adequam ao carácter eminentemente prático que está na essência de algumas disciplinas nem permitem dar o acompanhamento directo e em tempo real aos alunos envolvidos que se consegue nas aulas presenciais. O melhor exemplo aqui são as aulas de Educação Física, condenadas a tornarem-se uma caricatura de si próprias se os professores se limitarem a tentar reproduzir, no estúdio, a programação de uma aula normal da disciplina.

Para além disso, as aulas pela TV são permanentemente escrutinadas, não só pelos alunos, mas pelo olhar crítico dos pais e de qualquer curioso que decida espreitar a emissão. Torna-se fácil, sabendo-se que as emissões são gravadas à primeira, sem cortes, repetições ou edição dos vídeos, encontrar aqui ou além uma hesitação, uma imprecisão, ou até reais ou supostas falhas científicas. Sendo que estas não sinais de que o professor não domina a matéria, mas apenas que sabe não estar a falar para uma audiência de especialistas. Em regra, resultam da simplificação que é necessário fazer dos conteúdos, para os tornar mais compreensíveis ao público escolar a que se destinam.

Os perigos do regresso às aulas

Se na passada semana se assinalavam aqui algumas das muitas incógnitas existentes relativamente à reabertura parcial das aulas presenciais, nesta altura a maior parte dessas dúvidas encontram-se esclarecidas. Mas os receios não parecem ter diminuído. Há pelo menos duas petições em processo de recolha de assinaturas, uma a exigir que a decisão seja revertida, outra a reclamar a realização prévia de testes a todos os que irão servir de cobaias ao desconfinamento parcial e programado das escolas portuguesas. Que começará com os estudantes mais velhos e prosseguirá daí a duas semanas, com os mais novinhos, as crianças que frequentam as creches.

Na verdade, a reabertura das escolas secundárias parece ser um exercício demasiado precipitado e voluntarista, em que se enunciam condições que, no terreno, estarão longe de garantidas. Ao mesmo tempo, o habitual voto de confiança nas decisões caso a caso que as direcções escolares venham a tomar mostra que o ME se prepara, como sempre, para tentar lavar as mãos de problemas e responsabilidades.

Para os professores, parece claro que terão mesmo de dar as suas aulas, eventualmente a dobrar, porque as limitações no uso dos espaços impõem o desdobramento de algumas turmas. Ao mesmo tempo, aceita-se que os alunos não venham às aulas – ao contrário dos professores, não precisam de declaração médica para serem dispensados – mas também se lhes diz que, se não vêm porque não querem, perdem o direito ao apoio não presencial. Por último, agora e sempre, a ordem é para poupar: se não houver professores com horas disponíveis, reduz-se a carga horária dos alunos até metade do que está estabelecido.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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