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Avaliação da Semana | Suspensão das aulas, directores desorientados, especialistas irresponsáveis

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Governo suspende as aulas

Pressionado de todos os lados, o Governo acabou por tomar a decisão que se impunha, decretando o encerramento das actividades com alunos em todos os estabelecimentos de ensino. O objectivo é, naturalmente, impedir que as escolas se transformem em focos de contágio da doença provocada pelo novo coronavírus. Medidas de contenção semelhantes têm vindo a ser tomadas na maioria dos países europeus.

Percebe-se que foi uma decisão difícil, tendo em conta a devoção do PS à escola a tempo inteiro, mesmo quanto o conceito perde a dimensão pedagógica e se confunde com a mera guarda de crianças. Também houve que vencer o preconceito contra os professores, que assim ficarão menos ocupados do que o Governo desejaria. Mas foi, sem sombra de dúvidas, a decisão certa.

Directores desorientados

A necessidade de algum protagonismo levou os representantes dos directores a assumir, por estes dias, posições nem sempre claras e coerentes em relação ao surto do covid-19. É certo que cedo se aperceberam da dificuldade crescente em manter as escolas em funcionamento normal, e nesse sentido passaram a defender a antecipação do final do período. Mas também é verdade que alimentaram a indecisão e a confusão com as sugestões que foram fazendo, como a de antecipar as férias da Páscoa em duas semanas e começar o terceiro período no final do mês. Ou a preocupação com as aulas não dadas, alvitrando com a possibilidade de marcar aulas suplementares – sempre a darem ideias a um ministério avesso a reconhecer o trabalho extraordinário dos professores e a achar que trabalham pouco e ganham demasiado.

Já depois de o governo ter decidido parar as aulas, alguns directores parecem revelar inesperadas dificuldades de interpretação do normativo legal, convocando os professores para se apresentarem nas escolas. Ora não faz qualquer sentido que os professores sem alunos vão para a escola cumprir o horário lectivo. Pelo contrário, a suspensão das aulas foi decretada para permitir o isolamento social de professores e alunos. Sendo verdade que ninguém está de férias, o que se espera é que os professores trabalhem, sempre que possível, a partir de casa.

Epidemiologistas do regime

A respeito do surto do coronavírus, é difícil conceber um conjunto de intervenções mais erráticas e desajustadas do que as que foram protagonizadas pela actual e o antigo director-geral de Saúde e pelo porta-voz do pomposo Conselho Nacional de Saúde Pública. Começaram por nos garantir, primeiro, que o vírus ficaria localizado na China e nunca chegaria até nós. Depois já admitiam essa possibilidade, mas afiançavam que a doença seria menos grave do que uma vulgar gripe. E ainda há três dias atrás defendiam que as escolas deviam continuar abertas, apesar de serem ambientes especialmente favoráveis à transmissão viral. Com alguma perfídia, Francisco George chegou mesmo a acusar os professores que ousaram passar uns dias no estrangeiro durante a pausa lectiva do Carnaval de serem os responsáveis pela introdução da doença nos ambientes escolares.

Quero acreditar nas boas intenções dos especialistas em saúde pública que o regime promoveu aos mais altos cargos no sector. Agiram seguindo o princípio importante de tentar manter a calma e não criar alarmismo. Só que para isso é necessário transmitir informação rigorosa, não escamoteando os riscos, não criando falsas expectativas e, acima de tudo, falando verdade. Quando o cidadão comum sente que não pode confiar nos responsáveis, está aberto o caminho para o boato, o pânico e os comportamentos socialmente irresponsáveis como os que levaram ao esgotamento, nas lojas, de alguns bens de primeira necessidade.

Perante tamanha irresponsabilidade e insensatez, bem andou António Costa ao confiar no seu instinto político, dando ouvidos ao que recomendavam as instituições europeias, os parceiros sociais e os partidos com representação parlamentar. E depois de ter prometido seguir as indicações do CNSP acabou por decidir, em Conselho de Ministros, suspender as aulas em todos os estabelecimentos de ensino.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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