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Avaliação da Semana | Escolas fechadas, licenciados, demasiadas horas na escola

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Escolas fechadas por todo o país

Com 85% de adesão e 90% das escolas encerradas – números dos sindicatos, não desmentidos pelo Governo – a greve de trabalhadores não docentes da passada sexta-feira traduziu bem a dimensão do mal- estar, descontentamento e revolta que grassa nas escolas e que está longe de se restringir apenas aos professores.

A situação dos assistentes operacionais está longe de ser invejável. Os baixos salários, a falta de perspectivas de carreira e de valorização profissional, a insegurança e as más condições de trabalho, a ameaça da municipalização, a falta de pessoal em muitas escolas, que resulta em sobrecarga de trabalho para os que permanecem em funções: tudo isto torna a profissão especialmente ingrata e desgastante. Contudo, e embora estas problemas venham de longe e as reivindicações dos trabalhadores sejam antigas, a verdade é que tardam as soluções. Não se vislumbra, sequer, um olhar sério para estes problemas, da parte do Governo. Na ausência de respostas, a luta será, portanto, para continuar…

Licenciados a mais, ou a menos?

Parece a velha metáfora do copo meio cheio ou meio vazio, consoante a perspectiva do observador, mas a verdade é que o tema das qualificações académicas e profissionais dos portugueses, que esta semana voltou à baila, é complexo. Temos ou não suficientes diplomados entre a população activa portuguesa? Não há resposta simples…

Se compararmos com a realidade europeia, há efectivamente um défice de qualificações na população activa portuguesa, fruto em larga medida da lenta e tardia escolarização. Esta realidade traduz-se, dizem as estatísticas e a literatura, em empregos pouco qualificados e maiores dificuldades de inserção no mercado de trabalho e reconversão profissional. E explica, em grande medida, os baixos salários que por cá continuam a predominar.

Mas a questão é mais complexa. A verdade é que há um surto, muito recente, de ingressos no ensino superior, motivado pela extensão da escolaridade obrigatória até ao 12.º ano e as dificuldades de acesso ao primeiro emprego. Calcula-se que, entre os jovens nascidos no ano 2000, mais de metade estão, ou estarão em breve, inscritos no ensino superior. E sabe-se bem qual é a realidade dos novos diplomados: em muitos casos, não encontram empregos compatíveis com as suas qualificações, acabando por emigrar, caso queiram trabalhar na área em que se formaram, ou aceitando empregos para os quais têm excesso de habilitações. Emprego qualificado e com salários a condizer não depende apenas da existência de mão-de-obra disponível: se não existir o desenvolvimento económico correspondente, pode ser apenas o pretexto para a perpetuação dos baixos salários.

 Demasiadas horas na escola

Desde a creche até ao fim da escolaridade básica, a realidade é a mesma: as crianças passam demasiado tempo na escola. Em média, cumprem um horário semanal de 35 a 40 horas, o que equivale a um típico horário laboral a tempo inteiro. Algo que psicólogos, pediatras e outros especialistas em desenvolvimento infantil são unânimes em considerar excessivo: falta tempo para estar com os pais, para conviver em família, para brincar.

E no entanto, paradoxalmente, a “escola a tempo inteiro” continua a fazer parte do programa do Governo. Nota-se um amplo consenso sobre a necessidade de manter creches, infantários e escolas abertos de manhã à noite, de forma a cumprirem, além da vertente educativa, a função de guarda de crianças até que os pais as possam vir buscar. A alternativa, que países mais desenvolvidos há muito concretizaram, mas que por cá parece esbarrar em interesses demasiado poderosos, não é alargar o horário escolar para que os pais possam continuar a trabalha muitas horas. Passa por reduzir a jornada laboral e ajustar horários de forma a poderem estar mais tempo com os filhos. É assim que se protege o bem-estar das crianças, proporcionando-lhes mais e melhores tempos de convívio familiar.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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