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Avaliação da Semana | Escolas desconfinadas, mas inseguras

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Desconfinamento escolar

A decisão de fechar o país, num novo período de confinamento em quase tudo semelhante ao vivido na Primavera do ano passado, mas mantendo abertos todos os estabelecimentos de ensino, foi polémica, até certo ponto inesperada e, na opinião de muitos, imprudente.

No entanto, eram evidentes os sinais da falta de vontade do Governo em regressar ao ensino não presencial. Quer porque nada foi preparado para que uma nova experiência fosse mais produtiva do que a do ano passado, quer porque existe a noção de que, mesmo nas condições ideais, o ensino remoto será sempre uma forma de ensinar e aprender com muitas limitações. Do lado das escolas e dos professores, esta tese foi defendida de forma praticamente unânime tanto por sindicatos docentes como por associações de directores. Contudo, não se percebeu que a questão essencial a decidir não era a vantagem da escola presencial ou os prejuízos de um mês de escola em casa, mas sim o risco de comprometer, desta forma, a eficácia do confinamento. Nem se terão estudado devidamente soluções intermédias, como o recurso ao ensino semi-presencial ou o confinamento apenas dos alunos mais velhos.

Na verdade, manter as escolas a funcionar traduz-se em deslocações diárias de mais de um milhão de alunos – contando com professores, pessoal auxiliar, funcionários de cantinas e transportes escolares e pais que levam os filhos à escola, podemos estar a falar de mais de dois milhões de pessoas em trânsito diário. Mesmo considerando os esforços quotidianos no sentido de assegurar um ambiente seguro no interior das escolas, sabemos que as situações e comportamentos de risco continuam, inevitavelmente, a acontecer. E embora se repita à exaustão que as escolas são seguras, a verdade é que não se testa nem investiga o suficiente para comprovar essa falsa evidência em que demasiada gente tenta acreditar.

A decisão de não encerrar as escolas é arriscada e de efeitos ainda pouco previsíveis. Esperemos poder, daqui por umas semanas, saudar a coragem e o acerto dos governantes que assim decidiram. Mas existe a probabilidade real de a jogada correr mal e virmos a ter de, em circunstâncias ainda piores do que as presentes, confinar as escolas.

Escolas abertas, mas inseguras…

Se para a decisão de manter as escolas abertas não é difícil apontar argumentos favoráveis, já a aparente vontade de nada mudar nas condições que são dadas às escolas para enfrentar a pandemia só pode merecer a veemente condenação.

Manter as aulas a funcionar em tempo de pandemia exige uma monitorização rigorosa dos eventuais contágios – onde andam os testes rápidos, prometidos desde Novembro? – informação clara e actualizada, às comunidades escolares e ao país, dos surtos activos, bem como medidas prontas e eficazes para os conter, identificando e quebrando as cadeias de contágio.

Por outro lado, mandar os professores para a linha da frente, trabalhar em condições a que não se sujeitam, e muito bem, a generalidade dos trabalhadores – sem distanciamento, em salas sobrepovoadas e, nesta altura do ano, insuficientemente arejadas – implicaria considerar os profissionais docentes como grupo prioritário em termos de vacinação. Ora para o primeiro-ministro, que assumiu a “opção política” de não confinar as escolas, esta é uma “questão técnica” sobre a qual, convenientemente, não se quer pronunciar…

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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