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Avaliação da Semana | FA nas escolas, reabertura precipitada e as “orientações” às escolas

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Forças Armadas sempre ao lado das escolas

Sendo altamente discutível a decisão de abrir as portas das escolas secundárias já a partir da próxima segunda-feira, há pelo menos um ponto parece não merecer contestação: o empenho e o profissionalismo das Forças Armadas, que ao longo da semana visitaram todas as escolas que irão reabrir, dando formação ao pessoal e fornecendo os equipamentos e consumíveis de protecção e desinfecção.

E nem a colagem do ministro da Educação que, incapaz de assumir o seu posto de comando e as suas responsabilidades institucionais e políticas no ministério, preferiu andar a fazer serviço de entregas, manchou a imagem ou comprometeu a acção pronta e competente dos militares na distribuição atempada dos materiais.

 Reabertura escolar precipitada

A reabertura parcial das escolas, apenas para alunos do secundário e aulas de disciplinas com exame parece fazer sentido, no âmbito mais vasto do desconfinamento controlado e da retoma progressiva das actividades económicas e da vida social. No entanto, se olharmos para o que se prepara para os próximos dias de escola, talvez as coisas não sejam tão simples.

De facto, a estratégia delineada não se fundamentou em critérios pedagógicos ou regras de saúde pública, mas sim na vontade política de salvar os exames nacionais. Pois se há alunos minimamente capacitados e motivados para estudar em casa, esses são precisamente os que preparam o acesso ao ensino superior. As aulas presenciais estão a fazer muito mais falta aos alunos com menor autonomia e sem pais com condições para os ajudar: estou a pensar especificamente nos mais novos e nos que têm necessidades especiais ou precisam de apoios específicos para conseguirem concretizar as suas aprendizagens.

As diversas e variadas tomadas de posição contra a reabertura das aulas – de alunos, pais, docentes, sindicatos e conselhos gerais de escolas e agrupamentos – mostram que a medida foi muito pouco discutida e consensualizada com os que irão dar o corpo ao manifesto. E se sentem usados como cobaias de uma experiência social e vítimas de uma precipitada decisão política.

 (Des)orientações às escolas

Ao fim de um mês de ensino não presencial neste terceiro período, e depois de, durante semanas, se ter apostado na “autonomia” das escolas, que é como quem diz, na capacidade de se desenrascarem sem ajuda do ministério, alguém entendeu que se andaria a trabalhar em roda demasiado livre. E enviou às escolas algumas “orientações”, não só para o funcionamento das aulas presenciais, mas também para o controle da assiduidade e da realização de tarefas dos alunos que continuarão a estudar em casa.

O documento não assinado que chegou às escolas tenta impor a aplicação rigorosa das determinações previstas no Estatuto do Aluno. Com faltas, participações, registos, planos de recuperação e até, nos casos de reiterado incumprimento, comunicação a entidades exteriores à escola.

Contudo, há um ponto em que a bota não bate com a perdigota. É que difícil exigir aos outros quando não fazemos a nossa parte. E os alunos também só estarão obrigados a tudo o que o ME lhes quer impor se dispuserem dos meios tecnológicos para fazerem os trabalhos e se manterem em contacto. Basta o aparelho “avariar” ou ser necessário ao pai ou à mãe em teletrabalho para que os imperativos “deveres do aluno”, subitamente, se desvaneçam…

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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